O QUE SE DIZ E O QUE SE ENTENDE
CECÍLIA MEIRELES
*
Orelha do livro:
Como alguns outros poetas brasileiros - entre os quais se destacam
Drummond, Bandeira, Mário Quintana - Cecília Meireles não limitou seu trato
com a palavra à construção de versos. Autora de livros infantis, de artigos
até hoje importantes sobre educação, Cecília dedicou-se com igual entusiasmo
à crônica. Sua produção, nesse setor, é quase tão extensa quanto a poética,
e não se limitava a jornal: divulgava-a também pelo rádio.
Ora, se ainda se precisa de uma'prova'a respeito do'senso de participação' de Cecília (há quem
considere sua poesia excessivamente inefável, desligada da realidade, exceto a
'exceção honrosa' de O Romanceiro da Inconfidência), sua atividade de cronista
é mais do que suficiente para destruir qualquer dúvida.
O que se Diz e o que se Entende reúne, nesse aspecto, a prosa mais incisiva
de Cecília. Aquilo que em sua poesia assume, em geral e de modo inevitável, um
sentido implícito, aqui se desdobra em testemunho da artista comprometida com
todas as dimensões da vida que a cerca: a social, a política, a cultural e,
quase profeticamente, a ecológica. Textos sobre a destruição da natureza nas
grandes cidades em função de um falso desenvolvimento urbano, ou sobre a
drástica redução da linguagem na fala cotidiana sob pretexto de melhor'se
comunicar', adquirem sem abrir mão da elegância e da delicadeza típicas de seu
estilo, força de manifesto. Assim também, a nostalgia, certo saudosismo, não
de todo isentos de amargura e desconsolo, funcionam como elementos de crítica
de situações de injustiça e opressão, tanto no plano individual quanto no
social, mas não se fechando na contemplação de um passado reduzido à sua inútil
memória. Pelo contrário, a 'recordação' é, paradoxalmente, utópica. Serve como
parâmetro para o que as pessoas deveriam ser.aqui e agora, caso se quisessem de
fato felizes e equânimes consigo e com os outros. Por outro. lado, fica mais
uma vez claro que a consciência social de qualquer artista não depende da sua
ideologia, das suas crenças, das suas posições. Esta consciência se concretiza
na linguagem que ele constrói. No caso do escritor, isso se traduz no modo como
ele tenta desvendar, pela palavra, os mecanismos, íntimos ou coletivos, que
desfiguram o homem em sua liberdade. Ora denunciando, ora celebrando; agora em
júbilo, imediatamente depois atingindo as fronteiras de uma solitária
desesperança, esses textos de Cecília estão entre os melhores momentos de
sua criação e de nossa literatura.
CECÍLIA MEIRELES
O QUE SE DIZ
E O QUE SE ENTENDE
(Crônicas)
Editora Nova Fronteira
SUMÁRIO
Cotidiano, nostalgia e transcendencia 11
O QUE SE DIZ E O QUE SE ENTENDE
Ano muito bom 17
Carta para Andrômeda 20
Patinação 22
Lamento pela cidade perdida 25
Férias na Ilha do Nanja 27
A moça do Silogeu 29
Contrabando e magia 31
Sabiás românticos 34
Meus "orientes" 36
Os anjos de papel couché 39
Jantar à luz de vela 42
Fantasmas 44
Caligrafia poética e risonha 46
"Oi da prata e do ouro. .." 49
Descobrimento do anjo da guarda 52
Tunho antigo 54
O que se diz e o que se entende 57
Luzes da terra e do céu 59
Antiguidades 61
Súplica por uma árvore 63
Inverno 65
Semana Santa 68
As vinte e duas horas 71
História quase macabra 73
Lembrança de Abhay Khatau 76
A arte de não fazer nada 79
Carnaval do Rio 82
Rabindranath, pequeno estudante 84
Dia de sol 87
Não creias nos teus olhos 90
Festa 93
Escola de bem-te-vis 95
Centenário de Okakura Kakuzo 98
Chegada da Primavera 100
Querida música 102
Canções de Tagore 105
Tédio de comprar 107
Da gula bem temperada 109
Os saltimbancos 112
Jardins 115
O tempo e os relógios 118
Aragem do Oriente 121
Flores da Caçulinha 124
O estranho festim 127
A cor da inveja 130
Oradores e cães danados 133
Figuras de Marken 136
Curso completo 139
Por falarmos de chá... 142
A propósito de Vila-Lobos 144
Considerações acerca da goiaba 146
Três livrinhos antigos 148
O aniversário de Gandhi 150
Liçôes de botânica 154
Juvenal 157
Marine Drive 160
O Gurudev 163
Hora japonesa 166
Outro Natal 169
Conversas antigas de fim de ano 172
COTIDIANO, NOSTALGIA
E TRANSCENDÊNCIA
Numa primeira impressão, o mundo visto por Cecilia Meireles é exemplo de
incompreensão, transtorno e desacerto. O trato humano é de dificil realização:
o que se diz não é o que se entende; a avaliação das coisas e de nosso
comportamento se faz por parâmetros não coincidentes; divergem as pessoas no
grau de sensibilização aos matizes afetivos. Várias crônicas deste livro
registram, às vezes sob leve ironia, a inquietação de Cecilia Meireles em face
da dificuldade de se conciliarem os mecanismos da compreensão no mundo moderno.
Na alegoria de "Os Saltimbancos", em que o fantástico do relato dramaticamente
acentua a convulsão da ordem social, ou numa parábola como "Escola de Bem-te-
vis" em que a economia da linguagem, à medida que se sucedem as gerações,
atinge o extremo da usura, percebemos, sob a inquietaão de um texto ou sob a
ironia de outro, o espirito do cronista sensivel aos problemas de transtorno
da ordem social e desentendimento dos homens em suas diferentes escalas de
relacionamento.
A ruptura com o bom senso, a aderência às coisas de um musgo nocivo que
lhes corrompe antigos valores, levam o cronista à reflexão sobre um tempo
superado, ou em mudança, em que essas mesmas coisas guardavam entre si outra
relação e os seres humanos conviviam segundo uma ordem que não excluia
impregnação afetiva. Certo saudosismo, assim, aflora da mirada retrospectiva,
acentuando a oposição presente/passado: a cidade antiga, imagem de graça e
còrdialidade, só se recupera nos espelhos da memória; a estátua sobranceira
aos jardins e ao mar nos dá, mesmo à véspera de sua demoliçâo, o derradeiro
ensinamento, iluminando, com o archote que levanta nuina das mãos, o mundo
sobre o qual a outra pousa, protetora. E houve um tempo em que mesmo a prática
do comércio envolvia, em sua comunicaçâo amistosa, uma Iição de cordialidade e
ensinava a admirar as coisas também pelo lado estético e venerável, belas e
antigas que eram.
A confrontação entre certa instabilidade moderna e a afetividade de outrora
leva o cronista a um recuo maior no tempo, e faz aflorar na memória o instante
lirico da infância, na qual simbolicamente se insere a imagem da babá Pedrina.
Da boca da pajem negra lhe viriam à criança não só as lições do mundo, sob
forma sincrética de superstições, tabus e encantamentos, como a descoberta do
sistema de dualidades que rege todas as coisas: vida/morte, realidade/fantasia,
terrenal/transcendente. O espaço do entendimento infantil será magicamente
ocupado por bandas e coretos, fantasmas. bêbados noturnos, e figuras que deixam
na vida da criança a marca de sua presença lirica ou afetuosa.
A evocação nostálgica de outros instantes ou a comparação de costumes de
hoje e de ontem não abafam, entretanto, no cronista, a capacidade de apreender
fatos, circunstâncias e situaçôes do cotidiano, alternando-se ironia e ternura
nos registros. No processo de seleção das crônicas deste livro, houve uma firme
intenção de se mostrar o interesse de Cecilia Meireles tanto pelos episódios
miúdos do dia-a-dia quanto pelas questões de natureza ética ou pelos problemas
que tangenciassem os limites extremos do humano. Esses episódios - experiências
vividas ou sabidas -, ora grotescos, ora densamente humanos, exemplares alguns,
outros cercsuráveis, tecem a rede do cotidiano de todos nós, à qual o cronista,
por condição, não poderia estar alheio.
Em meio ao registro de circunstâncias que fazem o recheio da vida; junto à
consideração nostálgica de antigas impressões ou ao fluxo lirico do discurso,
levanta-se neste livro outra ordem de textos: a daqueles em que Cecilia
Meireles fixou a tendência orientalistica de seu espirito, a natureza
contemplativa de seu ser e, de certo modo, a leve inquietação de
transcendência, permanente motivo de sua vida e de sua arte. Da exaltação dessa
cultura oriental - da indiana, especialmente, com que afinava por natureza -
recolhem-se, pois, alguns textos que hão de servir como pontos de referência no
roteiro espiritual de Cecilia: uma 'aragem' que sintetiza os seus vários
"orientes" e se faz Iição de vida.
Darcy Damasceno
13
ANO MUITO BOM
Certa noite de 31 de dezembro, éramos um grupo de pessoas mais ou menos
estranhas umas às outras, que voávamos juntas para a india. Nossas relações
de conhecimento, muito vagas, datavam apenas de horas. Nossa história comum
limitava-se à contemplação de algumas imagens inesquecíveis: o Mediterrâneo,
as pirâmides, imensos desertos pálidos, golfos que o sol coloria com tintas
orientais e, finalmente, o céu que fora tão grande e parecia pouco a pouco
reduzir-se em sombra, e ficar do nosso tamanho, do tamanho das nossas pequenas
vidas ali suspensas, com seus mistérios, esperanças e medos.
Eramos pessoas de variados lugares, viajando por variados motivos. Algumas,
imersas em leituras edificantes; outras, distraídas com livros fúteis. Umas
dormitavam cansadas; outras, que se aferravam ao noticiário de seus jornais,
embora esses jornais e essas notícias fossem ficando a cada instante muito mais
longe e como sem efeito para os viajantes do céu. E algumas que se entregavam
sossegadas ao seu destino, mascando esses grãos e sementes com que os dentes
vâo entretendo, resignados, a passagem do tempo.
Éramos também pessoas de sonhos aparentemente diversos: bons indianos que
regressavam, a seus lares; europeus preocupados com pesquisas de arte e
ciência; gente que ruminava negócios muito complexos; gente que refletia sobre
a maneira de tornar o Oriente e o Ocidente reciprocamente inteligíveis. Havia
de tudo: como convém a uma viagem mais ou menos mitológica. A minha rósea
vizinha americana, de sandálias douradas, quando alguém Ihe perguntou o que
ia fazer por aqueles lados, respondeu com naturalidade que ia passar a noite
dançando em Bombaim. E a aeromoça, com seus trajes de anjo, passava por entre
esses sonhos tão desencontrados distribuindo equitativamente sementes e balas,
enquanto a rósea americana começava a perfumar-se toda, porque Bombaim era uma
realidade cada vez mais próxima.
O ano, porém, chegava ainda mais depressa que Bombaim. E em dado momento
soubemos todos que, malgrado as extravagâncias dos relógios, era meia-noite,
entre as estrelas e o mar.
Para os que tinham deixado sua casa no Ocidente; essa meia-noite se enchia
de repente de recordações e saudades. Estrondos de bombas, cascatas cintilantes
de fogos de artifício, ondas de música, repiques de sinos, rostos amados,
cartões de Boas restas, e, em redor das ceias tradicionais, vozes antigas,
vozes recentes, vozes graves, vozes humildes, dizendo frases de amizade que na
terra, de tão repetidas, parecem banais, mas, naquela altura, inesperadamente
se tornavam miraculosas, com toda a sua potência de felicidada.
Com pequenas alterações, todos levávamos no coraçâo essa velha herança
romana de doces ofertas de tâmaras; figos, mel, a antigos deuses que
desejaríamos eternamente propícios. Com o mesmo gesto das mâos contemporâneas,
entrevíamos em sonho mãos antiqüíssimas trocando presentes amistosos. E sobre
as festividades pagãs, o Menino Jesus, num outro plano, recebia a Circuncisão.
Tudo isso levávamos conosco: início da vida, início das eras: uma união total,
uma infinita alegria.
E a aeromoça, de belíssimos olhos, abria e fechava as asas do seu sári
azul servindo-nos suas pequeninas oferendas. E o comandante vinha participar
da festa, que era ao mesmo tempo de começo e de fim.
E de repente vimos que estávamos todos de mãos dadas, e todos formulávamos
nossos votos mútuos, cada um na sua língua, todos num idioma comum de esperança
e ternura.
Foi assim que, entre um ano e outro, uma noite, entre o céu e a terra, o
Oriente e o Ocidente estiveram unidos simbolicamente, num fervoroso abraço.
O dia seguinte foi belo, colorido, bizarro, como são todos os dias da
India. Mas lá o ano nâo começa em janeiro em todos os calendários. O primeiro
dia do ano lunar, o Gudi Parwa, é na primavera. Há grandes festas, e quem
mastigar folhas de nim, nesse dia, terá saúde o ano inteiro. Mas a coisa mais
bela é que nesse dia ninguém pode falar com violência e são proibidas todas as
manifestações de cólera. Ano bom, verdadeiramente! Quem o pudesse conservar
assim, recomeçando-o do mesmo modo todos os dias!
19
CARTA PARA ANDRÔMEDA
Acabo de ouvir que na via-láctea, próximo a Andrômeda, ou nessa mesma nebulosa,
existe um povo sobrenatural que deseja ardentemente entrar em comunicação com
os habitantes da Terra. Esse povo é dotado de uma civilização adiantadíssima,
e vê (e compreende e perdoa, naturalmente) o que estamos fazendo, neste triste
chão, nós, subdesenvolvidos mortais. Não é preciso, pois, mandar contar para
Andrômeda o que vamos curtindo neste mundo, não só por sermos os pobres mortais
que somos, mas sobretudo por nos estarmos tornando muito piores do que devíamos
ser. Tudo isso de Andrômeda é limpidamente visível: de lá, somos vistos como
uns pequenos monstros, por essas gaiolas de vidro dos arranha-céus.
Desconfio mesmo que sejamos vistos também por dentro, malgrado as vidraças
opacas dos nossos corpos. E os habitantes da via-láctea, magnânimos como
certamente saio, devem sentir tanta pena de nós, como nós devíamos sentir
vergonha, ante os seus olhos, ou a sua sensibilidade, ou os meios de que dispõem
para nos perceberem de tão longe. (Creio que muitos séculos-luz.)
Ora, eu queria escrever esta carta para Andrômeda, embora, na sua
sabedoria, esse povo seja capaz de surpreender todas as intenções nossas,
porque a Terra é tão grande, e eu sou tão pequena que é natural que os de
Andrômeda estejam mais interessados nos condutores do mundo, nos chefes, nos
poderosos, e não nos cronistas como nós..
O que eu queria dizer aos de Andrômeda é que passo a dirigir toda a minha
atenção aos seus apelos, que acredito na possibilidade do sobrenatural, que não
me resigno a esta presente condição humana, que peço todo o auxílio desses
anjos da via-láctea para que nos venham salvar, como Perseu, um dia, salvou
aquela que, exposta a um monstro marinho, teve afinal seu nome escrito nesses
caminhos brancos do céu.
Por serem mais perfeitos que nós, os de Andrômeda devem estar mais
próximos de Deus. E estamos com tamanha falta de Deus, e tanta dificuldade de
encontrá-lo que os de Andrômeda devem procurar chegar imediatamente a todos
nós, senão em veículos espaciais, em veículos espirituais e invisíveis, que
cheguem a cada um em particular e acordem o que aínda existe de divino neste
caos em que a humanidade foi precipitada.
Entre a beleza de sua mãe, Cassiopéia, e a coragem de seu esposo, Perseu,
Andrômeda é um símbolo de salvação do martírio. ó vós, os de Andrômeda, vede
como estamos sendo martirizados por estes séculos duros, por estes séculos
impiedosos, em que a ciência e a riqueza não podem lutar contra a ferocidade!
Apressai-vos, que vos necessitamos muito! Trazei-nos o vosso exemplo, a vossa
inspiração, dai um estímulo aos que se inclinam para a decadência, e redobrai
a força dos que não se querem abandonar a um destino inferior ao do homem!
Povos da via-láctea, tende pena dos que ficaram neste mundo perpetuando as
atrocidades dos velhos mitos!
21
PATINAÇÃO
O admirável não é apenas que as roupas sejam tão belas, que os movimentos se
desenvolvam com tanta harmonia: o admirável, principalmente, é que tudo isso
deslize sobre patins. As figuras vêm de longe, velozmente, mas numa velocidade
suave, silenciosa e feliz. Devíamos andar assim no mundo. Nossos trajetos
deviam cruzar-se desse modo: sem choques nem pausas, com um desenho de
cortesias que se entrelaçam delicadamente. E vem a ser justamente a mais
adequada ao conjunto, como se a submissão à lei não lhe diminuísse o valor
próprio mas, ao contrário, o salientasse e lhe revelasse imprevistos aspectos.
Alguma coisa fugidia, apaixonada de distância e mistério existe no nosso
coraçâo, pela delícia que nos causam os movimentos dos patinadores retirando-se
implacável e sutilmente, como um som que gradativamente se apaga, uma estrela
que, inexorável, desaparece. Os patinadores vão sendo levados, num tempo mais
profundo que o do seu bailado, absorvidos pelo ímã do horizonte, inalcançáveis
e íntegros como deuses.
Alguma coisa também deve existir em nós atraída pela resposta do eco,
ansiosa de repercussões e espelhos, para nos encantarmos com os patinadores
que se acercam e reconhecem e combinam seus abraços com esse perfeito ritmo
em que confundem e recuperam sua unidade, aproximando-se e separando-se, livres
e prisioneiros, deixando que se cumpra com rigor e graça a parábola de seus
encontros e desencontros.
Pensa-se gue isto é uma distração frívola, e está-se diante da verdade do
mundo, iluminado de outro modo, com algumas pessoas interpretando esta vida de
cada dia, apenas alegoricamente.
Alguma coisa deve existir em nós que se recusa a andar levitando entre as
douradas estrelas: que ainda não se desprendeu totalmente da selva, da burla,
do árido ensinamento do chão. Porque deste modo nos regozijamos com as presenças
grotescas, e as formas inseguxas, e o medo e o risco, a aventura talvez inábil
do gesto incerto... Pode ser que não sejamos sempre desmesuradamente líricos:
um prosaísmo pesado, espesso, talvez compense em banalidades rasteiras o ímpeto
com que, outras vezes, nos atiramos a altas e inquietantes expedições. . .
Mas é tudo sobre patins, num abrir e fechar de olhos, sem que mais nada nos
detenha, porque já partimos, seguimos, continuamos, estamos sendo levados, pela
nossa vontade e pela fatalidade deste escorregar por uma superfície gelada.
Alguma coisa em nós deseja a solidão, a companhia da própria sombra,
apenas, para assim nos emocionarmos com o dançarino isolado que se debruça
para o seu reflexo, que em si mesmo se encontra, seus pés unidos
perpendicularmente a seus pés, e assim vai, e volta, e não volta, fazendo o seu
caminho no vazio, inventando um itinerário e uma direçâo.
Mas alguma coisa nos atrai para o convívio e o colóquio, pois assim nos
alegramos com a multidão festiva que se reúne e desdobra numa infinita
coreografia, toda cintilante e entusiástica, depois de tantas provas
acrobáticas, de tantas evoluções e tantos e tão variados arabescos.
Sobre patins. Com essa rapidez que desejaríamos ter, que o nosso
pensamento, o nosso coração desejam, e este nosso corpo fatigado não consegue
possuir. Sobre patins. Num mundo sem esquinas, sem acidentes, comtis èspaços
oferecendo-se á nossa passagem, e todos nós, cordiais e puros, realizando em
sua plenitude o ideograma da nossa vida na clara página da existência. Sobre
patins. Com a disciplina fluida de cada instante, de horizonte a horizonte,
sem erro, temor nem desfalecimento!
24
LAMENTO PELA CIDADE PERDIDA
Minha querida cidade, que te aconteceu, que já não te reconheço? Procuro-te em
todas as tuas estensões e nâo te encontro. Para ver-te, preciso alcançar os
espelhos da memória. Da saudade. E então sinto que deixaste de ser, que estás
perdida.
Ah! cidade querida, edificada entre água e montanha, com tuas matas ainda
repletas de pássaros; com teus bairros cercados de jardins e pianos; com tuas
casas sobrevoadas por pombos, eras o exemplo da beleza simples e gentil. De
janela a janela, cumprimentavam-se os vizinhos; os vendedores, pelas ruas,
passavam a cantar ; as crianças eram felizes em seus quintais, entre as
grandes árvores; tudo eram cortesias, pelas calçadas, pelos bondes, ao entrar
uma porta, ao sentar a uma mesa.
Bons tempos, minha querida cidade, em que éramos pobres e amáveis! Sabíamos
ser alegres, mas não tanto que ofendêssemos os tristes; e em nossa tristeza
havia suavidade, porque éramos pacientes e compreensivos. Acreditávamos nos
valores do espírito: e neles fundávamos a nossa grandeza e o nosso respeito.
Mesmo quando não tínhamos muito, sabíamos partilhar o que tivéssemos com amor
e delicadeza. Passávamos pelo povo mais hospitaleiro do mundo, mas esquecíamos
a fama, para não nos envaidecermos com ela.
Ah! cidade querida, tinhas festas realmente festivas, com sinos e foguetes,
procissões e préstitos, comidas e doces tradicionais. Continuávamos o passado,
embora caminhando para o futuro. Tínhamos carinho pela nossa bagagem de
lembranças, pela experiência dos nossos mortos, que desejávamos honrar.
Prezávamos tanto os nossos avós como desejávamos que viessem a ser prezados os
nossos filhos. Éramos elos de uma corrente que não queríamos, de modo algum,
obscurecer. Éramos modestos e cordiais, sensíveis e discretos.
E eis que tudo isso, que era a tua virtude e o teu encanto, desapareceu de
súbito, porque uma ambição de grandeza e riqueza toldou a tua beleza tranqüila.
Como resistiriam os pássaros e as flores aos teus agressivos muros de cimento
armado? E os jovens, bruscamente desorientados? Ah! não se pensou nisso...
E assim, minha querida cidade, a juventude tem perdido a generosidade, a
maturidade tem esquecido sua prudência, e a velhice sua sabedoria: todos aqui
têm ficado menores, e meio pobres, à medida que aumentam a tua riqueza e a tua
grandeza. E então eu me pergunto que grandeza, que riqueza são essas que fazem
diminuir e empobrecer os teus habitantes. Que fundamento funesto existe nessa
riqueza e nessa grandeza que, à sua sombra, os homens se tornam mesquinhos,
perversos, ardilosos de pensamento e ferozes de coração.
Ah! cidade querida, bem sei que tudo isto foi feito por aqueles que nâo
te amaram: os que não te entenderam nem protegeram. Mas, prisioneira agora de
tantas emboscadas - poderemos ainda salvar-te? arrancar-te às falsidades em que
te enredaram? restituir-te o antigo rosto, simples e natural, onde beleza e
bondade se confundiam? Poderemos tornar a ver-te, cordial e afetuosa como
foste, sem pecados e crimes em cada esquina - sem este peso de egoísmo e
vaidade, de cobiça e de ódio que hoje toldam e enegrecem a tua verdadeira
imagem?
26
FÉRIAS NA ILHA DO NANJA
Meus amigos estão fazendo as malas, arrumando as malas nos seus carros, olhando
o céu para verem que tempo faz, pensando nas suas estradas - barreiras, pedras
soltas, fissuras - sem falar em bandidos, milhôes de bandidos entre as
fissuras, as pedras soltas e as barreiras... Meus amigos partem para as suas
férias, cansados de tanto trabalho; de tanta chuva e tanto sol; de tantas
notícias ruins; de tantos colegas, chefes e subalternos incompetentes;
de tanta luta com os motoristas da contramâo; de tanta esperança, de tantas
decepções; enfim, cansados, cansados de serem obrigados a viver, numa grande
cidade, isto que já está sendo a negação da própria vida.
Pois meus amigos lá se vão, de camisa nova, muito cuidadosos e escanhoados,
fazendo todos os sinais possíveis e adequados para não receberem nenhuma
pancada que detenha o seu plano de viagem antes do primeiro cruzamento.
E eu vou para a Ilha do Nanja.
Termas? Pois as termas são ao ar livre, com emanações vulcânicas a subirem
do chão por mil furinhos invisíveis, enquanto se ouve a grossa voz do fogo
subterrâneo contar histórias do princípio do mundo. O ar está cheio de nuvens
sulfurosas; e as crianças brincam de fazer comida nas pocinhas do chão. onde a
água ferve.
Sossego? A beira das lagoas verdés e azuis, o silêncio cresce como um
bosque. Pelos caminhos, passam carros de bois, carros de vime, como cestos
enormes; o carreiro vai andando tranqüilamente, como em sonho, ao lento ritmo
dos animais: - é - um desenho - ciássico bojo da tarde límpida.
Poesia? As moças cantam em seus teares, em suas casas de pedra; dançam e
cantam nos terreiros e pátios, danças e cantigas de outras épocas, sem saberem
que aquilo se chama folclore. Os homens tocam e cantam pelas ruas, em dias de
festa; e em dias de festa as ruas sâo atapetadas de flores por onde passam
procissôes que cantam.
A Ilha do Nanja amanhece toda azul com sol claro e passarinhos no ar; de
repente, tudo desaparece, uma névoa cinzenta envolve montes e praias; saltam
gotas de chuva por todos os lados, como um súbito brinquedo de cristal. A névoa
já não existe. Existem nuvens brancas cobrindo e descobrindo o sol. Então, vem
o vento, desce das nuvens, passa pelas árvores, sobe para as nuvens, e nesses
jogos se passa o dia inteiro: não há maior distração, na Ilha do Nanja, que
contemplar as inconstâncias do céu.
Eu vou para a Ilha do Nanja para sair daqui. Passarei as férias lá. Nem
preciso fechar os olhos: já estou vendo os pescadores com suas barcas de
sardinhas, e a moça à janela a namorar um moço na outra janela de outra ilha!
28
A MOÇA DO SILOGEU
Quando os senhores passarem ali pelo Passeio Público, não deixem de olhar -
a certa distância - para o alto do Silogeu, e de dizer adeus à moça que ainda
está sentada lá em cima, protegendo com a mão esquerda o globo terrestre, e
levantando, na direita, uma pequena chama - que parece uma rosa.
Enquanto Teixeira de Freitas recolhe em sua toga o vento que vem das águas
e Deodoro saúda o horizonte republicanamente, a moça do Silogeu espera que a
retirem dali, que a derrubem, que a destruam! - e é por isso que os senhores
lhe devem dizer adeus, com a possível ternura.
Sua casa era aquela, de uma cor violeta, que o sol às vezes tornava rósea,
que a sombra às vezes tornava azul. Nessa mansão tornassolada, de arquitetura
tranqüila e maternal, reuniram-se academias, institutos, pessoas ilustres,
dedicadas aos mais nobres estudos literarios e científicos: que outro nome lhe
podiam dar senão o de Silogeu?
E então, no alto, puseram aquela moça, com a mão esquerda sobre o mundo e
a direita segurando um archote: uma pequena chama, que parece uma rosa.
A princípio, ela avistava apenas o mar, as montanhas, a copa das árvores.
(Issa foi há cerca de meio século.) Depois, a praia foi mudando de aspecto,
surgiram construções novas, estátuas, monumentos. E uma grande velocidade se
desenvolveu pelas ruas em redor. A moça, porém, continuava, acima de todas as
mudanças, a proteger a imagem do mundo com uma das mãos e a iluminá-lo com a
outra.
Mas, como os senhores podem ver, a mansão tornassolada já não é mais
violeta nem azul nem cor-de-rosa... É uma triste ruína cinzenta, toda
escoriada, em frente ao jardinzinho de Dom Luís de Vasconcelos, que podia ser
o mais belo recanto de sonho, no coração da cidade!
A moça do Silogeu, com sua atitude de rainha protetora das letras e das
ciências, vai desaparecer qualquer dia, na derrubada iminente, sem carro de
triunfo que a arrebate pelas nuvens, sem fitas desnastradas que espalhem pelos
ares mensagens tão gentis como as das pirâmides do jardim vizinho: "Saudade do
Rio!" "Amor do Público! ".
Nâo, a moça do Silogeu vai desaparecer obscuramente, com seu mundo e sua
chama - que parece uma rosa. E tudo será poeira, e ninguém pensará na alegoria
que ali esteve presente, por tanto tempo, e na moça que, sem falar, dizia com
o seu gesto: Coragem! Fé! Perseverança! e fazia crer num mundo iluminado pelas
letras e pelas ciências.
Quando os senhores passarem por ali, digam adeus à moça! Digam-lhe adeus
com a possível ternura. E guardem no fundo dos olhos e do coração a sua imagem.
(A mão esquerda pousava no mundo e a direita levantava uma luz.) Digam adeus à
moça do Silogeu! Pensem naquele mundo. Pensem naquela chama - tão discreta, que
parecia apenas uma rosa.
30
CONTRABANDO E MAGIA
A alfândega mais sugestiva do mundo é essa cidade de Trás-os-Montes que se
chama Alfândega-da-Fé, nome que pode inspirar ao viajante imaginativo
aventuras sobrenaturais, com anjos e demônios a verificarem nas suas balanças,
lindamente aferidas, a alma de cada um, como em auto de Gil Vicente. Já andei
perto, mas nunca tive a sorte de passar por essa cidade: fica-me sempre no
mapa e nas setas da sinalização - e no entanto ela é que certamente me
consolaria dos desgostos que me têm causado (com duas ou, três exceções)
essas alfândegas realmente alfândegas, não só no nome, mas em funçâo, que cada
país coloca nos lugares que Ihes parecem mais adequados e com as quais, além da
finalidade a que se destinam, conseguem alcançar outra: a irritação do viajante
honesto submetido a seus sádicos rigores.
Parece-me, às vezes, que esses senhores que ofendem as nossas malas e as
nossas pessoas com a sua deconfiança - e alguns com seu sarcasmo - devem ser
escolhidos em concursos de grande interesse público, assim como os concursos
de beleza, graça, elegância, inteligência, que hoje consagram por toda parte
donas e donzelas favorecidas pela natureza e pela educação. Mas, evidentemente,
concursos às avessas. Deve haver um acordo internacional, nesse sentido, para
eleger as caras mais selvagens, com mais sobrancelhas e narinas mais
resfolegantes, e mãos mais bruscas, de unhas mais ameaçadoras. Nós, ignorantes,
não o sabemos. Mas verificamo-lo à nossa custa.
Tenho encontrado alfândegas que me desarrumam as malas, à procura de quê?
Pois de café, de açúcar, de cigarros, de arroz... Enfim, sente-se uma pessoa,
sem mais nem menos, confundida com os senhores comerciantes, em geral muito
honrados, desta praça ou de qualquer outra - o que não é (longe de nós!)
nenhuma diminuição, quanto à atividade em si, malgrado alguns métodos e
técnicas de tal atividade não se coadunarem propriamente com a vocação de
qualquer viajante.
Estuda-se nos tratados a arte de arrumar as roupas em camadas, e depois de
tudo muito bem disposto nos seus respectivos lugares, lugares exclusivos e
intransferíveis, com seu catálogo e código, o Cérbero aparece, ávido de
contrabandos, desloca toda aquela paciente obra-prima, à procura de qualquer
dos itens referidos, e até de outros, que desconhecemos, mas que lhe podem
ocorrer, em privilegiada inspiração. Se depois a mala não se ajusta, o fecho
enguiça, não se pode dar volta à chave, se alguma coisa fica torta ou quebrada,
com a pressa do exame, como se vai responsabilizar aquele malfeitor, brutal
intérprete da lei?
Certa vez, indo dar (por inocência) um curso de folclore no estrangeiro, e
como levasse alguns discos para ilustrá-lo, fui solicitada, entre muitos lápis,
carimbos e olhares de raio-X a traduzir para a língua local (traduzir mesmo,
não explicar, apenas) palavras como "batuque", "cateretê", "jongo", etc...
(Desta vez, achei absolutamente inútil dar qualquer curso sobre qualquer
assunto em qualquer lugar.)
Mas, tempos depois, encontrei um Cérbero eruditd e irônico. Não queria
revolver todas as minhas malas, oh, não. Com um gesto circense, apontou apenas
uma delas. Somente aquela! (E exultava!) Queria saber se eu levava... barras
de ouro! Porque o Brasil, explicou-me, é o país das minas. Logo,
silogisticamente... (Por onde vi que o Brasil está com duzentos anos de atraso
nas informações aduaneiras. E pareceu-me necessário dar imediatamente, no
estrangeiro, todos os cursos sobre os nossos assuntos.)
Houve outro que não me mexeu nas malas. Esse tinha mais confiança no seu
faro. Fitou-me com olhos hipnóticos, e levantando na mão um objeto que parecia
um simples lápis mas devia ser um radar, perguntou-me com voz hierática: "Não
leva nenhum quadro célebre?" (Enfim, essa pergunta me agradou mais. Já não se
tratava de feijão nem lombo. E o homem nâo me desarrumava a roupa. Pode ser
até que estivesse brincando.. As criaturas são tâo misteriosas...)
Mas quando leio nos jornais que há contrabandos de bebidas, de aparelhos
de rádio, de ar condicionado, de... - que sei eu! - fico muito impressionada.
Porque é difícil confundir uma camisa com uma caixa de metal, e esses objetos
grandes - e grandiosos - não cabem nem se agüentam nessas pobres malas que
com qualquer pequeno choque logo se recusam a funcionar. Bem sei que há malas
de todas as grandezas. Mas quanto maiores mais se vêem. A não ser que se trate
de processo mágico de narcotizar o Cérbero, ou de tornar invisíveis as coisas,
ou de desincorporá-las do lado de cá da alfândega e reincorporá-las do lado de
lá - processo muito antigo e bem exposto em qualquer manual prático de
feitiçaria. Talvez seja preciso estudar melhor a situação atual dos bruxos,
organizar um congresso para debater o assunto, criar, talvez, um departamento
especializado...
33
SABIÁS ROMÂNTICOS
Se eu disser que o mês de agosto chega no bico dos sabiás - quem me vai
entender? Quem me vai entender, se eu disser que entre as névoas da manhã,
sabiás invisiveis - nas mangueiras? nos ipês? - anunciam o céu azul e o dia
mesmo? Ninguém sabe mais o nome das aves. As aves desapareceram com as muralhas
de cimento armado, com os fios que cruzam os ares, com a fumaça e os ruídos da
cidade hostil.
Ós velhos cronistas que viram uma terra diferente, puderam anotar com
minuciosas palavras: "... criam-se em árvores baixas, em ninhos, outros
pássaros, a que o gentio chama sabiá-oca, que são todos aleonados, muito
formosos, os quais cantam muito bem ... " O ouvido do segundo cronista era
mais apurado - e ele escrevia: "Outro pássaro se acha, chamado sabiá, da
feição do melro de Espanha - e antes cuido que é o próprio, porque canta como
eles, sem lhe faltar mais que um dobrete..: " Um terceiro cronista
opinava:"... sabiás que chamam "das praias", por andarem sémpre nas ribanceiras
(onde só cantam), mais que todos suaves."
Não me lembro de ter ouvido esses cantos "mais que todos suaves" entre os
versos do século XVIII. Nesse tempo, andavam os poetas ainda muito lembrados
dos rouxinóis europeus, e a paisagem brasileira facilmente se confundia com os
bosques da Arcádia.
Foi preciso que viessem os românticos, já num Brasil independente, para
que, na culta Coiznbra, uma voz recordasse os bosques e as várzeas da pátria
distanter e escrevesse a "Canção do Exílio":
"Minha terra tem palmeiras
onde canta o sábiá..."
Os jovens poetas que se seguiram, todos se lembraram do pássaro de voz
suave:
"É um país majestoso
Essa terra de Tupá,
Desd' o Amazonas ao Prata
Do Rio Grande ao Pará!
- Tem serranias gigantes
E tem bosques verdejantes
Que repetem incessantes
Os cantos do sabiá!"
O sabiá sugeria vozes de anjos mortos, de almas errantes, de gênios da
tarde. ("São os sabiás que cantam /Nas mangueiras do pomar...")
Chamavam-no "formoso","sonoro","poeta da solidão"... Chamaram-no mesmo
"alado Anacreonte"...
Isso foi num tempo de mansões, varandas, laranjeiras, mangueiras, quando
os poetas conversávam com donzelas líricas e muito frágeis, que lhes diziam:
"Nunca mais eu virei, risonhá e louca/Roubar o ninho ao sabiá choroso"...
(Falavam assim, as moças de então!)
Agora vem agosto, nas asas dos sabiás suaves. E eu penso nos velhos
cronistas que os descreveram e nos poetas que prestaram atenção ao seu canto:
um Gonçalves Dias, um Bernardo Guimarães, um Casirniro de Abreu, um Fagundes
Varela, um Castro Alves:... E é como se estivessem comigo, esses poetas, para
ouvir, entre mangueiras e ipês, os "chorosos sabiás".
36
MEUS "ORIENTES"
O Oriente tem sido uma paixâo constante na minha vida: não, porém, pelo seu
chamado "exotismo" - que é atração e curiosidade de turistas - mas pela sua
profundidade poética, que é uma outra maneira de ser da sabedoria. Como se
cristalizou em mim esse sentimento de admiração emocionada por esses povos
distantes, não é fácil de explicar em poucas linhas. Mas foi uma cristalização
muito lenta, dos primeiros tempos da infância. E lembro-me nitidamente desses
antigos encontros, que me deixavam tão pensativa e interessada, antes que eu
pudesse adivinhar, sequer, a sua significação.
Minha Avó, que falava uma linguagem camoniana, costumava dizer, em certas
oportunidades: "Cata, cata, que é viagem da India!" Eu ainda não sabia do
sentido náutico do verbo "catar": mas parecia-me que, com aquele estribilho,
tudo andava mais depressa, como para uma urgente partida.
Eu ainda nem sabia ler, e a babá Pedrina mostrava-me as figuras dos livros.
Foi assim que conheci o touro alado dos assírios; e durante muito tempo aquele
poderoso animal com face humana habitou a minha imaginação infantil, mais
sugestivo e misterioso que os príncipes e princesas das histórias de fadas.
Havia também a cozinheira com a velha bandeja decharão para as compras do
quitandeiro. Ela me explicava à sua moda aqueles pavilhões, aqueles barcos
dourados, aquelas figurinhas já meio desfeitas pelo tempo... E no dia em que,
diante dos cestos do quitandeiro eu a ouvi pronunciar a palavra "quingombó",
que era como chamava ao quiabo, instalou-se na minha fantasia a idéia que
aquilo devia ser chinês: que assim deviam falar as pessoas representadas na
antiga bandeja de charão.
A babá Pedrina sabia muito do Oriente, de tanto fazer chá, cujas folhas
vinham numa caixa maravilhosa da India ou da China. Ela tratava também de uns
pobres restos de louças, sobreviventes a muitas catástrofes domésticas, e
contava-me histórias que iam sendo ilustradas pelas pontes, pelos pagodes,
pelas árvores azuis pintados nos pratos e nas xícaras. Mas as suas intuições
orientais se concentravam numa canção que me parece andava na moda, por aquele
tempo, e que começava assim: "Não és tu quem eu amo, não és! Nem Teresa,/ nem
mesmo Ciprina,/nem Nlercedes, a loura, nem mesmo/a travessa, gentil
Valentina..." A cantiga continuava com a descrição da mulher amada: "Quem eu
amo, te digo, está longe,/lá nas terras do império chinês,/num palácio de
louça vermelha,/sob um teto de azul japonês."
Essa mistura da China com o Japão acrescentava indizível mistério à
lânguida canção. Mas a mim o que verdadeiramente me encantava era poder-se
habitar um "palácio de louça vermelha", moradia que se me afigurava
extremamente aprazível, pela beleza da cor, pela frescura e sonoridade da
louça.
Eu também gostaria de morar numa habitaçâo dessas. E foi por isso que
tentei entrar num jarrão, semelhante, no meu sonho, ao palácio da cantiga, e
foi por isso que, para salvar o jarrão da sua pequena inquilina, o puseram num
lugar tão acautelado, tão inacessível, tão escondido, que um cabide caiu por
cima dele e o desbeiçou.
Esses foram os meus "orientes" mais remotos, enfeitados por algumas sedas
estampadas com a palma indiana - motivo que perdura nos mais modernos tecidos
- e por uma infinidade de móveis de junco, de aparelhos de chá, de bibelôs que
se acumulavam nas casas das pessoas amigas, e que iam de suntuosas esculturas
em marfim a pequenos objetos de papel colorido. As senhoras usavam quimonos,
as mocinhas se abanavam com ventarolas de seda, leques de marfim rendado,
comia-se tanto arroz, tantas "fatias chinesas", falava-se de tanto cetim de
Macau e de outras fazendas orientais que era como se as naus dos bisavós
continuassem a trafegar por esses mares, e delas recebêssemos diretamente a
canela e o cravo dos nossos doces de cada dia.
Uma velhota; que chamavam de "turca", ia pedir à minha Avó folhas de
videira para fazer sua comida; e o mascate que vendia de porta em porta
alfinetes e pentes, rendas de linho e fitas, sabonetes e cosméticos,
conversava; na sua língua atravessada, sobre coisas de sua terra, a mais bela
terra do mundo ...
Havia as noites de febre. E então minha Avó começava a contar-me a história
da princesinha que tinha uma estrela de ouro na testa. A história nunca foi
além do título, já por si tão lindo que começava por me fazer sonhar, e logo
me fazia dormir. E no dia em que me encontrei, na India, com tantas moças
maravilhosas, tendo na testa aquele sinal que foi indicação de casta e hoje é
simples adorno, sinal que pode ser de tinta vermelha ou de diamante, percebi
que eram aquelas as minhas antigas princesinhas, que eu ia encontrar tão longe,
quando o Oriente se abriu, claro e amorável,
sobre os meus remotos "orientes".
38
OS ANJOS DE PAPEL COUCHÉ
Quando os olhos se abrem sobre estas mansas meninas dos hospitais, tem-se
vontade de exclamar: "Oh! os anjos de papel couché!..." - vendo-as tão alvas
e reluzentes, tão aladas e fora dos assuntos terrenos. Mas não seria prudente
uma exclamação assim: pois quanto a anjos elas estão muito bem-informadas,
conhecem-nos pelos seus nomes, certamente passeiam com eles de braço dado; mas
papel couché é coisa de que jamais ouviram falar, e poderiam achar depreciativa
tal citação. Não devemos, de forma alguma, deixar pairar a sombra da mais leve
suspeita de ofensa sobre as mansas meninas dos hospitais. Pois, na verdade,
elas não são apenas encantadoras, mas mesmo sobrenaturais: sem rumor de passos,
vão e vêm, atravessam as paredes, suspendem no ar, graciosamente, baldes e
vassouras, bandejas e lençóis como se tudo fossem ramos de flores.
A essas meninas nada se deve perguntar: nem como se chamam, nem que horas
sâo, nem se chove ou faz bom tempo, porque elas não existem para responder a
tais coisas. Sua existência transcorre em outros planos: seus espanadores e
vassouras limpam as estrelas; as nuvens, asas de pássaros que nós não
avistamos. Não se pode dizer que transportem nada nas mãos: tudo é muito
improvável, em relação a essas reluzentes meninas. Elas andam assim soltas como
plumas, simbolicamente: não para fazerem coisas concretas e objetivas, mas para
recordarem aos olhos vagos dos doentes que há um mundo material onde essas
coisas têm seu peso e seu valor, pois a tendência dos doentes é irem ficando
muito mais irreais do que elas, e aproveitarem o descanso dos lentos dias para
serem puro sonho, por mapas sobrenaturais. Esses anjos de papel couché esvoaçam
como folhas brancas e nelas podemos ir mentalmente escrevendo recordações,
imagens amadas, pensamentos que a solidão sugere, versos que algum dia lemos,
desenhos remotos de cenas que poderiam ter um dia existido. Mas as meninas
jamais desconfiariam dessas imaginações que as podem cercar e enlaçar tão
sutilmente, acrescentando outros símbolos aos seus símbolos. Flutuam anônimas,
dissolvem-se, evaporam-se, voam das varandas, alongam nas mãos misteriosas
remédios que oferecem sem rumor, como flores gotejando orvalhos.
As vezes, dir-se-ia que sorriem, mas deve ser engano da nossa parte: elas
nâo têm razão nenhuma para sorrir, elas estão alheias ao sofrimento e à
felicidade, pairam sobre essas ilusões humanas, equilibradas nessa eqüidistante
indiferença com que circulam as distantes maravilhas do universo.
Poder-se-ia pensar que, por vezes, nos amassem, que se comovessem com a
nossa docilidade e a nossa obediência, tão entregues que ficamos à sua
contemplação, tão confiantes no poder musical do seu giro todo branco, pelas
paredes azuis, pelos ares luminosos, pelas noites imóveis. Mas, certamente, é
puro engano da nossa parte, também. O mundo do amor é do outro lado destes
muros: lá onde as criaturas inventaram dependências, coerências, conseqüências.
E aqui tudo é livre, de uma total fluidez, sem princípio nem fim, sem
sobressaltos passados ou futuros, tudo está fora dessas leis da gravidade que
apegam o homem ao mundo e aos seus inúmeros elementos.
Assim, os anjos de papel couché, em cujas brilhantes asas vamos imprimindo
tantas lembranças e sentimentos, não conservam nada disso permanentemente em
sua lustrosa brancura.
Todas essas coisas que nós supomos grandiosas caem como um tênue pólen,
dispersam-se pelas solidões que reinam entre o que somos e o que não somos,
perdem-se no silêncio que fecha em suas abóbadas eternas a efêmera paisagem
das noites e dos dias.
Os anjos de papel couché deslizam com suas bandejas, seus espanadores,
seus medicamentos como as estrelas no seu curso: próximos, distantes, sem
saberem quem somos e sem que saibamos quem sejam...
41
JANTAR À LUZ DE VELA
A luz das velas é cheia de delicadezas. O adamascado das toalhas
transfigura-se em brocado precioso; qualquer pequeno desenho dos talheres ou
dos cristais adquire primores novos: a mesa resplandece, concentrada no halo
dessa claridade ao mesmo tempo intensa e discreta, simples e sobrenatural.
É então que se pode verdadeiramente ver o que há de veludo nas rosas, e de
semeaduras e searas na crosta dourada do pão. Caminhos brancos de seda e
quartzo se abrem nos peixes, desfolhados como malmequeres. Festas muito
antigas estacionam espelhadas nos claros vinhos.
As mãos passam a ter outro sentido, com suas cores e suas linhas, à luz
das velas, muito macia, porém maravilhosamente exata. As unhas róseas desmaiam,
com suas meias-luas alvas, e os gestos e as suas sombras têm outra eloqüência,
imperceptível ao clarão das grandes lâmpadas. Qualquer pequena jóia desabrocha
sua riqueza oculta: o ouro é muita mais límpido e os sons da prata parecem não
apenas audíveis, mas visíveis.
E os rostos deixam de ser umas máscaras: seus contornos autênticos
apresentam modelações de cera e transparências de alabastro. A luz das velas
insinua-se com muita suavidade pelo desenho dos lábios, pela curva das narinas,
passa pelas pestanas, fio a fio, para, enfim, descansar nos olhos, pequenos
mares convexos, líquidos e móveis como se fossem mesmo um aglomerado de
lágrimas. E avista-se o horizonte das almas.
Louras, negras, prateadas, esfumam-se as cabeças, fora do halo das velas.
Palavras e sorrisos vém de jardins submarinos, com arbustos de coral, som de
água, lembranças de pérolas. As paredes estão muita longe; no fim do mundo.
A pequena chama ondulante mostra o que raramente se vê: as voltas que dão
os fios, na invenção das rendas; a textura das sedas e dos linhos; a irisação
do nácar dos botões. Nas uvas translúcidas, descobrem-se tênues fibras, em
torno das sementes baças, como nublosas pupilas.
A luz da vela vai descendo verticalmente, imperceptivelmente: silenciosa e
morna. Parece uma pequenina pluma, azul, negra e dourada. E na noite redonda
de cada xícara de café, reflete-se como lua minúscula, incerta, oscilante,
fragmentada. Até que dessa luz e de sua límpida coluna reste apenas um pouco
de pavio; um pedacinho de carvâo caído na cera quente, como um inseto afogado.
43
FANTASMAS
No tempo da babá Pedrina, havia tantos fantasmas que até as crianças, mesmo
sem os verem, sabiam como eram e por onde andavam. Andavam pelos porões, pelos
corredores, pelos sótãos, atravessavam certos quintais, paravam pelas
encruzilhadas. Havia fantasmas de escravos e de seus antigos donos em tal
abundância que se faziam mais dignos de louvores os velhos abolicionistas: que
enorme quantidade de fantasmas produzira a escravidâo!
Mas, terminado o cativeiro, não terminaram os fantasmas - talvez menos
sofredores, menos desesperados, menos vingativos, agora: monarquistas,
republicanos, conselheiros, oradores misturados a toda casta de ofícios e de
todos os níveis sociais. Há quem negue os fantasmas: mas entre a negação e a
inexistência de coisas, fenômenos ou fatos há uma distância considerável. E
talvez o número dos que os negam seja inferior ao dos que os afirmam.
Outro dia, li nos jornais que uns fantasmas, em São Paulo, mudavam de
lugar os objetos de uma casa, traziam a cafeteira do fogão para a mesa,
espalhavam os mantimentos da despensa, enfim, desarrumavam, quanto encontravam
e parece que tudo isso foi testemunhado por jornalistas, que costumam ser
espíritos fortes, de tanto lidarem com os mais estranhos acontecimentos, todos
os dias.
Este meu bairro das Laranjeiras parece ter sido outrora muito povoado de
fantasmas, especialmente a Ladeira do Ascurra, segundo nos informa o caro
Vieira Fazenda, que tanto se interessou por esta nossa querida cidade.
Há pouco tempo, soube que os sentinelas do Monumento aos Pracinhas, em
lugar tão moderno e arejado, tinham ouvido vozes estranhas, em redor de si:
mas procurou-se explicar que seria o vento batendo ali, e tudo foi vento e
nada mais, como no poema de Edgar Poe.
Na Inglaterra, os fantasmas não causam tanta estranheza: creio que existem
por toda parte, e são extremamente intelectualizados. Não existe um que
escreve peças teatrais, e se acha tâo identificado com a senhora que o recebe
que esta, com exemplar comportamento, se separou de seu marido por se sentir
mais casada com o seu fantasma?
Não há, na Inglaterra, casas onde se pode ouvir boa música, sem haver
dentro delas instrumento de espécie alguma? Dizem-me que os fantasmas ingleses
até se deixam fotografar!
Não falo destas coisas por brincadeira: ao contrário, elas me inspiram
curiosidade e respeito. Se nós não sabemos nem o que se passa em nossa própria
casa, do outro lado de qualquer parede, como podemos saber o que se passa nos
misteriosos lugares onde os fantasmas vivem? A nossa "vã filosofia", como disse
Shakespeare, não alcança muitas coisas deste mundo. E o mundo dos fantasmas é
mais além. Os homens habituaram-se a falar de tudo superficialmente; e o
torvelinho da vida de hoje quase não permite a ninguém deter-se para pensar.
E adquirimos o hábito de sorrir com frivolidade para o que desconhecemos.
No entanto, no entanto, as velhas Escrituras estão cheias de exemplos que
nos deixam perplexos. A tecnologia descartou a contemplação, a intuição, o
desejo sério de penetrar os profundos mistérios do mundo e da vida. O supérfluo
tornou-se tão imprescindível que se perdeu de vista o verdadeiramente
essencial.
45
CALIGRAFIA POÉTICA
E RISONHA
Todos os dias nos servimos do alfabeto sem prestarmos atenção à forma de. cada
letra; sem nos recordarmos, portanto, de sua origein, quando cada traço rião
estava apenas em função, de um determinado som, como hoje acontece; màs
representava ainda, bem vívida, uma determinada imagem: Bem próximo do nosso
está o alfabeto hebraico, para servir de exemplo, com o nome de cada letra
significando algum objeto ou parte do corpo. (Isto sem falar na própria
história da invenção das letras, quando Deus as apreciou segundo as palavras
boas ou más que indicavam, como iniciais.)
Na verdade, escrevemos muito depressa para nos atermos a esses antecedentes,
e já ninguém aprende a ler de letra em letra, de modo que a rapidez do mêtodo
inutiliza, como sempre acontece, a profundidade do estudo.
Eu também me encontro na ingrata situação dos que não dispóem de muito
tempo: Jamais poderei ficar diante de um tinteiro para, com destro pincel, ir
debuxando caracteres sino-japoneses de um só traço, sequer, quanto mais de
cinco, de dez, de vinte... Ai de nós! à vida humána não permite tanto. É
preciso saber renunciar às ambições, mesmo as mais nobres:
Mas, se não pode a minha mão delinear esses caracteres que aparentemente
se julgaria serem obra de estontèante imaginação, podem os meus olhos,
orientados por um bom guia; descobrir nessas estilizações o antigo desenho
realista destinado a exprimir o que, nosso tempo próprio, se desejou comunicar.
Essa tentativa humana de comunicaçáo (ai, neste mundo impenetrável!) é sezzi
pre comovente. Mas os meios de realizá-la, a busca e o valor emprestado a cada
elemento mostram-nos a simpatia, a boa vontade e, constantemente, o sentido
poético dos velhos mestres calígrafos. Muitas dessas concepções pertencem,
realmente, ao domínio da expressão universal, o que não deixa de ser uma
demonstração da identidade humana, a despeito do espaço e do témpo: Que o
desenho da mão sobre o coração signifique sem falta, "certamente"; que o
símbolo do centro aliado ao do coração exprima "lealdade", parece-nos natural
e familiar, e tão oriental como ocidental, pois estamos acostumados a
associações idênticas, e fazemos do coração nossa testemunha, e os nossos
sentimentos profundos (como o da lealdade) residem no fundo (ou centro) do
nosso coraçâo.
Que a imagem de uma árvore cercada por uma moldura signifique "sofrer"
lembra-nos as velhas relações do homem com a natureza e a sua sensibilidade
diante de uma árvore impedida de crescer.
Outros caracteres dão uma idéia da honrosa opinião que os velhos calígrafos
tinham a respeito da humanidade. Assim, o símbolo de homem unido ao de palavra
exprimindo "confiar" mostra que a "palavra de homem" era, naqueles tempos,
coisa verdadeiramente digna de crédito. E o símbolo de homem unido a traços
numerais indicando "bondade", "simpatia", é uma afirmação da fé no convívio
humano, da possibilidade de se ser melhor (ou de poder mostrá-lo) em sociedade
que na solidão.
Alguns caracteres nos fazem refletir sobre a diferença dos tempos:
poderemos, nos dias de hoje, aceitar sem vacilação que o símbolo de um velho
associado ao de um moço possa exprimir "mudar", "transformar", pela ação dos
conhecimentos e experiências que o primeiro possa exercer sobre o segundo?
Mas o belo símbolo das mãos estendidas para significar "amigo", mas o
portão fechado sobre o coração, para dizer "agonizar", mas a mulher e a
criança exprimindo "gostar" são caracteres que comovem por sua delicadeza
poética.
Mas os velhos calgrafos tinham também fino sentido realista: na
representação de "pai" vê-se a mão que segura um cacete; para exprimir
"barulho de vozes", parecia-lhes bastante desenhar três mulheres; e o símbolo
da mulher aliado ao de mal, doença, significava, para eles, claramente,
"ter ciúmes". (E nós hoje sorrimos desses velhos calígrafos, que com certeza
sorriam também, ao inventarem esses caracteres...)
48
"OI, DA PRATA E DO OURO ..."
O que sabemos dos Reis Magos, pelo Evangelho, é o que nos conta São Mateus:
Tendo, pois, nascido Jesus em Belém de Judá, em tempo do Rei Herodes, eis que
vieram do Oriente uns magos a Jerusalém, dizendo:"Onde está o rei dos judeus
que é nascido? - porque nós vimos no Oriente a sua estrela e viemos adorá-lo."
Muito perturbado, Herodes teria pedido aos magos, não sem malícia, que, se
acaso encontrassem o menino profetizado, o viessem avisar, para ele o adorar
também. Os magos, no entanto, encontraram-no, fizeram-lhe suas oferendas de
ouro, incenso e mirra, "e havida resposta em sonho que não tornassem a Herodes,
voltaram por outro caminho para a sua terra".
Mais tarde, as festas da Epifania celebrariam o Natal, a Adoração dos Magos
e outros fatos relacionados com os primórdios do cristianismo, e, no domínio
popular, reminiscências várias se iriam aproximando, reunindo danças, cantigas,
cortejos, banquetes, formando, sob, diversos nomes, outros folguedos.
Já não se ouvem, pelas grandes cidades, aquelas vozes de pastorinhas
visitadoras de presépios:
"O de casa, nobre gente, escutai e ouvireis que das bandas do Oriente são
chegados os três Reis."
Mas nas cidades pequenas, por esse vasto Brasil, continua a tradiçâo, mais
ou menos conservada, das antigas cheganças, do bumba-meu-boi, dos "ternos" de
Reis, com seus tiradores de versos e seus músicos, cantando, tocando, dançando,
pedindo dinheiro e donativos para as alegrias da data.
Como o folclore é um fato vivo, a imaginação popular enriquece a tradição
com suas invenções novas. Uma ressonância muito remota de festivais agrícolas
faz as pastorinhas cantarem como em sonho:
"Nosso trigo está maduro, Vamos para o campo ceifar.. "
Há quadras de vivo sentido jornalístico, que registram os fatos com
adorável precisão: "Os três Reis quando souberam que era nascido o Messias,
montaram em seus cavalos todos cheios de alegria."
E assim vão os festeiros pedindo vinho e doces, misturando versos antigos
e modernos, paganismo e cristianismo, coisas ainda de Portugal, coisas já do
Brasil, pobreza e alegria, ignorância e perspicácia.
Para explicar essa mistura do Evangelho com o peditório e o rancho de Reis,
uns festeiros de Guaxupé contaram a uma aluna do Centro de Pesquisas de São
Paulo "que os Reis, nessa caminhada pelo deserto, fizeram-se acompanhar de
guardas e dois palhaços que cantavam e dançavam a troco de dinheiro". Assim é
a ingenuidade do povo.
Muito mais engenhosa, porém, é a história de Reis narrada pelo mestre
violeiro Caetano Avelino da Silveira, de São Paulo, ao folclorista João Batista
Conti: "Diziam os antigos, e é por conta deles, porque eu não vi, que quando
nasceu o Menino Jesuis, na Terra
Santa, havia treis reis: um branco, um preto e um caboclo. Os reis branco,
querendo lográ o preto, disseram: "perciso dá uma volta muito grande" e
ensinaram um caminho errado pro preto ficá logrado. E assim forum os treis vê
o Senhor Menino. Mais o preto pegô o caminho errado. Quando os branco chegaram
na cocheira, onde tava o Menino Jesuis, derum cum o preto já na frente do
Menino, que entonces o Senhor Menino pegô uma coroa, pois na cabeça do rei
preto e disse: "vassumecê é o reis dos Congo". Foi então que o preto foi chamá
uma porção de negros e vieram dançá na frente do Menino. Daí em diante ficô a
Congada."
Além de ser um pequeno espelho das trapaças deste mundo e da esperança na
justiça divina, a pequena história, com a sua versão nova do tradicional
episódio, oferece-nos também uma curiosa sugestão sobre a origem de outra festa
da época: a dos Congos.
E uma alegria, afinal, pensar que tudo isso ainda existe no mundo: que o
homem ainda é feito de recordaçôes, infância, imaginação, sensibilidade, sonho.
Que não somos ainda autômatos. (Por quanto tempo?) E que em algum ponto do
Brasil vozes alegres estarão cantando a esta hora:
"Oi! da prata e do ouro se faz o metal!
Oi! a véspera de Reis é pra nós festejar!"
51
DESCOBRIMENTO DO
ANJO DA GUARDA
A moça disse-me que estava longe da família, na grande cidade onde chegara
para trabalhar e estudar. A imponência dos edifícios, a pressa da multidão, o
tumulto das ruas, a agitação das noites, tudo a atordoava: e mal tinha tempo
para fazer amizades.
Antes, sua paisagem era uma praça, uma igreja, um pequeno rio, ladeiras
tranqüilas, jardins antigos, casas agradáveis onde, aqui e ali, alguém
praticava exercícios de piano. As pessoas visitavam-se, contavam suas histórias
familiares, aconselhavam-se. Havia pequenas festas, um pouco de dança, a música
da filarmônica local, um grupo de teatro.
As moças sabiam muitas coisas, eram muito dotadas: bordavam, cosiam,
confeitavam bolos, faziam flores. Ultimamente aprendiam até a executar objetos
domésticos de matéria plástica. (Disso ela não gostava muito.)
Seus estudos chegaram a um ponto que despertaram a atenção dos professores.
(Estudava musica.) Todos acharam que era uma pena ficar ali, ajudando a cantar
na igreja, ensinando solfejo às crianças: devia ir para um centro maior,
receber outros estímulos, dedicar-se completamente à sua vocação. E ela foi.
Mas a grande cidade era assim, com tanta gente,
ninguém prestava atenção a nada, havia música por toda parte, nos edifícios,
pelas ruas, nas casas comerciais,
nos mercados, nos restaurantes, e ela mesma já nem
sentia a sua música, já nâo se ouvia, não se achava
necessária.
O ambiente era desatento. Tudo entrava por um
ouvido e saía pelo outro. E o que acontecia com a pro-
fissão acontecia também com a vida: prometiam coisas
que não cumpriam, marcavam encontros que não se efe-
tivavam, as colegas pareciam-lhe muito sofisticadas, e
depois de ter observado um pouco, com a sua bem-orga-
nizada cabeça disciplinada por bemóis e sustenidos,
chegara à conclusão de que (pelo menos por enquanto)
não valia a pena namorar.
A moça, entâo, sentiu-se muito sozinha, desencoraja-
da - e ali, com seus papéis de solfa na mão, parecia
mesmo a própria musa Euterpe, exausta de modernida-
de e saudosa do Olimpo.
O que mais a assombrava era a ausência de apoio
social: as moças de sua idade falavam de penteados;
os professores, de taxas, reivindicaçôes, abonos, e os
rapazes discorriam sobre esporte - ou eram grandes
mestres em toda categoria de arte, ou grandes conduto-
res da humanidade, oradores e grevistas. Meio gangsters,
meio líderes, desesperados de ambiçâo.
Foi assim que, uma tarde, a moça pensou no Anjo
da Guarda. Deus era grande demais, para atingi-lo: não
tinha coragem. Chamou baixinho o Anjo da Guarda,
para experimentar. Ao contrário, porém, do que ela
esperava, o Anjo da Guarda respondeu. Passou a con-
versar com ele todos os dias. Todos os ruídos em redor
se dissolveram: os barulhos do mundo e as conversas
frívolas. Sozinha, ela fala com o seu Anjo da Guarda
que, solícito, responde às suas dúvidas e resolve os
seus problemas.
Voltada para esse paraíso interior, disse-me que é
outra pessoa: tudo Ihe parece claro, certo, com outro
sentido. Seu mundo de música é o mesmo do Anjo da
Guarda. E acha admirável que esse mundo possa existir
dentro do outro, veloz e ruidoso, sem ser atingido em
sua harmonia, livre de qualquer vulgaridade e aflição.
53
JUNHO ANTIGO
Naquele tempo existia a babá Pedrina, (Digo babá,
como agora se usa, mas naquele tempo se dizia paje,m
ou ama-seca:) A babâ Pedrina era uma jovem mulatinha,
éxtremarnente gentil, que conhecia um.. mundo de coisas:
sabia as ladainhas e cânticos reiigiosos de sua terra, as
músicas dós coretos, histórias de bichos, lobisomem,
mula-sem-cabeça, fantasmas, e de príncipes e princesas
que; depois de muitas vicissitudes, acabavam felizes,
com casamentos muito festivos, sob uma linda chuva de
arroz: (Ela não dizia príncipe, mas princês: o que sempre
me pareceu palavra muito elegante, e de sua particular invenção.)
Ora; Pedrina, como se vê pelo nome, nascera no mês
de junho, e pertencia ao calendário das festas de Santo
Antônio, São João e São Pedro. Era especialmente versada
em toda classe de adivinhações e . `sortes' e por
muito tempo me perguntou qual era a di£erença entre
médico e água, sem que . eu pudesse resolver problema
tão sério, para a minha idade. A diferença - revelou-me
um dia, confidencialmente, como quem transmite
um conhecimento secreto - é que "a água mata a
secura e o médico, se cura, não mata". Esse jogo de
palavras me pareceu tão engenhoso que me apliquei a
inventax trocadilhos, sem chegar, riaturalmente, a resultados
perfeitos.
Em matéria de parlendas, Pedrina era muito competente:
imterpretava o barulho dos trens, as vozes dos
sinos, dos galos, dos sapos; sabia a linguagem das flores,
muito usada pelas donas e donzelas da época; tinha o
seu repertório de cançôes de berço; de roda, de brinquedos
infantis; tocava músìca em papel fino esticado num
pente, e ensinou-me que as meninas bem-educadas deviam
saber fazer reverências e dizer merci e pas de guoi.
O mês de junho era, naquele tempo, muito mais do
que hoje, um período mágico. Todas as crianças sonhavam
com barraquinhas de fogos, ou para comprá-los
ou para vendê-los. E havia já naquele tempa índícios
de corrupção até nesses pequenos negociantes, que cometiam
suas fraudes e não aceitavam reclamações. Os meninos
gostavam de coisas ruidosas como "bichas chinesas",
bombas, ou coisas um pouco humorísticas, como
os busca-pés, que faziam as pessoas correr, assustadas.
Mas as meninas queriam estrelinhas, fósforos coloridos,
foguetes de lágrimas e não compreendiam que São João
não acordasse com tanto ruído. Mas era assim, conforme
Pedrina e outras autoridades: São João queria
descer à Terra, no seu dia, para folgar: mas acordava
sempre antes ou depois da data. Parece que isso era
bom, pois, se acontecesse acertar, creio que o mundo
acabava.
Assim, com fogos e fogueiras, aipim e batata-doce a
assar nas brasas, cantigas a Santo Antônio e a São João,
o mês ia passando, com o céu coberto de estrelas e
balões, e as donas e donzelas dedicadas a interpretar
o futuro, inclinadas como pitonisas sobre copos, pratos
cheios d'água, facas manchadas pela seiva das bananeiras...
As crianças bem educadas (aquelas que até sabiam
dizer merci e pas de quoi) podiam ficar pelas imediações,
muito quietinhas, observando aquele ritual mágico.
Dentro dos copos, o ovo quebrado na água formava
cortinados, velas de navios, altares . . . Olhos ansiosos
espreitavam ali casamentos, viagens, mortes, e aceitavam
os prognósticos assim desenhados. As agulhas nadavam
no prato d'água, iam, vinham, aproximavam-se, afastavam-se,
desencontravam-se, mas às vezes aderiam uma
à outra, e as donas e donzelas suspiravam aliviadas:
parece que se tratava de novos encontros, voltas, fim
das separações...
Pedrina passava sonhadoramente ao longo desses mistérios.
Sob a sua doçura e gentileza morava, decerto,
uma espécie de saudosa melancolia. Acreditava no que
a seiva da bananeira escrevia na lâmina da faca, se a
cravavam na planta à meia-noite em ponto, e a traziam
de volta sem olhar para trás. Também acreditava que
não chegaria ao ano seguinte quem não divisasse o próprio
rosto na água de uma bacia ao relento, àquela
hora da noite. Mas nunca nos disse por que acreditava
nisso. Falava mais séria, com uma sombra nos olhos
que de repente se tornavam estrábicos. Mas os balões
subiam, as lágrimas dos foguetes cascateavam ela noite
as rodinhas giravam sob as árvores do quintal, as crianças
cantavam, as trepadeiras abriam flores perfumosas,
São João continuava a dormir, e São Pedro tinha nas
mãos a chave com que certamente abriu as portas do
céu para Pedrina.
56
O QUE SE DIZ E O QUE
SE ENTENDE
Há tempos, descobri numa vitrine um objeto azul que
me interessava. Entrei na loja, dirigi-me ao balconista
com a maior cortesia, pedi-lhe aquele objeto azul. Antes
de me atender, o moço observou com a maior seriedade:
"A senhora quer dizer... verde?" Como não houvesse
no lugar indicado nenhum objeto verde nem mesmo
vermelho, que explicasse um possível daltonismo,
fiquei um pouco surpreendida, mas insisti: "Não, eu
quero dizer... azul." O moço teve essa expressão resignada
de quem tem de aturar por obrigação a impertinência
dos fregueses, mas foi buscar o objeto indicado.
Enquanto se dedicava à delicada operação, tive um momento
de dúvida - talvez eu me tivesse enganado. Um
objeto de cristal, descoberto numa vitrine, pode sofrer
uma inconstância no colorido, o verde pode parecer
azul... E, na verdade, o moço devia conhecer melhor
do que eu os objetos que se encontravam ali em exposição.
Mas, ao voltar, com um vago olhar triunfante de
quem acaba de ganhar uma pequena batalha, ao colocar
no balcão o que ele acreditava ser um objeto verde,
verifiquei que o triunfo era meu. E enquanto acertávamos
as contas, pensei: fazem falta as mâes que ensinavam
navam as cores aos filhos; fazem falta os jardins de
infância; por onde anda o disco de Newton? e será que
os arranha-céus já não deixam mais ninguém conhecer
o arco-íris?
De outra vez, entro numa loja de brinquedos, e com
o maior respeito e veneraçâo dirijo-me à vendedora, que
era a própria Cleópatra, com olhos distendidos até as
orelhas, e peruca negra a imobilizar-lhe o pescoço: "Eu
desejava um caleidoscópio..." Cleópatra mirou-me com
um desdém milenar, e como um generoso favor, e por
atenção aos seus deuses, balbuciou: "Não temos." Como
não tinham? Pois se eu da rua avistara uma prateleira
toda de caleidoscópio! Então, com o mais humilde
gesto, ousei apontar para a referida prateleira. Cleópatra,
com visível contrariedade, corrigiu minha ignorância:
"A senhora quer dizer... tubo?" Mas eu, sabendo
bem a distância que vai da minha pessoa à sedutora
rainha, insisti, por amor à verdade, e à etimologia: "Não
eu queró .dizer... caleidoscópio." Certamente, Cleópatra
tra já nâo se lembrava mais . dos gregos, e, com um
desdém muito maior que o anterior, dignou-se vender-me
me um caleidoscópio, na verdade tão sem graça que bem
merecia ser tratado como desprezível tubo.
Mas outro dia precisei de papel impermeável, dirigi-me
a uma seção de papelaria, falei com um jovem esportivo,
limpo, atualizado, realizado, e pedi-lhe o que que·
ria, certa de que seria rapidamente atendida. Ele porém,
com o seu belo sorriso profissional, também me respondeu:
"A senhora quer dizer papel metálico?" "Não
eu quero dizer papel iircperineável, mesmo." Ele fechou
o seu claro sorriso, como quem recebe uma notícia
triste, e murmurou-me inconsolável: "Não temos." Mas
como não tinha? Pois estava ali mesmo, muito bem
enroladinho! E o moço ficou tão admirado como se ele
fosse o comprador e eu o dono do negócio.
Mas o que me assombra não é que as pessoas ignorem
o que vendem: o meu assombro é pensarem que eu
sempre quero dizer outra coisa. Não! eu sempre quero
dizer o que digo.
58
LUZES DA TERRA E DO CÉU
Coincidiu este ano com a data de Santa Luzia - a de
luminoso nome - o 25 de Kislev do calendário judaico,
que marca o início da festa do Hanucá. Embora se
possa atribuir a esse "festival das luzes" alguma longínqua
raiz entre as remotas celebrações . do solstício de
inverno, também é certo que sua instituição vem claramente
assinalada no Livro dos Macabeus. Derrotado o
invasor que havia saqueado, e profanado o Templo,
Judas restaura, com os seus, o Lugar Santo, purificando-o
e preparando-o para o serviço religioso, que se
inaugura, afinal, entre cânticos e música de cítaras,
címbalos e harpas, no vigésimo quinto dia do nono mês
do ano de 164 antes de Cristo. Duram oito dias essas
festas de inauguração, e estabelece-se que todos os anos,
na mesma época, oito dias de festa recordem para sempre
a famosa vitória.
Diz-se que no Templo invadido o candelabro derrubado
bado conservara acesa apenas uma última e vacilante
luz. Os judeus partiram em busca de óleo para lhe
acenderem todos os braços. Assim, na festa do Hanucá,
durante oito dias, vão sendo acesas sucessivamente oito
luzes, por uma lâmpada auxiliar que tem o nome de
Shamosh, ou "servidor".
A festa caracteriza-se ainda pela distribuição de presentes
às crianças, o costume de se servir certa iguaria,
semelhante a uma pequena panqueca, a levivá, e a utilização
de uma pitorra ou pião, o svivon, com que as
crianças tiram à sorte confeitos e chocolates que se
encontram na mesa da festa.
As luzes do candelabro do Hanucá fazem-nos logo
pensar na árvore do Natal, com seus brilhantes adorIios.
Os presentes dedicados exclusivamente ou principalmente
às crianças aproximam ainda mais as duas festas.
A utilização do svivon é mais um curioso pormenor
para os estudiosos de fatos tradicionais. Pois, embora
no Brasil se vá perdendo rapidamente a memória desse
pião do Natal, o folclore português assinala sempre a
sua presença no jogo do `rapa' com que os rapazes sE
entr têm, tirando à sorte nozes, avelãs, confeitos ou
pinhões, nas festas de 25 de dezembro, Esse pião de
quatro faces tem em cada uma a inicial de quatro palavras:
rapa, tira, deixa e põe, e conforme a letra que
fique voltada para cima, o jogador rapa o que foi apostado,
ou tira apenas uma parte, ou deixa tudo na mesa,
ou ainda põe alguma coisa mais.
No caso do svivon também há quatro letras assinaladas
nas quatro faces: as iniciais da frase hebraica:
"Aconteceu aqui um grande milagre."
A presença, em ambas as festas, desse pequeno pião
que gira misterioso entre as luzes acesas do Antigo e do
Novo Testamento, na mesma época do ano, é uma sedução
para os que se lembram de antiqüíssimos ritos solares
associados a rotações, círculos de fogo, circulação
da vida em luz, entre o céu e a terra: de um pólo a
outro, nascimento do mundo e nascimento do espírito
- luminoso enigma.
ANTIGUIDADES
O dono da loja está sentado, sonolento, num cadeirão
de couro lavrado. Pode ser que me engane: mas tenho
a impressão de que não entende nada dos objetos que
o cercam. Parece mesmo que lhe inspiram mais do que
profunda indiferença, um vasto desamor.
Em redor dele há oratórios vazios, saudosos de santos.
(ele nem sabe disso.) Há quadros com moças mitológicas,
envoltas em véus, a dançarem entre nuvens e espumas.
(Não olha para elas.) Há estatuetas de bronze que
representam a Justiça, a Vitória, a Juventude, Diana e
Cupido, Napoleão e Pasteur. (O dono da loja não deve
ter lido jamais as etiquetas de cada bronze.)
Entra-se na loja, apenas para ver, e ele continua sentado,
sonolento, num torpor de quem se desligou completamente
deste mundo.
Ali estão as garrafas de cristal dos banquetes dos
nossos avós: garrafas sem tampas e tampas sem garrafas,
pobres destinos desencontrados e inocentes. Ali estâo
belas maçanetas venezianas que deviam servir a portas
maravilhosas de salôes que não existirão mais. Pratos e
xícaras, lampiões e jarras perfilam-se com serena dignidade
nas prateleiras poeirentas. Pequenas jóias quebradas,
com falta de pedras. Trinchantes de lâmina enferrujada.
Molhos e molhos de talheres com melancólicos
monogramas entrelaçados. (Amorosos tempos de casamentos
indissolúveis, de iniciais abraçadas, de lares que
pretendiam ser a imagem da Eternidade!)
O dono da loja continua tranqüilo no seu cadeirão
de couro, sem dar a menor atenção aos visitantes. Por
um lado, é comovente a sua confiança nos estranhos
que entram e saem. Mas leva-me a crer que apenas está
seu corpanzil naquela enorme cadeira: que seu espírito
(isto é, aquilo que não seja propriamente o corpo) ronda,
vigilante, os infinitos objetos que jazem na sua loja, sob
e sobre poeira. Pois se alguém se lembra de perguntar:
Qual é o preço daquela jarra? Quanto custa aquele
prato?", imediatamente aquilo que nâo é apenas o seu
corpo vem à tona da poeira e exala números um pouco
fantásticos: "Vinte mil cruzeiros ... Trinta mil... " E
tudo continua a ser sonolência e pó.
Ah! compoteiras gloriosas, que um dia brilhastes
com o topázio e o rubi dos doces de carambola e goiaba!
Ah! taças lapidadas erguidas entre discursos, bordadas
de sussurrante espuma! Ah! vulto de alabastro que
fostes como um raio de luar entre remotas sedas drapeadas!
...Tivestes os vossos donos, que vos amaram,
que vos admiraram, que vos protegeram para que a
vossa beleza não sofresse nenhum agravo. E agora sois
objetos desparelhados, que uns acham velhos demais
que outros não acham suficientemente velhos, e assim
habitais esse mundo de poeira; e representais apenas
um certo preço: o preço consignado nos catálogos, e
que a memória de um homem sonolento diz em voz
alta, como se vos batesse com uma vara e vos partisse.
62
SÚPLICA POR UMA ÁRVORE
Um dia, um professor comovido falava-me de árvores.
Seu avô conhecera Andersen-Andersen, esse pequeno
deus que encantou para sempre a infâricia, todas as
infâncias, com suas maravilhosas histórias. Mas, além
de conhecer Andersen, o avô desse comovido professor
legara a seus descendentes uma recordação extremamente
terna: ao sentir que se aproximava o fim de sua vida,
pediu que o transportassem aos lugares amados, onde
brincara em menino, para abraçar e beijar as .árvores
daquele mundo antigo - mundo de sonho, pureza, poesia
- povoado de crianças, ramos, flores, pássaros . . .
O professor comovido transportava-se a esse tempo de
ternura, pensava nesse avô tão sensível, e continuava a
participar, com ele, dessa cordialidade geral, desse agradecido
decido amor à Natureza que, em silêncio, nos rodeia
com a sua proteção, mesmo obscura e enigmátìca.
Lembrei-me de tudo isso ao contemplar uma árvore
que não esqueço, e cujo tronco há quinze dias se encontra
todo ferido, lascado pelo choque de um táxi desgorvenado.
Segundo os técnicos, se não for socorrida,
essa árvore deverá morrer dentro em breve: pois a pancada
que a atingiu afetou-a na profundidade da sua
vida.
Uma testemunha realista, meramente interessada na
descriçâo dos fatos aparentes, contaria que, uma destas
tardes, um pobre táxi obscuro, rodando dentro da quilometragem
regular, foi abalroado por um poderoso
furgão, de maneira tâo jeitosa que o motorista foi cuspido
do seu lugar; e o carro, em movimento, dirigiu-se,
desgovernado, para cima, para baixo, para a direita e
para a esquerda, até se amassar contra uma árvore.
Apenas isso: sem falar que o táxi levava passageiro,
que, no seu lugar, aguardava o desfecho desse jogo de
forças cumprindo-se inexoráveis dentro das leis da física.
Mas um observador mais sensível, mais dedicado ao
que mora além das aparências - sem divergir da descrição
gráfica do fato -, veria, no instante mais agudo
da situação, a bondosa, a caridosa, a dadivosa árvore
enfrentar o desastre com a sua solidez estóica, deter o
desvario da máquina, embora expondo ao risco a sua
vida.
Com que abraço se pode agradecer o heroísmo de
uma árvore? Num tempo em que os homens se destroem
com pensamentos, palavras e atos, de que maneira se
pode louvar uma árvore que protege e salva, embora
anônima e em silêncio? A quem se deve pedir que venha,
com os recursos de que os homens dispõem, impedir
que se extinga a vida vegetal que salvou uma vida humana?
Vinde, senhores da cidade!, tratai desta árvore
símbolo! Tratai-a com amor, porque está sofrendo,
por que está ferida, porque não se queixa - e para que
não se diga que os homens são menos generosos que
as plantas.
64
INVERNO
Com este frio que faz, Petronilha, devíamos ter uma
boa lareira. Estaríamos sentadas uma diante da outra,
e talvez eu me animasse a reaprender a técnica de tricô.
Na Europa, minha amiga Eva, mesmo sem lareira, senta-se
no cantinho mais abrigado da sua casa e, com uma
velocidade impressionante, faz meias, casaquinhos, toucas,
xales, que manda distribuir pelos pobres sem que
eles jamais tenham visto ou venham a conhecer as
suas . mãos. Os pobres pensam que tudo isso lhes cai
do céu, ficam muito felizes, pois o celestial é infinitamente
superior ao terreno, e agradecem a Deus tamanha
nha ventura como a de envolver as criancinhas em
lindas complicações de lã. Mas aqui, Petronilha, não
sei se existem as mesmas disposições para o maravilhoso.
Os pobres parece que não gostam tanto de receber
ber essas coisas tecidas com amor e aparecidas nas suas
mãos como presentes de fadas: preferem comprar os
grosseiros produtos da indústria expostos nos bazares.
Não, Petronilha, não voltarei ao tricô. Voltarei, sim, à
lareira, onde, ao excitante calor das chamas, inventare-
mos meios e modos de aquecer os friorentos sem ser
por esse sistema quase sobrenatural.
Tenho visto lareiras, Petronilha. Alguma coisa muito
antiga deve haver no fundo da nossa alma, para assim
nos alegrarmos com o crepitar da madeira, com o flutuar
tuar das labaredas amarelas e vermelhas, com o cheiro
da lenha queimada, com o prazer de revolvermos as
últimas brasas na cinza. Tudo isso é primitivo e . alado,
ao mesmo tempo. Não me faz pensar no Inferno dos
doutores da Igreja, mas no nascimento do mundo, em
franjas do Sol a brincarem na Terra, em pequenos
recados de luz, apenas balbuciantes. Tudo isso é lindo,
Petronilha, e eu insisto em sonhar - dado o frio que
faz - com uma lareira bem alta, bem larga, bem
luminosa.
Mas quando me lembro que essa lenha vem das florestas,
que estão sendo queimadas belas árvores para
o nosso prazer, entra-me no coração uma tristeza igual
a uma leve mas penetrante seta. Mereceremos nós o
sacrifício de uma só árvore?
Um dia, à margem de um rio, vi homens a fazerem
um barco. A madeira recendia, cor de marfim, aberta
ao sol. Os homens aparelhavam-na destramente, e eu
contemplava a distância aquela transformação da árvore.
Senti a mesma pena, mas pensei que nâo era tão grande
a ofensa, pois a árvore poderia envelhecer, apodrecer,
ignorada, na mata, se não a aproveitassem com aquela
habilidade e aquele amor. Porque havia amor naquele
trabalho de tal metamorfose. E a árvore, despregada
do solo, dessa fixação a que está condenada, iria navegar,
deslizar pelo rio, conhecer outros aspectos daquele
lugar onde nascera, ver as colinas, ver os penedos,
ver os peixes, ver muitas coisas - pois certamente lhe
pintariam dois grandes olhos, na proa, como já faziam
os antigos, e ainda lhe dariam um bonito nome protetor,
como é de uso com os próprios humanos.
Assim me consolei, Petronilha, da árvore transformada
em barco. Era, de certo modo, engrandecê-la, arrancá-la
à obscuridade e oferecer-lhe um mundo novo,
onde seria amada e feliz.
Mas com a lareira é diferente, Petronilha. As belas
árvores despedaçadas transformam-se em fogo e cinza.
Desaparecem. A glória efêmera das labaredas é glória
apenas para os nossos olhos. Mas, para a madeira, além
de efêmera é cruel. A árvore arde na sua própria chama,
é o sacrifício e a vítima, a um só tempo. Não,
Petronilha, creio que não quero mais a lareira. Não
faremos tricô para os friorentos, nem estaremos "ao
pé do fogo dobando e fiando" , e a dizer versos de
Ronsard, que não escreveu para nós... Já passaram os
séculos sobre Ronsard e Helena . . . Creio que as lareiras
devem ficar também no horizonte dos séculos. Não
Petronilha, não vamos consentir nessa morte das árvores
para o nosso conforto. Vamos vestir todos os nossos
agasalhos e contemplar a linda, embora fria chuva que
continua
a cair pelo jardim, pela montanha, pela terra. . .
67
SEMANA SANTA
Penso agora numa Semana Santa de Ouro Preto, recordo
do a melancolia das igrejas, na cidade contrita. Posso
ver a multidão comprimir-se para assistir à Procissão
do Encontro: no alto dos andores, o rosto da Virgem
é uma pálida flor, e a cabeça do Cristo, inclinada,
balança os cachos do cabelo ao sabor da marcha, com
um ar dolente de quem vai por um caminho inevitável.
O pregador começa a falar explicando aquela passagem
do Evangelho, exorta os fiéis à contemplação daquela
cena, cuja significação mais profunda procura traduzir.
Mas o povo já está todo muito comovido: as velhinhas
choram, as crianças fazem um beicinho medroso e triste
e as moças ficam pensativas, porque - embora em
plano divino - os fatos se reduzem à desgraça cotidiana,
que elas conhecem bem, de um Filho que vai morrer,
e cuja Mãe não o pode salvar, e que ali se despedem,
uma com o peito atravessado de punhais, outro
com a sua própria cruz às costas. 'O povo é bom, o
povo quereria que todas as Mães e todos os Filhos fossem
felizes, e se pudessem socorrer, e não morressem
nunca, e principalmente não morressem dessa maneira,
pregados a cruzes transportadas nos próprios ombros.
O povo é bom, e sabe que o Cristo ressuscitará, o
povo confia na Ressurreição, mas sua tristeza não é
menor, por isso, e há lágrimas sinceras nos rostos simples
que levantam o perfil para os andores parados na
encruzilhada.
A descida da Cruz, novamente a aflição dos fiés,
com o rosto banhado em lágrimas. Tudo foi há muito
tempo, êrii termos sobre-humanos, eles o sabem: dizia
como se pode ver Nossa Senhora com seu terno Filho ,
assim despregado e em chagas, a resvalar para os seus
braços consternados? Ah! o povo é bom e não pode
deixar de comover-se com a Santa Tragédia, que, em
termos humildes, é a sua tragédia de cada dia, com os
braços infelizes estendidos para filhos martirizados.
Depois, à luz dos círios, na interminável procissâo
que sobe e desce pelas ladeiras, o povo, de olhos lutuosos,
experimenta em seu coração aquele acontecimento
duplamente emocionante, conhecendo-o também no plano
terrenal, na angústia e no mistério da morte, a cada
instante observada e sofrida. Pelas ruas, o povo bom
acompanha o enterro do Justo, agüentando com fortaleza
o cansaço do íngreme caminho; e pelas janelas,
como pelas ruas, o povo bom participa daquela amargura,
morre em seu coração daquela morte, aceita a
sua condição humana, naquele lance final, depois de
se ter preparado para ele através das provações anteriores,
graves e acerbas.
Tudo isso enquanto as matracas fazem um acompanhamento
surdo, tenebroso, ameaçador, e os cabelos
da Madalena exibem sua amorosa beleza, e a voz que
canta o O vos Omnes se eleva, pungente, na noite,
fazendo chorar o povo bom, que tera suas dores tão
grandes, tão grandes, mas decerto menores do que a
daquela que pergunta: "Conheceis uma dor igual à
minha?" - e expõe a Santa Verônica.
Oh, a dor dos pais pelos filhos! Abraão vai no cortejo,
querendo descarregar a espada sobre Isaac, para
provar a Deus sua devoção. Mas o Anjo compadecido
puxa-lhe a espada para cima. Não, não é preciso que
ele sacrifique o menino que também vai carregando às
costas o pequeno feixe de lenha do seu sacrifício:
"Abraão, Abraâo, não estendas a tua mão sobre o menino,
e não lhe faças mal algum..." Deus é bom, o
povo é bom, uma onda de bondade comove a noite inteira,
das estrelas do céu até o tundo dos côrregos ...
Depois, é aquele amanhecer festivo de coisas claras
e douradas, de cânticos felizes, de sinos, com todas as
lágrimas enxutas, porque um dia todos os Filhos serão
felizes, nem Isaac será queimado no alto do monte nem
Jesus crucificado; um dia todas as Mães serão definitivamente
jubilosas, e as velhinhas agradecem a Deus
- há dois zizil anos as velhinhas agradecem a Deus
tanta bondade - e as moças sentem o coração dilatado
de esperanças, e os anjinhos de procissão, que agora
mal podem andar com suas grandes asas de penas brancas,
os anjinhos que um dia vão ser crescidos, adultos
e vão saber destes difíceis problemas de viver, de
serem filhos e de serem pais, esses anjinhos, de pés
cansados e carinhas alegres, comem os seus confeitos
de Páscoa, ainda de asas e túnica, à beira das calçadas,
no degrau das portas, em alguma ponta de muro . . .
O povo bom sofre uma vez por ano, intensamente,
seu compromisso de ser bom, de ser melhor, cada dia
mais, para sempre. O destino do homem é ser bom. Sua
felicidade está em consegui-lo, mesmo-ou principalmente-sofrendo.
70
ÀS VINTE E DUAS HORAS
Às vinte e duas horas devíamos todos estar dormindo,
para vivermos um século, se acreditássemos no provérbio
que "acordar às seis, almoçar às dez, jantar às seis,
deitar às dez, faz o homem viver dez vezes dez..."
Mas ai! quem acredita mais em provérbios? quem sabe
provérbios? que são provérbios? A vida mudou quase
de repente, e os hábitos tornaram-se outros, e é outra
a moderna rotina. (E será bom viver um século?)
As vinte e duas horas, se dormíssemos, talvez tivéssemos
belos sonhos, talvez nos despertasse alguma serenata.
Mas a província do Rio de Janeiro ainda nâo
perdeu seu estilo de grande cidade: nem as crianças
querem deitar-se a esta hora! e mesmo os anciãos e os
doentes acham que a esta hora ainda se pode estar
acordado, ainda é tempo de ver, ouvir, pensar, falar...
Todos queremos prolongar o tempo, vivê-lo mais: a
cada instante pode sobrevir uma revelação importante!
Cada minuto é um mistério. E o que amamos, acima
de tudo, é o mistério: dele viemos, nele perduramos,
para ele nos dirigimos.
As vinte e duas horas, cada um está vivendo um instante
diferente, como a qualquer outra hora do dia ou
da noite: alguém pode estar nascendo, alguém pode estar
morrendo. Alguém pode estar pedindo socorro, e
não sabemos. Alguém pode estar sendo feliz, até sem
o saber.
As vinte e duas horas, há luz no gabinete dos que
estudam, na sala dos que conversam, nos aposentos dos
que sofrem, dos que esperam, dos que amam. Vemos
#essa sucessão de luzes, vidraças sobre vidraças, ao longo
das imensas ruas. Cada luz pertence a um instante diferente.
A distância unifica tudo em silêncio: mas há
palavras muito diversas, na ôrbita de cada lâmpada. Se
pudéssemos ouvi-las todas, veríamos de que surpreendentes
contrastes é feita essa aparente identidade.
Às vinte e duas horas, as ruas estão desertas, de um
lado; repletas, de outro: há beldades, como flores noturnas,
que só depois das vinte e duas horas exibem o
seu esplendor: é uma hora mais escura para os pobres,
nas suas tocas - mas é uma hora mais clara para as
sedas e os diamantes. As sombras da noite sâo assim
caprichosas.
Mas tudo é enganoso, estas vinte e duas horas são
também uma ilusão, porque em outros lugares amanhece,
em outros é pleno dia, e em cada ponto da Terra um
momento diferente marca uma outra atividade e um
outro sonho. E tudo isto que pesa nos nossos ombros
e na nossa alma se vai tornando aladQ, leve, livre, e a
própria Terra vai deixando de ser este cenário próximo
e aflitivo: recuperando suas velhas asas, reafirmando-se
Planeta, no vôo do universo!
E que quer dizer "vinte e duas horas"?
72
HISTÓRIA QUASE MACABRA
Aquele senhor contou-me que conhece um lugar cujas
condições climáticas mumificam os cadáveres enterrados,
sem necessidade de qualquer embalsamamento. Ele
esteve nesse lugar, como turista, quando se podia já
visitar um museu subterrâneo onde os antigos mortos
se apresentavam intactos em seus corpos e em seus
vestidos.
Sucedeu que, na época das exumações, começaram
a encontrar esses corpos assim admiravelmente conservados.
Pensaram, a princípio, que fossem casos especias,
quem sabe, mesmo, casos de santidade. Mas à
medida que iam sendo feitas as sucessivas exumações,
no prazo que a cada uma correspondia, notou-se que o
fenômeno era geral. Foi quando alguém, com forte vocação
turística, sugeriu que se organizasse o tal museu
subterrâneo. Não sei de pormenores a respeito, porque
aquele senhor me contava essas coisas com certo constrangimento,
dada a sua reverência pelos mortos e o
que se seguiu, na conversação. Parece que levantaram
uma parede de vidro, para se poder ver aquela exibição
fúnebre, e que os mortos, embora em seus ataúdes,
foram colocados em posiçâo vertical. Era o que se podia
deduzir dos gestos com que aquele senhor fazia a
sua respeitosa descrição.
Todos os museus têm, naturalmente, seus conservadores
dores e seus guardas. E seus guias. O guia deste museu
não podia limitar-se a acompanhar os visitantes para
lhes oferecer esse singular espetáculo. Estudou a história
de cada morto: essa parte da história de cada um
que se supõe suficiente para retratar qualquer pessoa,
e que, em geral, consta apenas de uns míseros dados
superficiais - datas, lugares, vagos pontos de referência.
Ainda há muitos homens antropófagos, quero dizer,
ávidos de devorar a vida do próximo, de saber pormenores,
de penetrar em intimidades, dé colecionar
anedotas, pequenos fatos sem importância, mas que
sejam parte da história de alguém, que muitas vezes nem
conheceram, mas que lhes dá prazer saborear, assimilar.
É muito triste este mundo.
Então o guia do cemitério, não desconhecendo essa
vocação antropofágica, sobretudo dos turistas, que nem
mastigam as vítimas - vão absorvendo tudo, contanto
que sintam encher-se com o verídico e o inverídico os
celeiros estéreis da sua imaginação -, o guia começou
a fazer suas divagações sobre os pobres mortos ali
expostos como se lhes não bastasse a infelicidade dessa
póstuma exibição, e ainda tivessem de servir de pasto
à fome dos visitantes com biografias que não correspondiam à verdade.
Mas a verdade é mesmo muito difícil de discernir.
Que saberiam os mortos das suas verdades de vivos?
Os mortos têm outras verdades, devem ter os seus monólogos
e diálogos, e o que foram é uma coisa sem
sentido, em face do que passam a ser. Talvez o guia,
obscuramente, pensasse desse modo: e ia fabricando os
seus romances, segundo a própria aparência dos personages.
Os mortos não têm todos a mesma aparência,
Uns tornam-se amarelos; outros, verdes, azuis, cinzentos,
com placas acobreadas; e alguns ficam meio trans-
lúcidos, como alabastro, e há os que parecem de pérola,
com um vago luar iluminando-os.
Disse-me aquele senhor que nem todos os mortos
do cemitério estavam exatamente bem-conservados. Mas
alguns podiam ser considerados perfeitos. ,Um homem
de uns quarenta anos, extrem,mente bem-vestido, era
o exemplar mais admirável da exposição. Tinha finas
mãos, muito alvas, e uma fisionomia romântica de
grande expressão. Seus cabelos negros mantinham-se
bem penteados, com o brilho natural dos cabelos vivos
e uma grande onda descia-lhe um pouco pela testa, ampla
e serena, e perdia-se por detrás da orelha. Todos os
visitantes se interessavam por aquela figura, e queriam
conhecer a sua vida, a sua profissão e tudo mais que
neste mundo se usa querer saber pela curiosidade antropofágica.
A princípio, o guia dava os pormenores que constavam
vam do próprio livro do cemitério. Mas um dia, sob a
excitante influência dos turistas, começou a divagar, a
contar fatos da sua imaginação, a atribuir ao morto o
que Ihe parecia corresponder à sua romântica figura.
Mas, disse-me aquele senhor que a certa altura parou,
e perdeu para sempre a voz. Os turistas não viram:
mas o guia deixou escrito que o morto abrira os olhos
fitara-o muito sério, e dissera-Ihe, num, suspiro: "Deixa-
-me em paz. Por que mentes assim?"
75
LEMBRANÇA DE
ABHAY KHATAU
Quando visitei, na lndia, o pintor Abhay Khatau, ele
era um jovem de vinte e poucos anos, e morava num
desses prodigiosos palácios de complicada construção,
com inúmeras escadas, sucessivos terraços, múltiplas
varandas, que resumem o sentido patriarcal de uma
época, em aconchegar, verdadeiramente como numa
árvore, os vários ramos da família que se vai multiplicando.
A medida que subíamos para o seu apartamento, o
palácio ia-se oferecendo à vista sob os mais inesperados
aspectos: e era como se fôssemos percorrendo uma
galeria de miniaturas clássicas: numa sala, meninas cantavam
e dançavam, esbeltas e transcendentes, apoiando
seus exercícios em pensativas músicas; noutra sala, um
homem, acocorado à maneira oriental, ocupava-se em
passar a ferro um sári que serpeava em cores pelo
assoalho; mais adiante estavam sendo socadas as especiarias
que dão à cozinha indiana esse aroma cálido,
acre, picante, delícia dos que a apreciam, pavor dos
que a detestam. Tudo isso entrecortado de céu azul,
de frondes, de paredes brancas, de roupas de muitas
cores.
Depois do chá com bolinhos de arroz e pasteizinhos
muito quentes e gordurosos (entre pessoas não apenas
amáveis e cultas, mas para as quais a arte ainda é uma
coisa sagrada, um dom de transmitir mensagens entre
o céu e a terra, entre a eternidade do espírito e a volubilidade
do momento) começaram a aparecer os desenhos
e pinturas do jovem Abhay Khatau.
Afinal, quem era ele, e que nos tinha a dizer, com
seus quadros? As primeiras alusões eram à sua riqueza:
uma riqueza que nos transportaria a panoramas lendários,
colocando-o numa situação ímpar, com inteira liberdade
para consagrar-se exclusivamente à sua vida artística.
Havia também a sua precocidade. Ele nascera
pintor: só se entendia com tintas, cores, símbolos gráficos.
Essa era a sua comunicação com o mundo, e o
que o mundo lhe dizia chegava também traduzido nessa
linguagem. Essa linguagem e essa comunicação; além de
cores, tinham ritmo. Esse ânimo dançante que a India
sente palpitar na Criação, e que vivifica suas tradições
e se reflete na imagem de seus deuses, apoderava-se também
da inspiração de Abhay Khatau, tornando sua pintura
implicitamente musical.
Entre os quadros que iam aparecendo, surgiram também
os sáris do enxoval de sua noiva, executados sobre
desenhos por ele amorosamente sonhados: a esse desdobrar
de sedas coloridas, em fabulosas combinações de
tonalidades e desenhos entremeados de ouro, desatou
de repente pequenas cascatas cintilantes em redor da
sala que a cada instante se ia tornando mais fantástica.
Os pintores atuais da India não obedecem exclusivamente
aos temas e técnicas tradicionais: há curiosas
fusões do Oriente com o Ocidente, em seus trabalhos,
e acentuações, ora no assunto, ora no estilo, que revelam
as inquietudes e buscas desses jovens.
Abhay Khatau tinha viajado pela Europa, conhecera
a Itália, cujos museus visitara e cujo teatro de ópera
particularmente havia impressionado sua sensibilidade
de pintor. A movimentação e o colorido do espetáculo,
a estranheza da indumentária fantasiosa refletiam-se em
seus quadros com aquela fisionomia febril das esculturas
amontoadas nas paredes dos velhos templos indianos.
Mas Abhay Khatau observara também certos aspectos
da vida social do Ocidente. E começaram a aparecer
desenhos realistas de senhoras rubicundas, com grandes
decotes, extravagantes vestidos, que ele, sem nenhuma
intenção caricatural, antes com a mais respeitosa seriedade,
ia sobrepondo diante de nós, em telas e cartões.
Nós é que víamos, com pungente melancolia, a finalidade
deste mundo nosso, agitado e superficial, de modas
vãs, de exibicionismo sem sentido, de reuniões sem finalidade
séria, de vida falsa, oca, demoníaca.
As mulheres veladas, a cortesia da palavra e do gesto,
o recato da alma preocupada com os seus temas, tudo
quanto em redor de nós, na India, seduzia e deslumbrava,
parecia-nos pertencer a outra idade, a outro tempo
humano. O Ocidente era um grito brutal, no meio
daquela música.
Mas Abhay Khatau ia mostrando seus quadros com
a mais suave naturalidade. Como um professor isento
de paixões, que expõe a sua lição. E ele mesmo não
pensava em liçâo nenhuma. Pensava em cores, figuras,
ritmo, essas vagas invenções.
78
A ARTE DE NÃO FAZER NADA
Dizem-me que mais de metade da humanidade se dedica
à prática dessa arte; mas eu, que apenas recente e
provisoriamente a estou experimentando, discordo um
pouco da afirmativa. Não existe tal quantidade de gente
completamente inativa: o que acontece é estar essa
gente interessada em atividades exclusivamente pessoais,
sem conseqüências úteis para o resto do mundo.
Aqui me encontro num excelente ponto de observação:
o lago, em frente à janela, está sendo percorrido
pelos botes vermelhos em que mesmo a pessoa que vai
remando parece não estar fazendo nada. Mas o que verdadeiramente
está acontecendo, nós, espectadores, não
sabemos: cada um pode estar vivendo o seu drama ou
o seu romance, o que já é fazer alguma coisa, embora
tais vivências em nada nos afetem.
E não posso dizer que não estejam fazendo nada
aqueles que passam a cavalo, subindo e descendo ladeiras,
atentos ao trote ou ao galope do animal.
Há homens longamente parados a olhar os patos na
água. Esses, dir-se-ia que não fazem mesmo absolutamente
nada: chapeuzinho de palha, cigarro na boca, ali
se deixam ficar, como sem passado nem futuro, unicamente
reduzidos àquela contemplação. Mas quem sabe
a lição que estão recebendo dos patos, desse viver anfíbio,
desse destino de navegar com remos próprios, dessa
obediência de seguirem todos juntos, enfileirados, clã
obediente, para a noite que conhecem, no pequeno bosque
arredondado? Pode ser um grande trabalho interior,
o desses homens simples, aparentemente desocupados,
á beira de um lago tranguilo.De muitas experiencias
contemplativas se constrói a sabedoria, como a
poesia. E não sabemos - nem eles mesmos sabem -
se este homem não vai aplicar um dia o que neste momento
aprende, calado e quieto, como se não estivesse
fazendo nada.
Assim os rapazinhos que se divertem em luta violenta,
derrubando-se uns aos outros, procedem a uma avaliação
de forças, de golpes de habilidade: lições de
assalto e defesa, postas em prática espontaneamente.
Pode . algum curso ser mais interessante do que este,
que encontra já os alunos vivamente dispostos a segui-lo?
E aqui pelo salão fala-se de coisas que muitos julgariam
fúteis: de jogos de cartas, do valor convencional
de ases e coringas . . . Mas os que assim conversam estão
de tal modo necessitados desses conhecimentos como
outros, neste mundo, de uma leitura filosófica ou científica.
Não se pode, em sã consciência, dizer que não
estejam fazendo nada.
Mesmo estas mocinhas que trouxeram para a vitrola
seus ruidosos discos americanos e ainda recomendam:
"Ponha bem alto! Ponha bem alto!" -, embora conversem
de outra coisa e nâo prestem nenhuma atenção
à música, estão escravizadas ao seu ritmo, que vão acompanhando
com os ombros, com as mãos, com requebros
da cabeça. Não estão fazendo nada? Mas estão disciplinando
a sua própria cadência; estão acertando pelo
compasso da época (se é pior ou melhor esse compasso,
quem o ousará dizer?) a sua própria vida, como o
colegial que acerta, em pauta dupla, sua caligrafia.
Não, não; estou desconfiadíssima de que a tal arte
de não fazer nada não existe. Pois estas senhoras, certamente,
vieram para aqui a fim, de não se dedicarem
a coisa nenhuma: e eis que encontram trabalhos dobrados,
pois a cada hora do dia pensam em mudar de
roupa e em se fazerem mais originais e mais bonitas. E
os cavalheiros que as acompanham, com tanto tempo
que àgora têm á sua disposição, dedicam-se a gentilezas
e solicitudes que representam um trabalho meritório,
sem dúvida, mas delicado e ininterrupto. Quem falou
em férias, em descanso, em arte de não fazer nada?
As pessoas mais disponíveis são as que vêm tratar
da saúde. Pois de manhã cedinho já estão vestidas, a
caminho do balneário, onde lutam com os seus cálculos
e alergias, em vigorosos banhos, em duchas e massagens.
E atravessam a manhã ocupadas com o relógio, a
controlarem os goles d'água de seus copinhos. E atravessam
o dia ocupadas com a sua dieta e o seu descanso,
de modo que seria grande injustiça imaginar que
não estejam fazendo nada.
Até as crianças, que gozam da fama de uma existência
de contínua gratuidade, tentam, à tardinha, brincar
de roda, recitar versos, dançar e cantar, o que lhes
custa um enorme esforço, pois as tradições vão desaparecendo.
E é tudo assim. Não vejo nada inativo: nem estas
nuvens que parecem paradas, nem estes passarinhos
que voam para o norte, nem o cavalo abandonado à
margem da estrada, que meneia a cauda indolentemente.
Apenas, talvez haja um valor e uma hierarquia
nessas atividades. Mas quem sou eu, para defini-las e
recomendá-las?
81
CARNAVAL DO RIO
O Carnaval começa a borbulhar, aqui, certa noite,
obscuramente, no negrume dos morros. apenas um
ritmo surdo, um movimento de arrulho que embala o
sono dos vales. Prossegue, prossegue, palpitante, na
sombra, na distância, como um coração cansado e
opaco num vasto corpo de silêncio.
Pouco a pouco, esse ritmo noturno se vai despojando
de suas franjas secretas, seu contorno vai sendo mais
forte e mais nítido, como se, deixando seus esconderijos
rasteiros, se fosse libertando da pesada poeira do
seu nascimento. E então já se pode acompanhar, de
muito longe, aquele andamento invisível e que adquire
ressonância, que já não é uma simples cadência monótona,
mas uma construçâo de sons que de repente se
entrelaçam, vão baixando e recomeçam, no alto da
noite, pelos seus densos muros, longas inscrições gravadas
como essas que perduram nas edificações muçulmanas.
Pouco a pouco, também, vozes muito esguias começam
a elevar-se, como letras compridas e vistosas, nessas
prolongadas e fluentes inscrições. São vozes várias, que
também se enlaçam, e chamam e respondem, e se dis-
persam na vastidão da noite. De tão longe, não se pode
entender o que dizem, mas sente-se o apelo, a ternura ,
a melancolia do grico. E esse instante humano faz sonhar
com tempos passados, com a envolvente presença de
uma boa gente negra, séria e generosa, ainda não desprendida
de seus compromissos de ritos, de mitos, de
lendas, de fábulas.
Com a sucessão das noites,tudo vai ficando mais
claro: o ar adquire transparência e os sons se aproximam
do nosso ouvido, com todas as suas múltiplas
riquezas. Não apenas o bater dos tambores, o ranger
das cuícas, o martelar abafado das madeiras, mas vibrações
de metal, oscilações, interferências de vidro; desenhos
agudos, estridentes, redondos, prateados, veludosos:
pássaros, sinos, insetos, comandados por um vigoroso
apito que atravessa, repentino e imperativo, a
compacta parede musical, porta de muralha que se abre
e logo se torna a fechar.
Finalmente, o Carnaval instala-se no seu dia. Todo
essé trabalho preparatório, no alto dos morros, vem
fundir-se. nas ondas da multidão exultante que transborda
pelas. ruas. Vemos os grupos, os blocos, os ranchos,
os grandes desfiles, os bailes. . . Vemos de perto
as roupas de seda e arminho; escutamos as canções;
contemplamos estandartes, carros complicados; ouvimos
narrativas de . enredos, explicações, erudições . . .
E assim o Carnaval transcorre, entre serpentinas e
luzes, palmas de turistas, alegrias e tristezas de prêmios:
uma grande festa desigual, onde o melhor e o pior se
misturam às.. cegas, num demorado delíria monstruoso.
Mas o que fica no ar é uma cadência, a pulsação de
um mundo e de. um tempo subterrâneos, um sentimento
de vida surda procurando encontrar-se, desde um remoto
passado a um futuro muito vago, através de esfinges e
enigmas.
83
RABINDRANATH,
PEQUENO ESTUDANTE
Ao longo da sua vasta e importante obra literária,
Rabindranath Tagore, sempre que pode, faz uma referênCIA
aos seus primeiros tempos de estudante. Partindo de
quem partem, essas lembranças deviam ser meditadas
por pais e professores, pois representam a experiência
de uma criança maravilhosamente dotada, esforçando-se
por libertar-se da rotina escolar, da memorização e do
acLímulo de disciplinas que os professores, embora
zelosos, se esforçavam por incutir-lhe.
Quando um dia o menino chorou para ir à escola,
houve quem Ihe dissesse: "Hoje choras para ir, amanhã
chorarás para não ir." E ele nunca esqueceu esse
prognóstico, que mais tarde consideraria acertadíssimo.
A escola causou-lhe muita decepção. Como em The
Parrot s Training, em que os sábios, para educarem um
pássaro, a primeira coisa que acharam necessária foi
uma gaiola, também o menino se sentia infeliz no mundo
dos deveres escolares, longe de todas as belas coisas
da vida: o grito dos vendedores ambulantes, as meninas
felizes (que não iam à escola) brincando com caramujos
e conchinhas, as imagens familiares vistas da alta varanda:
os que fumavam, os que se penteavam, os que costuravam . . .
Entre as histórias de bandidos, de animais ferozes, de
almas do outro mundo, e os cadernos com letras e
números, o pequeno estudante se sentia terrivelmente
dividido: de um lado, era a vida, com todas as suas
peripécias, belas e tremendas; do outro, .o ensino: páginas
nas devoradas, como na história do papagaio, nutrido
de folhas e folhas de livros, até morrer sufocado
enquanto lá fora a brisa passava pelas árvores em flor.
A história do colegial Rabindranath Tagore não foi
propriamente brilhante, no que se refere a essa capacidade
de absorver noçõe e armazená-las. Ao contrário,
é pela sua resistência à ação dos professores (que ele,
com tão pouca idade, já sentia nociva e irracional) que
se caracterizam os seus primeiros tempos de estudo. Em
relação a um dos mestres, sua atitude chegou mesmo
a ser a de um grevista em puro estilo "gandhiano", pois ,
sentindo-o agressivo e injustamente autoritário, passou
a não responder jamais às suas perguntas, mesmo quando
possuísse as respostas certas.
Essas confissões de Tagore deviam ser meditadas por
pais e professores, porque suas experiências infantis
continuam a ser repetidas por toda parte. Por isto ou
por aquilo, ainda que nos sobrem conhecimentos pedagógicos,
falta-nos, freqüentemente, o sentido "humano"
da criança. Que desejam as escolas? Transmitir conhecimentos?
Promover alunos? Praticar (ainda que com as
melhores intenções) o comércio da instruçâo? Desenvolver
as crianças para a vida, mediante o aprimoramento
de suas faculdades, de sua vocação, de seu gosto?
Que esperam os pais da escola? Algum descanso?
Uma partilha de responsabilidades? Diplomas?
Sâo os adultos que decidem. A criança está entre as
suas decisões, geralmente sem forças para se defender,
mas sentindo-se ameaçada. E quando se fala de maus
estudantes é sempre culpada a criança. Preguiça. Vadiação.
Falta de inteligência. Distração. Desinteresse. Etc.
Rabindranath Tagore, homem extraordinário, que se
fez educador por amar as crianças, anotou suas amarguras
de pequeno colegial. Falou-nos de seu mundo
encantado, de sua vida poética ainda incomunicável
em contraste com os métodos e as finalidades do ensino,
no seu tempo. Isso foi há um século, e, por incrível que
pareça, continua a ser mais ou menos como era, até
agora. As escolas são poucas, os alunos são muitos, os
professores não têm grande paciência, o dever cumprido
calcula-se mais pelo horário do que pelo devotamento
e a compreensão do `fato humano', as crianças estão
transtornadas por esses horrores do cinema, da televisão ,
das histórias em quadrinhos ue substituem a vida
que são a sua melancólica experiência, fora da mediocridade
cridade do ensino comum, e chegam a ser a sua libertação,
a sua poesia, o seu contentamento.
Ah, meu pequeno Rabindra, como tudo piorou tanto!
O progresso cresceu, os livros aumentaram, os programas
ficaram imensos, e a criança está muito mais engaiolada
na sua solidão, cercada de muito mais problemas,
com a. voz do espírito abafada por muitas inutilidades.
Foi assim que o papagaio morreu. E em volta dele
disseram: "Que ingrato! Tão bem tratado!. . "
86
DIA DE SOL
Apareceu o sol, e eis-nos todos felizes, não porque os
dias de chuva não tenham seu encanto, mas porque já
eram muitas chuvas seguidas, e nem sempre é agradá-
vel andar pelas ruas molhadas, com os pés desgovernados
pela lama.
Mas é bela a chuva a cair das goteiras, a pender das
folhas das árvores, a derrubar com o seu peso as campânulas
que escorregam pelos muros e que têm pingentes
gentes como um trancelim de ouro sustentando um diamante dägua.
Amanheceu o sol novo: um espetáculo diferente, o
primeiro dia luminoso do mundo. O céu limpo, uma
seda azul estendida de horizonte a horizonte. As árvores
muito bem lavadas, com a folhagem polida, mais
verdes do que antes, mais saudáveis, com frondes mais
abundantes. (Tudo isso aconteceu enquanto chovia?)
E começam a passar muitas borboletas novas também,
com seus vestidinhos de veludo; oh , tão lindas,
tão lindas, para tão pouco tempo . . . Vem uma toda
preta com listras amarelas e pousa no jasmineiro. Pousa
mesmo no único jasmim que a chuva deixou ficar no
ramo, e é como se o estivesse lendo atentamente, lendo
aquelas seis pequenas páginas brancas onde não sabemos
o que estará escrito.
Só porque o sol apareceu, tudo se modificou. Vieram
os meninos para a rua e começaram a brincar nas
calçadas, e a moça descobriu até que os grilos saíram
das suas tocas, e deu-me uma explicaçâo a respeito dos
seus hábitos, das suas conversas, e as minhas ignorâncias
sorriam também felizes com as alegres notícias do
mundo dos bichos.
Continuaram a passar outras borboletas, e os pombos
que viviam escondidos ali no beiral do vizinho alisaram
as penas, experimentaram as asas e romperam a
voar por cima dos telhados, e foram bem longe, lá para
os lados das palmeiras.
Fiquei muito contente com esse despertar do que
antes estivera refugiado, com medo da chuva.
Os cães que há tanto tempo não se faziam ouvir
começaram a ladrar para o sol, como se quisessem cantar.
Mas quem cantava mesmo eram as meninas que subiam
no bonde que leva ao Corcovado. Cantavam e batiam
palmas, e era uma festa por todo o vale. Descobri no
jardim flores que nunca tinham desabrochado, que não
sei como se chamam nem de onde vieram. E uma estava
sendo lentamente percorrida por uma abelha, e outras
continuavam libertando-se do peso da água que em suas
corolas se acumulara.
À tardinha, visto que o mundo todo estava em ordem ,
e até as coisas tinham aparência feliz, resolvi ser feliz
à minha maneira, que é pôr uma folha de papel na
máquina e começar a trabalhar.
E assim me achava posta em sossego, quando um
bem-te-vi galhofeiro de algum Iugar soltou o seu grito,
que parecia dirigido expressamente a mim, como uma
delicada provocação. E não tive mais tranqüilidade, pois
a família dos bem-te-vis é muito numerosa e ruidosa, e
quando um começa a falar todos respondem, cada um
no seu tom, como se não concordassem uns com os
outros, o que é muito próprio das famílias mesmo não
numerosas. E foi assim, que, sem que eu os pudesse
avistar, os bem-te-vis interromperam o meu trabalho ,
tanto gritavam as senhoras e os homens, as senhoritas ,
os rapazes e as crianças dessa enorme família. Uns
estavam roucos, e devia ser ainda efeito da chuva. Talvez
vez todos quisessem sair, passear, ir ao cinema dos bem-te-vis,
aproveitando o dia de sol.
Então, resolvi ouvir as sonatas de Bach para flauta
e cravo - e a flauta cantava como um pássaro e o
cravo parecia uma grade de prata sobre a sua voz. E '
assim me fui entretendo nesse ouvir e interpretar, e
o sol terminou a sua viagem, a noite envolveu-nos de
frio, os bem-te-vis já não discutiam mais. Bach reinava
sozinho e eterno, numa divina solidão.
89
NÃO CREIAS NOS TEUS OLHOS ..
Os velhos sábios nos ensinam a desconfiar do que
vemos. Não basta ver para crer: somos de tal modo
sujeitos a ilusões que, além de ver, convém-nos verificar.
E Deus sabe se até no verificar acertamos!
Pois nós estávamos num restaurante em São Paulo,
quando ainda são poucos os fregueses e podem ser
minuciosamente contemplados, e o meu com anheiro
disse-me: "Olha o belo bandeirante que ali está sentado!
" Era mesmo o bandeirante queqnós imaginamos,
grande e forte, capaz de subir e descer muitas montanhas
e atravessar muitos rios, sem fome, sede, sono ou
cansaço. Não tinha botas de sete léguas: mas também
para que, com tanto ânimo e disposição, precisaria
delas?
De costas para nós estava a sua companheira, toda
de seda azul vestida, com uns longos cabelos soltos que
lhe desciam muito abaixo dos ombros. Achei natural
que um bravo bandeirante trouxesse consigo uma formosa
índia. Essa índia tinha cabelos longos e lisos,
mas louros como todo o mundo sabe que são os trigais,
e com esses reflexos preciosos que todo o mundo sabe
possuir o ouro, causa de tâo infinitas aflições.
Não tenho notícia de índias louras no Brasil; mas
as mulheres sabem tantas coisas para se fazerem mais
lindas ou mais estranhas que talvez alguma entendesse
já, outrora, dessas artes que hoje sustentam em todo o
mundo a vasta e próspera corporação dos cabeleireiros.
Continuei a estudá-la. A índia loura comia com garfo
e faca, muito direitinho. (Mas as mulheres aprendem
tudo táo depressa!) Não devia estar saboreando nenhum
bracinho de criança, pois aquele era um restaurante
sério, moderno, de pratos complicados. Nem seria paca
ou tatu o que a minha índia loura comia com tanta
perfeição. Mas o prazer com que de, vez em quando,
apesar da faca e do garfo, lambia a pontinha do dedo
mínimo era uma prova indubitável de que, com aquela
formosa cabeleira loura, tinha vindo mesmo da selva,
onde os passarinhos e borboletas deviam estar morrendo
de saudades suas.
Tão índia era a moça vestida de seda azul que, de
vez em quando, tirava os pés de dentro dos sapatos,
embora com muito jeito e civilidade; e o calor que lhe
devia estar causando aquele vestido era tão grande que
às vezes se abanava com o guardanapo. Um pequeno
lapso na etiqueta; mas uma confirmação a mais de
sua origem. E quando os seus louros cabelos, embora
tão lisos e longos, me procuravam dissuadir dessa origem,
eu recordava todos aqueles franceses que andaram
aqui pela costa, e que talvez já tivessem dado
perucas louras aos índios, em troca de sagüis, ou fizessem,
com o pau-brasil, intercâmbio de tinturas de cabelo.
Os franceses sempre foram famosos no assunto; e
até hoje, nos mais variados lugares, quando um cabelereiro
de senhoras quer fazer publicidade de sua competência,
batiza logo o seu salão com um nome que
lembre a doce França.
A moça tinha muitos berloques pelo pescoço e pelos
braços; o que estava perfeitamente de acordo com a
origem que eu lhe atribuía. Pois não foram também os
franceses os primeiros a trazerem miçangas e vidrilhos
para as jovens que tão artisticamente se enfeitavam ao
longo destas praias, à sombra destas árvores, entre serpentes e flores?
O bandeirante falava-lhe com a ternura de um pioneiro,
de um descobridor, de um andarilho em férias:
depois de tanto escalar montanhas, atravessar vales e
rios, pensar em onças e cascavéis, é muito agradável
sentar diante de uma limpa e farta mesa, onde brilham
vidros, louças, metais, e saborear coisas complicadas,
com muito queijo e muito tomate, tendo ao lado a índia
carinhosa, que meigamente deixou a sua taba, a sua
mandioca, e veio, por amor, fazer o sacrifício de enfiar
um vestido (mesmo de seda pura e azul celeste) e
acertar os seus pés, livres e ágeis, em sapatos de salto
alto. Mas o amor faz prodígios, realiza impossíveis. E
por um bandeirante assim! .
Na verdade, as minhas considerações eram um pouco
anacrônicas: não duvido que ainda haja muitos bandeirantes
atravessando estes brasis com o mesmo fervor
de outrora; mas não sei se ainda há tantas índias com
suas tabas e redes e mandiocas, como nos velhos tempos.
Aquilo deviam ser fantasias de carioca, pensando
no quarto centenário do Rio de Janeiro ...
Foi quando chegou o nosso amigo e disse, num sorriso:
Eu já venho bater um papinho com vocês: pioneiro,
vou ali cumprimentar aquele casal italiano . . . "
92
FESTA
Entre muros brancos de fortaleza, o som do piano. A
sombra do piano projetada nos muros brancos, desconforme.
Duas mãos pequenas fazem toda aquela música,
rumorosa, grandiosa: aquele oceano sentimental.
um mundo de cravos vermelhos presos em fitas
douradas; de rendas, de jóias enormes.
Os parapeitos derramam-se para a noite, para o
espaço, para a via láctea. E as moças nos: parapeitos
são outras vias lácteas, são cometas diáfanos, com seus
longos vestidos vaporosos, seus cabelos em nuvem, a
fosforescência da sua ornamentação.
Em toalhas de renda com laços cor-de-rosa, iremos
comer manjar branco, com umas colheres de prata que
a luz fosca dos grandes lampiões converterá em longos
peixes esguios, de cauda blasonada.
A noite cálida tem uma frescura subterrânea, em
redor dessa mesa descomunal, de um tempo de fidal-
gos gigantescos, treinados em cavalgadas, caçadas, espadas
padas - mas também com certo requebro lânguido,
fadigas saudosas de linhos macios, cristais lapidados,
cestas, leques, refrescos..
A dona da casa é uma rainha de raça misteriosa,
toda enrolada em seda branca das espáduas à ponta
dos pés. Com diadema de rosas e diamantes, continuará
sentada em seu trono - que é uma enorme cadeira de
balanço - de onde acompanhará vagamente a apaixonada
cadência do piano e o movimento geral da festa.
E uns rapazes de cabelos cetinosos, com grandes
olhos do século XVI, virâo servir em frágeis porcelanas
nas um café que perfuma o palácio, a ilha, o mar. E
com o café, o açúcar, o tabaco, as bebidas ardentes
recordarão que estamos num lugar de palmeiras e canavias,
com tapetes de areia morna franjada de espumas
verdes e azuis.
É um mundo de cravos vermelhos, de luzes antigas,
de espelhos suntuosos, por onde deslizam pessoas fora
do tempo, que ao som do piano se tornam completamente irreais.
Do lado da terra, ouve-se o abafado planger da fonte ,
em sua bacia de pedra. Os insetos zunem, estalam ,
ciciam: há uma teia de músicas a estender-se na sombra:
Do lado do mar, uma solidão imensa, e o luar nas águas.
Há uma angústia de perfumes, uma excitação romântica,
uma sensação de ternura e fatalidade, como se
esta noite fôssemos todos morrer de amor.
Mas talvez seja apenas porque o palácio tem estes
muros grossos de fortaleza, e em redor é a noite, e em
redor é o mar - e o piano canta uma espécie de melancolia
que transforma a festa numa cerimônia humana
muito pungente, sem nada do cotidiano, mas só de
memórias e desejos essenciais.
94
ESCOLA DE BEM-TE-VIS
Muita gente já não acredita que existam pássaros, a
não ser em gravuras ou empalhados nos museus - o
que é perfeitamente natural, dado o novo aspecto da
terra, que, em lugar de árvores, produz com mais abundância
blocos de cimento armado. Mas ainda há pássaros
saros, sim. Existem tantos, em redor da minha casa,
que até agora não tive (nem creio que venha a ter)
tempo de saber seus nomes, conhecer suas cores, entender
sua linguagem. Porque evidentemente os pássaros
falam. Há muitos, muitos anos, no meu primeiro livro
de inglês se lia: "Dizem que o sultão Mamude entendia
dia a linguagem dos pássaros . . . "
Quando ouço um gorjeio nestas mangueiras e ciprestes,
logo penso no sultão e nessa linguagem que ele
entendia. Fico atenta, mas nâo consigo traduzir nada,
No entanto, bem sei que os pássaros estão conversando.
O papagaio e a arara, esses aprendem o que lhes
ensinam, e falam como doutores. E há o bem-te-vi, que
fala português de nascença, mas infelizmente só diz o
seu próprio nome, decerto sem saber que assim se
chama.
Anos e anos a fio, os bem-te-vis do meu bairro nascem,
crescem, brigam, falam... - depois deixam de
ser ouvidos: não sei se caem nas panelas dos sibaritas,
se arranjam emprego, se viajam, se tiram férias, se
fazem turismo. Nâo sei.
Mas, enquanto andam por aqui, são pacientemente
instruídos por seus pais ou professores, e parece que,
tão cedo começam a voar, já vão para as aulas, ao
contrário de muitas crianças que antes de irem para
as aulas já estão voando.
Os pais e professores desses passarinhos devem ensinar - lhes
muitas coisas: a discernir um homem de uma
sombra, as sementes e frutas, os pássaros amigos e inimigos,
os gatos - ah! principalmente os gatos... Mas
essa instrução parece que é toda prática e silenciosa
quase sigilosa: uma espécie de iniciação. Quanto a
ensino oral, parece que é mesmo só: "Bem-te-vi! Bem-te-vi!",
que uns dizem com voz rouca, outros com voz
suave, e os garotinhos ainda meio hesitantes, sem
fôlego para três sílabas.
Antigamente era assim. Agora, porém, as coisas têm
mudado. Certa vez, quando pai ou professor ensinava
com a mais pura dicção: "Bem-te-vi!" - o aluno, prequiçoso,
relapso ou turbulento, respondeu apenas: "Tevi!"
Grande escândalo. Uma pausa, na verde escola
aérea. "Bem-te-vi! Bem-te-vi!", tornou o instrutor, com
uma animação que se ia tornando furiosa. Mas os maus
exemplos sâo logo seguidos. E a classe toda achou graça
naquela falta de respeito, naquela moda nova, naquela
invençâo maluca e foi um coro de "Te-vi! Te-vi! Tevi!,
que deixou o próprio eco muito desconfiado.
Essa revolução durou algum tempo. A passarinhada
vadia pulava de leste para oeste a zombar dos mais
velhos. "Bem-te-vi!", diziam estes, severos e puristas,
tentando chamá-los à razão. "Te-vi! Te-vi" , gritavam
os outros, galhofeiros, revoltosos, endoidecidos.
Passou-se o tempo necessário ao aparecimento de
uma nova geração. E então foi sensacional! Os passarinhos
mais recentes ouviam aquele fraseado clássico
dos avós: "Bem-te-vi! Bem-te-vi!" - e deviam achar
aquilo uma língua morta: o latim e o sânscrito lá deles.
Depois, ouviam a abreviatura dos pais: "Te-vi! Te-vi!"
Mas acharam muito comprido ainda. (Que trambolho ,
a famlia!) E passaram a responder, pòr muito favor ,
"Vi! Vi!" Muito mais econômico. Afinal, pelos ares
não voam mais anjos e sim aviões a jato...
"Bem-te-vi! ", exclamam os anciãos, com sua dignidade
ofendida. "Te-vi!", respondem os filhos revoltosos. E
os netos, meio chochos: "Vi! Vi!"
Quanto aos bisnetos, vamos ver o que acontecerá.
Talvez os professores mudem de método. Talvez mude
o ministro. Talvez os tempos sejam outros, e a passarinhada
volte a ser normal, ou deixe de falar, só de
pirraça, ou invente - quem sabe?, - uma expressâo
genial. E também pode ser que nâo haja mais bem-te-vis.
97
CENTENÁRIO DE OKAKURA
KAKUZO
O ano de 1962 foi rico de centenários. E nesse ano
comemorou-se o de Okakura Kakuzo, um japonês que,
entre outros estudos sobre o seu país, publicou um
delicioso livrinho simplesmente chamado: O Livro do
Chá. Não se trata apenas de uma informaçâo histórica
sobre a origem e as diferentes formas de uso da antiga
e preciosa bebida, mas de um verdadeiro compêndio de
civilidade, e de um pequeno manual de filosofia e de
estética, no que se refere às cerimônias que o Japão
criou, como um delicado rito, para o requintado prazer
de degustar uma taça de chá.
Nesta era de refrigerantes vulgares e apressados,
falar na solenidade da etiqueta do chá, na importância
da sala onde é servido, na cor e na qualidade da taça,
no conhecimento da folha empregada, na água e no
seu adequado ponto de ebulição - parece um desperdício
de palavras sobre um motivo insignificante. Ai
de nós!, que vamos perdendo a capacidade de apreciar
a sutileza das coisas, que nos vamos tornando pouco
a pouco bárbaros, por uma vasta dispersão no complexo
mundo que nos cerca. Mal sabemos parar e refletir. Mal
sabemos ver. As pequenas coisas não nos revelam mais
os seus doces segredos? Ou os nossos ouvidos endureceram
para a sua misteriosa voz?
Com Okakura Kakuzo aprendemos que o chá é uma
obra de arte e que no seu serviço há uma disciplina,
uma harmonia, um ritmo que são manifestações de
beleza exterior e interior; e que o ritual japonês que
lhe foi dedicado representava o culto da pureza e do
#requinte entre o dono da casa e os seus convidados.
Ambiente de luz discreta; a música da água a ferver
num recipiente especialmente preparado para poetizar
o som da fervura; roupas de cores suaves completam
o sentido da arquitetura do Pavilhão do Chá, cujo teto
de colmo sugere a fugacidade das, coisas, como a sua
fragilidade e leveza estão representadas pelos delicados
pilares e as traves de bambu.
Essas condições de evanescência exprimem a que o
Japão fez do chá, desde que, de antiga medicina chinesa,
se converteu em bebida repleta de símbolo, "o
culto do Imperfeito": por ser "um esforço para realizar
qualquer coisa possivel nesta coisa impossivel que
sabemos ser a vida".
Através do seu livrinho, Okakura Kakuzo nos oferece
rece a imagem de um Oriente gentil, atento a sentir a
"grandeza das pequenas coisas": essa valorizaçâo do
pormenor, que exige tranqüilidade e doçura, e que o
Ocidente vai esquecendo, assaltado por impulsos bravios
e turbulentos.
Na confusão dos dias de hoje, as páginas de O Livro
do Chá são como um último convite à harmonia do
homem consigo mesmo e com os seus semelhantes; elas
representam um ato de bondade, pelo que nos ensinam;
embora, depois da sua leitura, possamos sentir alguma
tristeza, diante do que vemos no mundo, sabendo o que
poderíamos ver.
Na sua simplicidade, este livrinho vale por muitas
obras de maior pretensão. E basta para dar imortalidade
a um autor que teve a sorte de viver o que deveria
ser o limite de bom gosto da vida humana: apenas
meio século; de modo que, ao celebrar-se o seu centenário
de nascimento, já se está a ponto de celebrar
também o meio centenário de sua morte.
99
CHEGADA DA PRIMAVERA
Não podemos andar distraídos; mas a trepadeira da
casa abandonada, de dentro do seu verde silêncio, começa
a oferecer ao dia radioso suas grandes campânulas
roxas, delicadamente modeladas e pintadas.
Também os lírios amarelos e alaranjados desenrolam
suas sedas franzidas, lentamente, cuidadosos, para que
não se rompam em nenhuma prega e encham de estrelas
perfeitas todo o jardim. De mil arbustos diferentes
vão aparecendo inflorescências coloridas e perfumosas,
que até ontem jaziam adormecidas no segredo
dos caules e das hastes e agora desabrocham em pequeninas
pálpebras multicores.
Jardins, campos, matas sabem que chega a primavera.
As obscuras raízes preparam esta festa floral:
seus negros dedos diligentes, mergulhados na umidade
do chão, catando na terra invisível os elementos criadores
dores, organizando os seus diagramas, obedecendo à
sua condição, expõem agora à luz do sol e aos olhos
humanos as sutis invençôes vegetais que nos deslumbram,
mesmo sem refletirmos no que significam e de
que maneira se realizaram.
Cada pequena flor é um reino maravilhoso, diante
do qual paramos, confusos de ignorância. Contemplamos
mos bem estes veludos e sedas que uma imperceptível
transpiração brune de transparente prata. Miremos o
desenho destas finíssimas veias, dispostas com perfeição
matemática. Pensemos nestas sutis determinações
da vida que engendra seus jogos imaginativos numa
sucessâo de números certeiros, de exato ritmo, como é
da essência de todas as coisas autênticas. A flor está
feita só de elementos indispensáveis: e parece apenas
um sonho, uma fantasia, um extravagante ornamento.
É música, por suas leis de harmonia; é poema, pela
inspiração de sua aparente estrutura. Mas em sua profundidade,
fundidade, em seus compromissos de origem é verdade,
ciência, sabedoria. Por um longo caminho vem até nós
dos abismos do Universo. É a imagem da Vida inexplicável,
a representaçâo do Nascimento.
Assim chega a primavera. Abelhas e borboletas pe·
netram esses recessos de pólen, pousam nessas coroas
de ouro, nesses lustres minúsculos, nesses pingentes
frágeis.
Uma cigarra que ia começar a cantar, deteve-se: não,
cigarra, ainda é um pouco prematuro o teu volumoso
canto. A hora é dos leves passarinhos, da diligente abelha,
da inquieta borboleta silenciosa. Cantarás no ardente
verão: que é apenas a primavera, de perfumosa
brisa.
101
101
QUERIDA MUSICA
O Brasil revoltado levantou-se e os ares se encheram de
músicas militares. Fez-se no meu coração uma grande
alegria: abriu-se um claro espaço nos olhos que um
dia foram meus e a vida recomeçou num compasso de
esperanças, que eram tâo nítidas e luminosas antes de
se desgastarem no fio contínuo, corrosivo, de longos
acontecimentos.
Ah! Sim, aquelas esperanças eram a própria felicidade
(sem esse nome, sem nome algum), quando ainda
se sabia tão pouco da vída, do mundo e das idéias, e a
existència era uma espécie de sonho que se ia descobrindo,
com a aquisição de novas perspectivas, cada
dia, como de sucessivas varandas vão sendo avistadas
as distâncias da serra até o horizonte, e do horizonte
adivinhadas até o infinito.
Nessa hora maravilhosa dos descobrimentos intervém
Pedrina, musicalmente. Em certos dias, à noitinha, as
bandas tomam assento nos coretos..Os instrumentos reluzem
e parecem enormes, enormes e de formas prodigiosas,
aos olhos inocentes das crianças. São objetos de
ouro, fantásticos: enrolados como cornucópias, uns; direitos
como espadas, outros; os músicos sabem o lugar
de cada som e, com dedos ágeis e bochechas que incham
e desincham, começam a tocar para o auditório que
passeia pela praça, que se detém sob as árvores, diante
do coreto, à beira das calçadas...
A sábia Pedrina conhece coretos, bandas, repertórios
e músicos. Tudo Ihe é tão familiar como se tivesse vivido
sempre cercada por aqueles instrumentos, conhecendo
o valor de cada um para a execução daquelas
marchas. Creio que para ela, para o seu plácido rosto,
sorriam, às vezes, os músicos de cara lustrosa, brancos,
pretos, mulatos, que também, na imaginação das crianças
não faziam nada mais em toda a vida senão tocar
as suas músicas e, uma vez ou outra, nos intervalos,
enxugar o suor, devagar, pela testa e pelo pescoço.
As crianças aprendiam aquelas músicas, que os meninos
assobiavam depois, ao longo das ruas, e as meninas
tentavam reproduzir inabilmente, soprando sobre
um pedaço de papel de seda esticado num pente. Felizes
tempos! Aqueles ritmos marcavam o andar, estavam
incorporados ao nosso pulso, comunicavam entusiasmo,
aprumo, alegria - e a vida parecia uma grande
festa, sob as vagas luzes da praça, quando todos sorriam
uns para os outros, sem motivo algum, apenas como a
indicação de uma solidariedade humana e natural.
Pedrina ensinava de ouvido as voltinhas que davam
as melodias, enroscando-se como cipós, subindo e descendo,
em graves e agudos; e fruía profundamente
aquele emaranhado de sons de que se destacava uma
frase constante, altaneira e gloriosa, como convite para
extraordinárias realizações.
As crianças iam para casa antes que as bandas se
retirassem dos coretos. E, por serem crianças e sonhadoras,
imaginavam que a noite inteira os músicos ficavam
ali, com seus instrumentos dourados, suas fardas
vistosas, de largo cinturão e que naquela pracinha
todos continuavam a passear e a sorrir, e que seria eternamente
assim.
Mas nâo foi assim eternamente. Dos coretos, das festas
da igreja, das alvoradas aos generais, foram os músicos
desaparecendo. As modas foram sendo outras. As crianças
também. As crianças antigas cresceram, estudaram
muito, perderam aquela ingenuidade que as deixava
deslumbradas diante das músicas dos coretos E Pedrina
diluiu-se entre as estrelas, com suas melodias cobertas
de sorrisos.
Eis que, de repente, o Brasil se alvoroça e os ares se
enchem daquela música de outrora e de sempre, com
suas volutas graves e agudas, sua cadência nos vai conduzindo
por um mundo admirável, onde tudo é perfeito,
onde as criaturas todas adquirem aquela bondade mansa,
aquela ternura de épocas mais amenas, quando todos
acreditávamos uns nos outros, e nos sentíamos unidos,
amigos, irmâos - e o futuro nâo era uma sombra indecisa,
mas um sol radioso à espera de nossa passagem.
Querida música a falar sem palavras, a deixar que,
com palavras nossas, a interpretemos. Querida música
saudosa e incansável, a chamar-nos para lugares felizes,
tempos felizes, a ressuscitar os que antigamente sopravam
de suas cornucópias de ouro, derramando alegrias,
e os que sorriam, extasiados, acreditando naquela proclamada
felicidade, de coração tranqüilo, num mundo
de puro amor. Querida música! Por dentro dela aparecem
velhos e crianças, namorados, conhecidos, amigos,
a pequena luz da noite, e o sonho de ir caminhando,
nesse ritmo, para longe, para muito alto, sem adeuses,
pois íamos todos juntos e nem podíamos pensar em
separações!
104
CANÇÕES DE TAGORE
Uma noite, na India, éramos quatro pessoas numa praia
absolutamente deserta, iluminada apenas pela claridade
do céu. famos andando em direção ao mar, sem sabermos
bem dos limites da areia e das águas. O som das
ondas e o pequeno arabesco branco da espuma conduziam
nossos lentos passos: e era como se fôssemos pouco
a pouco saindo deste mundo.
Foi quando Maria, minha amiga recente, que aparecia
na noite envolta em seu sári branco e azul como
uma pequena santa; Maria - minha amiga cristã que
devia casar uma semana depois, sem que eu a pudesse
ver no dia do seu casamento - perguntou-me por que
não cantávamos um pouco: a noite era bela, a solidão
profunda, e nós estávamos felizes naquele instante, como
se desde sempre nos tivéssemos conhecido e tivéssemos
sido amigos desde sempre.
(Neste lugar só de areia,
já não terra, ainda não mar,
poderíamos cantar.)
A India é um país de ritmos lentos e versos longos.
Suas extensões convidam a uma fala poética vagarosa;
mesmo quando as palavras sâo rápidas, a frase é prolongada
e sustentada; as imagens acorrem, deslumbradas;
como os grandes rios, como as árvores compactas,
a poesia indiana e a sua música têm uma densidade
interminável. Como o próprio giro da vida, não parece
haver, para elas, terminaçâo, conclusão, fim - mas
sempre e sempre continuação, encadeamento, num movimento
circular sem interrupção.
Embora sentindo tudo isso, animei-me a cantar pequenas
canções populares, coisas despretensiosas do nosso
folclore, simples amostras do nosso ritmo e da nossa
melodia.
Depois, Maria começou a cantar. Cantava em bengali,
com aquela emoção que faz parte da música oriental:
sua voz tênue, vaporosa, incorporava-se ao mar, às esttrelas.
E ali sentados na areia, longe de casas, de ruas,
de todas as presenças, íamos sendo levados pela sua
voz ao longo da noite, ao longo do céu, ao longo do
mar.
Eu tinha traduzido as minhas simples canções. Ela
traduziu-nos as suas. As suas eram de Tagore. Falavam
do amor humano e divino, e guardavam sempre nas
palavras aquela dignidade religiosa que caracteriza a
obra do poeta. Ele escreveu a letra e a música de tantas
canções, que parece impossível a riqueza criadora do
seu espírito. E essas canções circulam pela fndia toda,
de tal maneira o Poeta estava identificado com a sua
terra. Talvez muita gente nem saiba de quem é a
cançâo que está cantando, aqui e ali, na imensidão da
India. Mas todos encontram nas suas palavras a expressão
da sua vida.
Recordei tudo isto agora porque, entre as celebrações
do centenário de Tagore, ocorrido há dois anos, figura
uma edição de cem das suas cantigas, acompanhadas
da tradução inglesa e em notação ocidental. "Bendita
é a noite; bela, a natureza..." diz uma delas. E ouço
muito longe a voz de Maria
na praia do fim do mundo
que não guardará de nós
sombra nem voz.
106
TÉDIO DE COMPRAR
Eu gostava daquelas casas comerciais que tinham orgulho
da sua tradição. "Fundada em 1850..." Faziam-se
as contas: "Há quase um século, hein?" E sentia-se
certa veneraçâo por aquelas prateleiras, balcões, objetos.
Os próprios donos e os seus empregados pareciam
vir da mesma data da fundação, pelas suas maneiras
tão pacientes e corteses, pelo seu gosto de explicar aos
fregueses as qualidades e vantagens da mercadoria com
que lidavam, misturando ao seu interesse de comerciantes
um carinho de artista e de namorado. Já existiu
gente assim!
Já existiu gente assim! - e sua história sem brilho
nem estardalhaço nâo dá para uma epopéia, mas serve
para alimentar a secreta poesia das crianças que tiveram
ocasião de ver esses adultos, discretos e afáveis, que ensinavam
a admirar suas louças, seus perfumes, seus tecidos,
que estabeleciam, entre a sua pessoa e a do comprador,
uma comunicação amistosa, e até por vezes
estética e erudita, diante de um livro, de uma gravura,
de uma jóia.
Essa gente tinha um ar extremamente modesto
como ainda tem, nos lugares do mundo onde pode ser
encontrada. Não tinham pretensões de vestir nem de
se aformosear. Não eram eles que estavam em jogo,
mas os produtos da sua casa. Apagavam-se, para que
esses artigos brilhassem; e devia ser grande amargura,
na sua vida, nâo encontrarem com que seduzir o comprador exigente.
Hoje, onde se encontram, por aqui, as casas tradicionais?
Onde está o chapeleiro que tire com um gancho,
lá do alto, lá de cima, a caixa onde vai aparecer o mais
belo chapéu do mundo? Onde está o livreiro que possa
dar um pequeno curso de literatura para recomendar ao
cliente o autor que Ihe convém? Onde está o vendedor
de cristais extasiado com a transparência de seus copos,
com a esbelta linha de suas compoteiras e fruteiras?
Agora as lojas duram o tempo de uma pequena aventura.
Até as ruas se tornam desconhecidas por essa incansável
mudança das casas comerciais. Que se encontra,
nas lojas? Nunca o que se procura. As vitrines são chamarizes
de coisas inexistentes. O que ali se exibe já está
vendido, não há outro igual nem parecido, talvez se
receba na semana que vem, mas não é certo... Os jovens
vendedores estão preocupadíssimos com o seu
clube, e desejam ardentemente que não apareça nenhum
freguês importuno que interrompa a sua conversa com
o companheiro. As jovens vendedoras estão preocupadíssimas
com seus cabelos, com suas unhas, com seus
amores, e nunca entendem a linguagem de quem fala.
"A senhorita não terá isto mesmo em azul?" "Devo
ter..." E cantarolando vai buscar displicente uma coisa
que além de ser outra é amarela.
Que tédio, comprar! Que aborrecimento!
108
DA GULA BEM TEMPERADA
As pessoas que, por qualquer motivo, se encontrarem
em severo regime alimentar, devem procurar ler velhos
livros de culinária para se distraírem com as apoquentações
das complicadas receitas de outros tempos. A
lista dos ingredientes já nos deixa pensativos, comparada
às restrições de hoje, e às peculiares restrições de
cada um. Fica-se, depois, sem saber de onde sairiam os
artistas capazes da execuçâo de pratos tão difíceis. E,
finalmente, ocorre-nos a pergunta: como podiam os convivas
desses banquetes sobreviver a tão tremendas provas?
É certo que neste livro que vou folheando já encotro
esta observaçâo (não direi poética, mas rimada):
"Bolos podres e d'ovos massapões, / Perdoa-se até
trinta indigestões."
Este é o Cozinheiro Imperial, não muito antigo, pois
apareceu em 1840, e muíto apreciado, pois em 1890
alcançava a décima primeira ediçâo, o que, para o seu
tempo, era bem significativo. E o que entâo se entendia
por um banquete, com tantas sopas e perdigotos e pombos
e patos, vitelas e cabritos, empadas e perus, lombos,
salpicões e coelhos, perdizes e tutanos, deve deixar estarrecidos
e humilhados os glutões de hoje, sem falar
nos manjares, tortinhas, bolinhos, pastéis, melindres e
biscoitos com que terminavam essas festivas reuniões em
redor das imponentes mesas.
O autor (que se escondeu sob trés iniciais), além da
arte da cozinha - talvez até mais difícil... -, tinha
suas inclinações para a arte literária; de modo que, com
alternativas de inspiração, entremeava suas receitas de
conselhos ou observações em verso, que deviam divertir
imensamente os nossos bons avós, ainda isentos destas
grandes tensões que ora devastam o mundo. Assim, depois
de ensinar a preparar um doce de flor de laranja,
o autor recomenda que o deixem esfriar e o sirvam
"Na primeira ocasião / Que apareça um golotão"! Seu
vocabulário seria muito apreciado pelos realistas de hoje:
"As Argolinhas d'amêndoas, / Dos grãos as Empadinhas,
/ Os gostosos Esquecidos, / São às tripas mararavilhas.
" Mas às vezes o autor se faz muito galante, e
diz, ao falar de uns bolinhos chamados "raivas": "São
raivas, sim, porém que nos dão gosto, / Quando por
mãos d'anéis é seu composto." (Pode não ser muito
claro, mas é compreensível. E os poetas, sobretudo os
(culinários, devem ser adivinhados e subentendidos...)
Gosta igualmente de trocadilhos, quase no estilo dos
concretistas, pois, ao falar do doce "fartes", diz isto:
"Tanlos comas que te fartes, / E sem ser cousa de espantos,
/ De fartes farta a barriga, / Festeja a festa
dos santos."
Mas essas delicadezas rimadas (salvo erro no folhear
o livro) o autor as associava às sobremesas, que talvez
lhe parecessem a parte mais poética dos banquetes.
Havia, porém, invenções diversas, tão longas de executar
que se imaginaria um mundo especial, só de cozinheiros
limpando, aparando, temperando, refogando,
assando, fritando, cozinhando, dentro de enormes labaredas
ou sobre adormecidas brasas todas as espécies de
alimentos que se encontram, com maior ou menor facilidade,
ao alcance dos homens. Mas uma das receitas que
mais me impressionaram foi o "Guisado particularíssimo",
que começa numa azeitona e acaba num pavão.
Recheia-se a azeitona com alcaparras e anchova, e com
ela se recheia um passarinho. Com ele se recheia uma
cotovia, com a cotovia um tordo e com este uma codorniz.
Assim se vai continuando, a codorniz num pardal,
o pardal num perdigão, depois uma galinhola, uma franga,
um pato, um faisão, um ganso, e, por fim, um
pavão. Os vazios são recheados com cogumelos, tudo
é cozido numa caçarola com muitos temperos, e leva
essa mistura, ao fogo, nada menos de vinte e quatro
horas. O maravilhoso seria que, posto o prato na mesa,
ou na bandeja do copeiro, começassem as pobres aves
a ressuscitar, uma após outra, e voassem e cantassem
segundo a sua condição. Mas a receita não fala nisso.
O prato era mesmo para comer. E não sei como seria
trinchado. Tem-se a impressão de que o autor estaria
familiarizado com essas engenhosas esculturas de marfim
que se fazem no Oriente, e que saem uma de dentro
das outras, como, nas Mil e Uma Noites, e em outras
coleções orientais, as histórias também vão sendo
geradas umas das outras, numa interminável sucessão.
O autor ensinava também a fazer refrescos e sorvetes
e é com uma dessas receitas que termina o livro, fechando-o
com dois versinhos gentis: "Meigo e doce, aqui
dou meu fim, / Chorai, golosos, que gostais de mim!"
Nós, os não golosos, sorriremos, despedindo-nos do
"meigo e doce" livro. Que pensaria o autor, se visse os
netos dos seus velhos leitores comendo sanduíches e
cachorros-quentes?
111
OS SALTIMBANCOS
"Desde que os saltimbancos entraram na nossa aldeia"
disse-me a triste mulher, "não nos entendemos mais. As
crianças foram as primeiras seduzidas: não querem
mais saber de escolas nem de livros, puseram-se a rodar
em torno daqueles carros, todas querem agora subir
por cima de cadeiras e mesas, trepar em mastros,
fazer mágicas com as mãos e andar na companhia de
ursos e macacos.
"Os rapazes e as moças, que trabalhavam com atenção
e se divertiam com muita gentileza, não querem
saber de uma coisa nem de oútra: acham melhor a
aventura, querem subir por trampolins, dizem que se
ganhá muito mais dinheiro com essas facilidades, e
acham que a vida não tem sentido nenhum, e que a
felicidade é ganhar e gastar dinheiro apenas. Nem há
mais namorados, o casamento - dizem eles - é um
costume fora da moda; o lar é uma trabalheira sem
fim. Todos aderiram aos saltimbancos, querem dormir
em tendas, debaixo de toldos, em cima de qualquer
pedra ou de um saco de palha: qualquer coisa que não
se precise limpar nem cuidar. Querem dormir todos
juntos, em promiscuidade (acham que é fraternidade),
sentem-se muito bem na imundície e já nem
catam os piolhos, porque isso é uma grande maçada.
"Os homens maduros, que deviam ter mais juízo, coçam
a orelha, perturbados. Eles não querem que os
mais moços tomem a dianteira, nem estão dispostos a
trabalhar pelos que agora querem ser palhaços. Não é
que eu concorde: mas lá do seu ponto de vista, acho
#que tém razão. Porque os filhos, que se fizeram assim
marotos, quando lhes aperta a fome ou a canseira, aparecem
pela casa, e, como se fossem eles os seus verdadeiros
donos, põem-se a fazer contas assim: "Ó pai ,
aquele seu relógio dava uns bons cobres... aquela
mala, aquela prateleira, aquela cômoda..." Reduzem
tudo a dinheiro, como num leilão. E diante daquele
inventário, os mais velhos ficam com a pulga atrás
da orelha, vendo que, ainda vivos, já estão assistindo
às partilhas que se costumam fazer depois da morte.
Pois entâo é melhor fazer de morto, e não trabalhar
mais.
"Agora os velhos, sabendo que vão morrer daqui
a pouco, crêem mais divertido contemplar o espetáculo,
embora um ou outro lamente que os seus filhos e netos
achassem melhor ser saltimbancos do que ter um ofício
mais útil e mais honrado. Mas os filhos e os netos
vão embromando os velhos: `Não pense assim, vovozinho;
agora, os tempos são outros; ganha-se muito
mais equilibrando um prato no nariz que martelando
o metal para fazer o prato!' O avô fica meio triste,
porque a nossa aldeia fazia os mais belos pratos do
mundo. E pergunta: "Tu também fazes dessas pelotiquices?"
O neto responde: "Eu não: eu falo para o povo."
"E que dizes?" "Conto mentiras. Quanto mais impossíveis
as mentiras, mais o povo gosta. Riem-se como loucos,
batem com os pés, uivam... Gostam muito, mesmo. Se
me pudessem pôr as mãos em cima, destroçavam-me
com beijos e abraços!".
"As vezes, algum avozinho diz:" "Como está diferente
a aldeia! Éramos tão sérios, tão bons! Como foi que
mudamos tanto?" Depois é que se lembra: foram os saltimbancos!
Os saltimbancos começaram fazendo algumas
graças. Depois, tomaram conta da aldeia. Agora
que já ninguém quer trabalhar, como irão viver? De
pilhagem? É preciso enxotar os saltimbancos, dizem os
velhotes.
"Mas os rapazes e as crianças estão fazendo barricadas
para os saltimbancos nâo deixarem a aldeia"
disse-me a triste mulher, sentada à porta da sua triste
casa.
114
JARDINS
Não posso esquecer os jardins da India: o do palácio
do governo, o da casa de Nehru, o do Hyderabad Palace,
onde moravam os visitantes oficiais. Desenhos de
canteiros entrelaçados de pequenos canais, jorros d'água,
flores nunca vistas no Ocidente, trepadeiras perfumosas
por cima dos muros, lagos com lótus: um primoroso
mundo de cores de que são pálidos retratos os mais
deslumbrantes tapetes. E os jardins públicos, tão freqüentados
pelas famílias, com as crianças extasiadas
diante de flores tão minuciosamente inventadas, e de
pássaros mansos, que nâo receiam nenhuma agres-
são, e não abandonam os seus lugares quando alguém
aparece.
Nâo posso esquecer também as flores extraordinárias
da Holanda, de cores imprevistas, de inesperado tamanho,
e que estão sempre às janelas, sob o ângulo das
cortinas cruzadas, como estão até nas repartições públicas
e em certas vitrines, compondo quadros surpreendentes:
quem pode esperar que um açougueiro exponha
uma peça de carne colocando-a, com grande sensibilidade
artística, ao lado de um vaso de flores revoltas,
que logo nos fazem pensar em Van Gogh?
Na Holanda, como no Oriente, há quem saiba verdadeiramente
amar as flores. Em algumas cidades, as paredes
que margeiam os canais têm espaços para flores:
por lá ficaram muitas vezes meus olhos, encantados
com essa delicadeza, esse amor, esse respeito. Alguém
ousará jamais tocar nas pequenas flores dos canais da
Holanda?
Muita gente prefere, nos Estados Unidos, as grandes
cidades, com suas construções gigantescas, o cimento e
o aço sustentando a imponência de arranha-céus e pontes,
na orgulhosa demonstração do que o homem é capaz
de construir. Mas, nas cidades menores, há milhares
de jardins deliciosos, com as mais variadas flores e
ainda as experiências de flores novas de que as pessoas
se ocupam com o maior carinho.
Os jardins do Rio vão tristemente desaparecendo. As
casas que os possuíam vão sendo substituídas por outras
construções e cada palmo de terreno anda tão valorizado
que é difícil encontrar quem o defenda para
domicílio de uma planta. Assim, quem amar flores venha
contemplar nas vitrines das lojas essas frágeis maravilhas
que brilham tão poucos dias mas. nos causam alegrias
imortais. E não moram apenas nos olhos tais alegrias,
mas na memória profunda, de onde às vezes
assomam, com a cor, o perfume, a graça que lhes pertenceram.
A sensação de beleza, o sentimento de perfeição
que residem na harmoniosa arquitetura das flores
são lições para a vida humana. Pudéssemos ser também
assim, tão exatos como as flores em suas nétalas. tão
silenciosos na realização de um destino impecável, e
tão prontos para morrer no momento justo! Pudéssemos
nós dispor dessa capacidade de comunicação tranqüila,
desse dom de mensagem sobrenatural que as flores possuem
e que nos arrebatam deste mundo superficial e
nos transferem para lugares mais distantes, mais altos,
de onde avistamos tantas paisagens humanas e divinas!
Tudo isso me ocorre porque estou diante de uma
flor. De uma simples flor, fiel à sua genealogia, à sua
linguagem, ao seu prazo de vida. O momento da sua
duração tem muitas profundidades: túneis que me levam
para muitos lugares, muitas pessoas, em tempos diferentes.
Enquanto admiro a flor solitária, e justamente
a posso admirar melhor pela sua sólidão, vem-me à
lembrança a histôria do japonês que cultivava crisântemos.
(Isso foi num jardim do passado, um jardim
muito longe, cuja realidade já se converteu em símbolo.)
Estava o jardim cheio de crisântemos, de tal maneira
cheio de crisântemos, que um homem da corte,
ao vê-lo, cai em deslumbramento, e avisa o jardineiro
de que vai trazer o próprio Imperador para admirar
as suas flores.
Vem, pois, o Imperador admirar os crisântemos de
um jardim. Lamento não poder descrever a sua chegada,
com o seu séquito, com todo o belo cerimonial que
deve cercar um Imperador que, ao invés de pensar em
batalhas, guerras, sangue, majestosamente se dirige para
esse jardim de cujas flores teve notícia. Imaginem os
senhores tudo isso, e a curiosidade dos que o rodeiam,
e o antecipado prazer desse instante de beleza que cada
um deseja e adivinha.
Mas o jardineiro pensou que aquela profusão de flores
era excessiva, e impediria a visão exata da beleza
de cada uma. E tranqüilamente foi cortando as menos
perfeitas, e deixou uma única, a mais bela, a mais
digna de ser admirada pelo seu Imperador.
Assim estou (guardadas todas as distâncias), diante
da minha flor solitária, que resume, na sua simples presença,
muitos ramos, muitos jardins, muitos campos floridos.
E contemplo-a com muito amor, porque amanhã
certamente já teremos outro rosto; e ela não sabe, mas
eu sei o que é, sobre qualquer rosto, a passagem de
cada dia.
117
O TEMPO E OS RELÓGIOS
Creia-se ou não, todo o mundo sente que o tempo passa.
Não precisamos olhar para o espelho nem para nenhum
relógio: o tempo está em nosso coração, e ouve-se; o
tempo está em nosso pensamento, e lembra-se. "Vou
matando o tempo, enquanto o tempo não me mata"
respondia-me na India um grande homem meu amigo,
cada vez que Ihe perguntava como ia passando. E aquele
menino Amal, da deliciosa peça de Tagore, imaginava
que o guarda é que fazia as horas, quando batia no
gongo: que quando o gongo soava a hora aparecia.
Em todo caso, esses são os tempos grandes. O tempo
pequeno é o dos nossos relógios. Esses altos relógios
que em todo o mundo batem as horas, inteiras e partidas
em metades e quartos, sâo uma voz de alerta, um aviso
inquietante mesmo para as simples coisas de cada dia:
o horário de trabalho, dos transportes, dos múltiplos
compromissos humanos. Para os estudantes que preparam
exames, para os doentes que não sabem mais de
quanto tempo ainda dispôem, a música dessas torres
deve ser uma angíistia ainda maior. A própria voz das
esperanças e dos adeuses.
Agora pode-se ouvir o tempo anunciado até minuto
a minuto, o que é muito cômodo para acertar relógios.
O inconveniente é saber-se quantos anúncios comerciais
podem caber num minuto, quantas palavras podem ser
pronunciadas em tão curto tempo, e enfim o automatismo
de que ficaria possuído o homem-relógio se tivesse
de ficar toda a vida nessa função.
Felizmente, nem todos que pensam no tempo se lembram
do relógio, e, por estranho que pareça, nem todos
que pensam no relógio cuidam do tempo.
O moço perguntou-me: "A senhora esteve em Brasília?"
Apenas porque o vidro do meu relógio estava
nublado como um céu de chuva. Mas não, era poeira do
Rio. Enquanto esperava pela limpeza, observei os vários
problemas de outros relógios.
"Isto é uma peça muito fina, de estimação" - dizia
um senhor cuidadoso. "Acontece gue eu tenho este relógio"
(e exibia o que levava no bolso), "que também
é uma peça muito fina, igualmente de estimação. Por
isso, não uso o outro. Mas trato muito bem dele. Dou-lhe
corda todos os dias, como se o usasse. De três em
três meses, faço uma verificação." O moço deve ter
ficado comovido com essa história. Porque é um caso
de amor, e um caso em que, por amor, o homem se
converte em relógio do relógio.
Havia casos banais: mocinhas que perderam a péxola
do relógio; outras que trocam a pulseira porque a
moda é outra - nesses casos o tempo não tem nada
com o relógio nem as donas sabem muito bem se o relógio
serve para marcar o tempo. Dentro do mesmo
grupo estava o casal de caboclos descontente com o relógio
da sala de jantar. Casal progressista, que descrevia
a mobília nova e se alongava nas razôes pelas quais
aquele relógio escuro parecia feioso com os móveis
claros que acabava de adquirir. A esses só interessava,
na verdade, a caixa do relógio. (Pensei numa empregada
de outrora, que se guiava pelo céu, e um dia, chegando
tarde ao serviço, pediu-me muitas desculpas:
"Hoje, a estrela me enganou...")
Duas velhinhas levaxam para consertar o relógio tradicional:
"Tem mais de cem anos" - dizia uma. "Ora ,
muito mais!" - acrescentava a outra. E explicavam ao
moço: "Imagine o senhor que nossos avós ainda eram
vivos!" E uma esclarecia: "Na fazenda! Nós vínhamos
fazenda de café!"
Depois, havia a senhora inconsolável, que ganhou de
presente o seu bonito relbgio de ouro. Tão bonito, todo
enfeitado. Andou dois dias --- e parou. Ali estava na
palma da sua mão, como um passarinho morto. E ela
quase em lágrimas, esperando, confiando no moço
com aqueles ares de médico, assim de uniforme branco,
assim de olhos penetrantes -, pedindo-lhe a ressurreição
do relogiozinho...
Finalmente, houve o jovem marujo nacional, todo engomado,
com a sua brilhantina e o seu dente de ouro,
aguardando que acabassem as queixas do desportista,
muito zangado, porque o seu relógio à prova d'água
entrou pela piscina - e pronto! -, não funcionou mais.
Dava socos na tampa, levava a máquina ao ouvido.
"Veja! escute! não anda! não presta.. " O moço explicou
tudo, etc., e então o marujo com toda a delicadeza,
toda a graça e exatidão de uma natureza sensível,
disse baixinho: "Este meu relógio está ntrasando meio
minuto em vinte e quatro horas."
Ora, esse sabia o que era o tempo, levava o tempo no
seu relógio. Devia saber das estrelas que às vezes enganam,
do mundo que engana sempre, e da vida que não
engana jamais.
120
ARAGEM DO ORIENTE
Estes dias de canícula trazem-me à lembrança os meses
passados na fndia, com o termômetro ainda mais
alto que o nosso e nenhuma promessa de chuva antes
da estaçâo própria. Em alguns lugares, a paisagem tornara-se
de um cinzento esbranquiçado - ossos, cal,
cinza. O peso do sol era o peso do céu. Diziam-me:
"Quando chover, fica tudo verde."
Mas o indiano tem o prazer do ar livre. Os belos
jardins públicos estão sempre povoados de famílias que
espairecem, passeiam, contemplam as árvores, admiram
as flores, maravilham-se com os jorros d'água, os lagos,
a sombra, as cores. . . Ao ar livre trabalha muita gente:
barbeiros, costureiros, latoeiros... Ao ar livre fabricasse
e vende-se, brinca-se, estuda-se, medita-se.
As casas foram pensadas para um clima assim. Os
aposentos muito altos são rasgados por amplas janelas,
grandes portas, e por cima delas, quase junto ao teto,
ainda se vêem aberturas que facilitam a ventilação.
Portas e janelas são para estarem abertas, no verão,
protegidas às vezes por leves cortinas, ou por esteiras
que é costume molhar para favorecer a frescura do
ambiente. Há palhas perfumosas, que, molhadas, recentem.
Fazem-se também quiosques de palha trançada,
em alguns lugares e nas casas modernas existem,
naturalmente, grandes ventiladores suspensos do teto.
O resto sâo varandas, cortinas que se levantam à menor
brisa, e repuxos: ar e água, que com o rumor de seus
jogos consolam e refrescam.
Por outro lado, a vida indiana é simples e plácida. A
comida, leve, quase sempre reduzida a legumes e arroz,
um pouco de peixe ou de ave. Muitas frutas: as mesmas
frutas brasileiras que nos d.ão a impressão de não termos
saído da terra: caju, manga, cocos, tamarindo,
goiaba... E, finalmente, leite, coalhadas, queijinhos moles, creme.
Como o sol, a certas horas, é insuportável, há trabalhos
que começam muito cedo, no campo; e nas horas
mais quentes do dia um grande sossego de sesta envolve
a natureza e as criaturas, pxincipalmente nos lugares
pequenos, onde a vida é menos intensa.
A vestimenta típica dos indianos, homens e mulheres,
além de sua grande beleza, é a mais inteligente
que se possa usar também no verâo. O sári é um longo
pano (que pode ir de simples tecido de algodão à seda,
e à gaze mais primorosamente ornamentada) com que
a mulher indiana faz, rapidamente, uma elegante saia,
sem costura nem qualquer espécie de prendedores, ajustando-o
ao corpo, pregueando-o, fixando-o ao cós da
anágua, deixando uma ponta solta, como écharpe, que
pode cobrir a cabeça ou envolver ombros e busto, por
cima da blusa.
O vestuário tradicional dos homens é aquele que
Ghandi tornou conhecido no Ocidente: um sistema de
panos brancos e flutuantes, formando calções amplos
e manta para as costas. Nem todos os homens se vestem
assim, nem em todas as circunstâncias, mas os que
sabem trazer esse tipo de indumentária imprimem à
paisagem indiana uma nota de inesquecível autenticidade.
Sandálias recortadas de variados modos completam
esse guarda-roupa. E só de olhar para as vestes de
qualquer pessoa, para esses tecidos tão sensíveis que
se franzem à menor brisa, pode-se ver se há calmaria ou
se algum vento se esboça.
Como os indianos são normalmente abstêmios, mesmo
em ocasiões de festa as bebidas, de suco de frutas,
são verdadeiramente refrescantes. E as mais belas recepções
são, sem dúvida, ao ar livre, nos jardins, entre
as árvores, às vezes com tendas graciosas armadas, para
facilitarem o serviço. Quando o jardim é o do palácio
presidencial, todo recortado de canteiros entremeados
dágua, com repuxos inúmeros, e todo bordado de flores
como um tapete, e quando a festa é uma data nacional,
não há salão que se possa igualar a esse ambiente
de flores, águas irisadas, bebidas perfumosas e
coloridas, e o fulgor das roupas orientais, de tons intensos e límpidos.
À noite, dorme-se nos terraços, nos jardins, nas varandas,
na rua. Uns dormem pelo chão, em esteiras,
outros nessas camas de vento (na verdade, de vento.. .)
sem colchão, apenas com um trançado de cadarços em
lugar do estrado. Os estrangeiros pensam que se dorme
na rua só por pobreza, mas não é bem verdade. Há
quem transporte sua cama para o lado de fora da casa
a fim de aproveitar a fresca da noite para o repouso.
E pergunto-me se haverá muitos lugares, hoje, no mundo,
em que um mortal possa dormir tranqüilo ao ar
livre, sem que outro mortal lhe venha tirar pelo menos
lençol ou o travesseiro.
123
FLORES DA CAÇULINHA
Caçulinha, Caçulinha, recorda o tempo das flores, quando
flores eram também os teus olhos, ainda mal recebendo
as visões do mundo. Tempo da capa de fustão,
com seu capuz, tudo aveludado por dentro, do colo
morno da babá Pedrina, da subida da ladeira, rente
ao muro. O grande luar que tornava a noite muito mais
bela que o dia, com o enorme silêncio sobre as casas
fechadas. A brancura pelos telhados, pelas paredes, pelas
calçadas. Uma grande brancura que a janela deitava
no assoalho e querias apanhar cozz as duas mãos, supondo
poderes levantar como um guardanapo.
Ah! Caçulinha, como a noite é bela para a infância,
com grandes campânulas brancas soando perfume por
cima dos muros, com os jasmineiros abrindo estrelas
na terra, estrelas sem brilho, diferentes daquelas altas,
na noite deslumbrante! E adormecer com uma flor na
mão, sob a alvura do cortinado, com os mosquitos tocando
seus violinos imperceptíveis.
Mais tarde, as flores da laranjeira perfumando as canções
de roda; o aroma que vem das plantas como a sua
respiração noturna; o ar delicado preparando sonhos.
Caçulinha, como a infância pode ser bela!
E as flores efêmeras das trepadeiras! as que desejaríamos
conservar e logo fenecem... Cachos olorosos,
e a beleza dos brincos-de-rainha com seu pingente amarelo
carregado de pólen... A sombra das goiabeiras,
precária sombra, mas com a flor estrelada que as abelhas
procuram com avidez. Tudo tão longe, Caçulinha,
no tempo, mas tudo tão absolutamente perto na memória
do, coração!
E as flores das chácaras! O chacareiro a avisar: "Olhe
a lama nos pés, vá pelo outro lado! ", e depois do cheiro
alegre das couves e alfaces, daquela alegria da terra
molhada, num recanto discreto, os vasos de cravos com
suas antenas recurvas, com suas beiras de seda recortadas,
com seu perfume ardente. Que mundo maravilhoso,
rente ao chão, longe do movimento geral. . . E os
relógios amarelos dos girassóis, enormes, enormes, levantados
da terra, marcando o tempo sem ponteiros!
As cravinas para serem descobertas uma por uma,
cada qual com sua cor, seu desenho, seu recorte, tão
delicadamente inventadas, e sem ninguém lhes dar maior
importância. Achavam-nas, talvez, pobres, vestidas de
chita de minúsculos padrões - e tu, Caçulinha, ficavas
perdida, a amar uma por uma, sentindo a sua delicadeza
humilde, obscura, discreta e, no entanto, maravilhosa
aos teus olhos novos, que apenas começavam a
descobrir esse mundo vegetal!
E as perpétuas tristes, e as sempre-vivas em sua palha
dourada coroando o suntuoso centro de veludo. Que
fizeram de tudo isso? Desapareceram os jardins. As
chácaras tiveram de ir para longe. Quem usa rama-
lhetes no peito? Ninguém se lembra das flores pequeninas...
famos descobrir as violetas, Caçulinha, as
mornas violetas carregadas de aroma, sob as folhas redondas...
famos procurar os miosótis, com seus olhinhos
azuis refletindo nos negros canteiros a altura deliciosa
do céu. . . Cada amor-perfeito era uma noite roxa
com janelas de cores por onde descobrias o que elas
mostravam ou o que ias inventando...
Não sabíamos os nomes das rosas... Por sua forma,
por sua cor, por suas pétalas preferíamos esta ou aquela.
Aquela rosada e quase esférica, fácil de despetalar, por
que deste o nome de Eponina, Caçulinha? Parecia-se
com alguma pessoa desse nome! Tinhas medo de que
não chegasse à escola ou à igreja. Querias a vermelha
escura, que se abria quase rasa, mas parecia firme, durável;
pedias folhinhas verdes para cercá-la, quando
não armavas teu pequenino buquê de violetas, tímido
mas fácil de usar, e entregavas à professora, que o colocava
ao peito ou à cintura. Por amor à professora, Caçulinha?
por amor às flores? Tão feliz te sentias! e
recordo-te para ter agora também um momento feliz!
E ias com tuas rosas para a igreja, cuidadosamente,
para que não se desfolhassem... Acreditas apenas nas
grandes dálias esféricas, firmes, pomposas. Ah! tantas
flores nos altares, que as tuas apenas ficavam num recanto:
não davam para ornamentar...
Saudade daquelas flores! Os tempos são outros, Caçulinha!
Tudo é grande, ornamental, vistoso - perdeu-se
aquela delicadeza de amar. Os jardins morreram.
As trepadeiras foram arrancadas. Ninguém se deleita
com as árvores floridas, com o aroma das noites, com
a nervura, a cor, a forma de uma pétala. Mas eu penso
em ti, Caçulinha, continuo em ti. Levo comigo essa alegria
total que viveste, tocando, observando, respirando
flores. Quero-as em redor de mim, vivas, quase humanas,
plantadas ou colhidas. Não motivos ornamentais
(há tantos outros! ) : uma companhia silenciosa que não
me vê (nâo me verá?), mas que talvez possa saber que
desejo não as ver mortas, que as contemplo com pena
da sua brevidade e todo o meu amor. O meu e o teu,
tão antigo mas tão permanente, Caçulinha!
126
O ESTRANHO FESTIM
A data era importante para alguns, e resolveram festejá-la,
como é o mais usual, com grandes excessos de
comida e bebida. (Não adianta que os homens ascendam
na sua condiçâo social: existe sempre, na maioria deles,
uma profunda atraçâo pelas coisas elementares.)
Estudou-se com vagar o que poderia ser mais sensacional,
e, como os produtos da terra não bastassem, optou-se
pela importação de produtos exóticos.
Organizou-se uma reunião, como para resolver um
grave problema de Estado, e não faltou ninguém, como
nesses casos sói acontecer. Ao contrário, alguns dos
convocados até levaram assessores, pessoas entendidas
em banquetes, especialistas em cardápios, acepipes, iguarias,
sem falar, naturalmente, em bebidas, que deviam
também ser escolhidas com superior inteligência e requintado
bom gosto.
Toda essa gente, de lápis na mâo, como num congresso
internacional, apresentou suas idéias. E as idéias,
nesse setor, como se sabe, costumam ser mais abundantes.
E defendidas com fabuloso entusiasmo.
Os apaixonados por esta bela terra brasileira apresentavam
pontos de vista muito positivos: uns queriam
antas flechadas e moqueadas, cutias, pacas e tatus, peixes
do mar e dos rios, bolos de mandioca, mel selvagem,
doces de abóbora e de laranja-da-terra... Não
chegavam a falar em cauim, mas sugeriam bebidas de
abacaxi, guaraná e caju, muito apreciadas e verdadeiramente
originais.
Mas os internacionalistas falavam de timbales, consomês,
cremes, valorizavam a teminologia francesa e
não só a terminologia, mas o próprio material. Dissertavam
sobre glacês, pralinas, vinhos, queijos - e as
civilizadas frutas: o morango e a cereja, a ameixa e o
pêssego, regados por marasquino e conhaque.
Havia concessões: podia-se compor um banquete variado,
e com imprevistos nomes. Ao lado de Coquilles
St.-Jacques não ficava mal Cutia à Villegaignon ou Tatu
à Jean de Bolès. Ficava até muito bem!
Fez-se uma lista do imprescindível: aspargos, cogumelos,
trufas... E havia o caviar! É verdade! E assim
foram encomendadas para os quatro cantos do mundo
as coisas mais raras, ou mais saborosas, ou mais elegantes,
ostras e nozes, passas e queijos, azeitonas e
arenques, e houve até quem se lembrasse dos "ovos
velhos" da China, que ficam enterrados não sei quantos
anos, e depois se apresentam como uma porcelana,
um esmalte, uma pedra preciosa.
A lista era desmedida, mas contentava a todos. Além
disso era tanto o dinheiro que ninguém pensava em
despesas; e a perspectiva de saborear tantas coisas enchia
de júbilo, antecipadamente, os estômagos e os
corações.
Em breve, começaram a chegar caixas e caixotes, dos
quatro cantos do mundo. Os despenseiros redobravam
seus esforços para acomodar tantas coisas, muitas das
quais desconheciam, e morriam de curiosidade por abrir
logo aquelas madeiras e papelões, repletos de mistério.
Designou-se um intendente para dirigir aquela arrumação,
pessoa até de certa cultura, com um livro de versos
publicado na mocidade, conhecedor de vários idiomas,
um pouco pela rama, é certo, mas que dava para entender
os dizeres das encomendas.
Na véspera da festa - como tinha sido tudo tão
bem organizado - chegaram ainda sobremesas delicadíssimas,
sublimes invençôes de lugares privilegiados.
E armou-se a mesa do festim. E os convidados, cada
um na sua casa, punham as suas melhores roupas para
o grande acontecimento. Tal era a fama do banquete
que, forçando as formalidades, apareceram senhoras
e cavalheiros cujo cartâo de convite eram os ricos adereços
e os insinuantes sorrisos. E todos queriam ver a
mesa posta (um monumento!) - e extasiavam-se diante
das pirâmides de doces e frutas, e arriscavam provar
alguma daquelas maravilhas realizadas em distantes
conventos... E endoideciam ao ver as cerejas e os morangos
da Holanda, os queijos franceses, as passas e nozes
de Portugal, os ovos da China, e todas as demais
variedades dispostas entre cintilantes cristais e pratas.
Assim se foi despojando a imponente mesa. Antes
de aparecerem os assados triunfais cujo aroma começava
a anunciar-se, já desaparecera metade do que se
dispusera na mesa. Desmoronaram-se as pirâmides de
frutas e doces, desmancharam-se os alfenins, desenovelaram-se
os fios de ovos, as tâmaras rolaram pela toalha,
e houve damas e cavalheiros que encheram os bolsos e
as bolsas de iguarias, novidades, curiosidades, recordações
da mais bela festa do ano. Pisava-se em ovinhos
de amêndoa, escorregava-se em ameixas esmagadas. E
o princípio do banquete já parecia o fim. Mas bebeu-se
de tudo, comeu-se sem vontade, só para não deixar
de provar um pouco de cada coisa - coisas vindas
de tâo longe, e que é preciso viajar, para conhecer. Os
intrusos faziam gestos extremamente delicados para justificarem
sua presença - quase um favor, para aquela
festa. Os verdadeiros convidados já não davam por
isso, pois tinham misturado todos os vinhos, querendo
experimentar cada um deles, e já se sentiam arrebatados
pelo espaço, confundindo a lua com os queijos e
as estrelas com bagos de uva.
Depois da festa todos tentaram levar consigo o que
sobrara (não era muito) como recordação sentimental.
Mas houve desentendimentos, e os despenseiros e o intendente
acharam que também deviam defender a sua
parte, nestes tempos de justiça social.
129
A COR DA INVEJA
Não, não falarei do soneto de Rimbaud e das cores
atribuídas às vogais. Isso todo o mundo conhece.
Também não falarei da cor do gosto, que o Dr. Octacílio
Lopes brilhantemente investigou, em recente estudo.
Há pessoas que não acreditam em sonhos coloridos:
mas existem.
Enfim, estamos vivendo tempos verdadeiramente
pictóricos, visuais, e a nossa cabeça cada vez mais se
assemelha a um caleidoscópio.
A nossa linguagem cotidiana está cheia de cores: sabemos
o que significa estar "tudo azul". Antigamente,
havia "ouro sobre azul", mas depois o ouro acabou: estamos
mais moderados, pelos menos na linguagem.
Que a cólera seja rubra ou purpúrea, não se discute,
e, em tempos muito românticos, que o amor fosse pálido,
são coisas que a fisiologia explica, e, antes mesmo
que ela explique, logo se vê.
A saudade é roxa, sem dúvida nenhuma. Não é a flor
que colore o sentimento: deve ser o contrário. "a um
cortinado roxo / em redor do coração", diz uma
cantiga.
E a esperança deve ser verde, como se aprende na
bandeira nacional, compêndio de cores belas: verde dos
campos, das searas (ai de nós!), das ricas matas (quando
não passam por elas os incendiários clandestinos).
Pois eu tenho uma querida amiga que, lá de longe;
saudosa destes lugares, que se lhe afiguram o verdadeiro
Paraíso, assina freqüentemente: "verde de inveja".
Hoje estou preocupada com essa cor da inveja. Não
deve ser o belo verde da esperança, a cor da inveja.
Deve ser um verde hepático, bilioso, um verde turvo,
com certos indícios de podridão. Vou procurar observar.
Mas desde logo ocorre-me que não deve haver apenas
uma inveja, mas inúmeras e todas diferentes, como
não há na verdade um único sentimento de amor, nem
a cólera é sempre da mesma qualidade. Como foi que
até hoje não prestei atenção a isso? Pois tenho ouvido
dizer que este século é riquíssimo de invejas, desde as
que se confundem com estímulo e competição até as que
se canalizam para o mais negro ódio. (Sem querer, atribuo
também uma cor ao ódio. E ocorre-me certa manhã
na Holanda, diante do mar e de criancinhas louras,
tão louras que pareciam de prata, e recordo uma senhora
que me observava a oposição reinante desde o
princípio do mundo entre a luz e a treva, Deus e o Demônio,
as raças louras e as morenas, o dia e a noite -
mas isso leva para muito longe, e hoje eu quero absolutamente
deslindar este caso da cor da inveja.)
Que uma jovem deseje - não digo o rosto, mas - os
joelhos da outra que pode ganhar um prêmio de beleza
é uma invejazinha modesta, juvenil. Se é verde, é um
verdezinho de alface. Creio que nem chega a ser pecado.
Pode acabar com um suspiro, uma lagrimazinha. Talvez
até, de dentro dessa lágrima, se possa ver que a
vida tem coisas muito mais importantes que um par
de joelhos.
Mas há pessoas maduras que sabem tudo umas das
outras, e invejam-se com furor, misturando o verde com
o vermelho, o que não dá uma cor muito agradável.
Há pessoas até que inventam coisas que os outros não
têm, e passam a invejar as coisas inventadas. Isso já
deve ser uma palheta louca. Mas estamos em tempos de
palhetas loucas, também.Invejar não é, pois, desejar
somente o melhor; é desejar o que não nos pertence. E até
se pode invejar a
doença, quando a saúde é que parece um bem invejável.
Pode-se invejar a pobreza, a infelicidade. Que uma
menina ingênua tenha inveja da rica senhora que pagou
duzentos contos por um vestido, é uma invejazinha de
menina ingênua. Mas que a referida senhora tenha inveja
da menina que segue a cantiga: "Com cinco réis
de alfinetes / se compôe uma mulher..." - essa, já
deve ser uma inveja grande, de cor muito carregada,
realmente, uma inveja feia de ver.
Não: "verde de inveja" não me parece expressão
feliz. Vou prestar atenção. Convém estabelecer uma escala
de tons. E, depois, a dos antídotos. Se a inveja
faz mal aos outros, precisamos defender as vítimas. Se
faz mal ao portador, precisamos curá-lo. Se não faz mal
a ninguém, é mera curiosidade cromática, esta conversa.
Mas sempre é bom não esquecer que, por essas e
outras, os antigos inventaram seus amuletos.
132
132
ORADORES E CÃES DANADOS
Todas as tardes quando saíamos para dar uma volta,
entre o jantar e o sono, minha avó recomendava
insistentemente à pajem Pedrina que evitasse os bêbedos
e os cães danados. Naquele tempo parece que esses dois
perigos eram muito mais constantes que hoje.
Quanto aos cães, mesmo danados, eu supunha que
àquela hora já estivessem dormindo. E se andassem pelas
ruas seria um pouco difícil reconhecê-los, pois, segundo
as informações que possuíamos, eram uns tristes
animais desorientados, com a língua pendente e a cauda
encolhida - tudo isso impossível de descobrir de longe,
ao lusco-fusco. Mas não encontramos jamais nenhum.
O passeio, esse simples passeio lá para o lado das
palmeiras, foi sempre feliz. Os namorados conversavam
em caramanchôes no jardim, mas tão próximo às grades,
que podiam acompanhar o movimento dos passantes,
e todos lhes diziam: "Boa noite! Boa noite!" -
o que era uma delicada distração da época. Os caramanchões
eram cobertos de trepadeiras perfumosas, cujos
cachos, campânulas ou estrelas pendiam em guirlandas
por todos os lados. Os namorados conversavam. E nós
passávamos.
Havia varandas com habitantes ruidosos, que se expandiam
em exclamações entusiásticas, abrindo garrafas
de cerveja, falando de águas minerais, não do Brasil,
mas da França, arrastando cadeiras, acendendo charutos.
Era muito engraçado.
Havia os salões iluminados onde alguém tocava ao
piano músicas muito variadas, que Pedrina ia classificando
de valsa, polca, maxixe... Seguiam-se as belas
casas silenciosas, com o seu cão de ronda entre as flores,
as vastas fachadas tranqüilas, de janelas apagadas.
Pela sombra começavam a aparecer pirilampos e aquela
grande solidão me encantava. Devia ser bom viver como
pirilampo, brilhando aqui e ali, cá embaixo, lá no alto.
Devia ser bom viver como cão de guarda num grande
jardim, naquela solidão que entreabre devagar os botões
de rosa, e faz cair em chuva as estrelas brancas
dos jasmins. Devia ser bom viver como as grandes casas
pensativas. Devia ser bom viver como a noite, que
vai escondendo tudo e tudo transformando em sonhos.
De repente, apareciam os bêbedos, um aqui, outro
ali, falando para os passantes, para a solidão dos jardins,
para as árvores, para os muros.
(Nesse momento, Pedrina atravessava a rua, segurando-me
com força a mão.)
Os bêbedos eram uns pobres negros, cujas feições
nem se distinguiam; mas a pretidão brilhava aqui e ali,
como um verniz, tocada pela luz tênue da rua. Os bêbedos
estavam sempre entusiasmados. Na verdade, não
falavam: discursavam. E seus discursos eram sobre o
Imperador, a Imperatriz, a Princesa Isabel, a caneta de
ouro, misturados a anjos, coronéis, Dona Sinhazinha e
muitos negros soltos nas fazendas de café. Os bêbedos
não faziam mal a ninguém. As vezes, apenas, queriam
que os passantes respondessem a coisas do passado, e
os passantes não estavam mais preocupados com isso.
Então continuavam a fazer a apologia da Princesa Isabel,
a chorar pelo Imperador, a falar de palácios e de
igrejas, e a agradecer a Deus tanta bondade, de mãos
postas, virando para o céu a cara lustrosa e os olhos
que, à luz do lampião, pareciam vermelhos.
Chegávamos em casa conversando também sobre a
Princesa Isabel, com menos ênfase, é claro. Todos aqueles
discursos de bêbedos eram interpretações populares
de páginas da História. Foi assim que eu comecei a conhecer
o Império, o Cativeiro, a Abolição e uma porção
de nomes misturados (de modo arbitrário) aos fatos
desse tempo. Pedrina, o que sabia de positivo é que a
Princesa Isabel dera uma medalha de ouro à minha
mãe, quando era menina, por causa dos seus bordados,
que eram a imagem da perfeição.
135
FIGURAS DE MARKEN
A princípio, as figuras de Marken que uma vez ou outra
tra encontrávamos pelas ruas de Amsterdã nos pareciam
fantásticas, vindas de um outro mundo, de uma outra
era, vindas de nenhum mundo, de era nenhuma inventadas
pela imaginação dos sonhos, arbitrária. Entre os
fleugmáticos senhores e os senhores bonacheirões; as
velhinhas de pele franzida e olhos vivos; a mocidade
rósea, loura, a deslizar em suas bicicletas, as figuras de
Marken passavam sérias e espectrais. As mulheres, principalmente,
chamavam a atençâo dos estrangeiros: altas,
magras, angulosas, de cabelos esbranquiçados, ásperos,
longos, cortados em franja na testa e caídos para as
costas e pelos ombros, lisos e secos ou guardando as
ondas feitas por tranças desmanchadas. Calçavam os
grandes socos holandeses, de madeira amarelada e saias
escuras .e grossas até os tornozelos. Mangas compridas,
de pano listado, tornavam seus braços maiores. O gorro
que traziam à cabeça completava a grandeza do traje.
Entre canais e torres, seus movimentos tinham ritmos
graves: os passos carregando os socos, as mangas
listadas a articularem os braços - e os rostos, os pálidos
rostos amargos, severos, entre o gorro branco e
os bordados corpetes alongavam em redor olhos claros,
vagos, como recentemente acordados e procurando reconhecer
cada objeto, cada lugar.
Então, os outros diziam: "São de Marken, vêm de
lá da ilha... É bonito, lá. Sâo assim feios porque pertencem
a uma comunidade que nâa se mistura... Vivem
isolados, lá entre. si... Mas é muito bonito,
Marken."
Ora, quem já viu Volendam, esse recanto turístico da
Holanda com suas casotas de pescadores pintadas de
muitas e vibrantes cores; quem já viu por essa aldeia
tão bem-arranjada os inúmeros objetos de arte mais
ou menos popular que esperam os visitantes ávidos de
"lembranças"; quem já entrou na pequena loja de fotografia
para sair em cartâo-postal para os amigos, vestido
com as roupas locais, os homens de cachimbo na
boca, as mulheres de chaleira de cobre na mão, como
boas donas-de-casa ocupadas com a sua cozinha; quem
já se cansou de comer, no mesmo almoço à beira d'água,
enguias preparadas de todas as, maneiras, não se lem-
bra de Marken, não acredita que Marken lhe possa
causar impressão mais saudosa que a desse agradável
sítio, que é como um grande brinquedo colorido e animado,
nessa terra holandesa tâo cheia de outros encantos
angélicos: flores, flores, flores, carrilhões, realejos
grandes e belos como altares, e, de longe em longe,
moinhos de vento, despedindo-se...
Mas uma tarde de domingo, num barco alegre, com
um bravo tocador de sanfona a animar a excursão,
chega-se a Marken. E é outra coisa: não aquele sorriso
turístico de Volendam. Um lugar áspero: homens e
mulheres, meninos e meninas com suas roupas festivas.
Socos enfeitados de desenhos coloridos, corpetes de profusos
bordados policromos, chitas floridas, panos quadriculados,
aventais, camisas de listas variadíssimas,
gorros enfeitados, gorros de renda; louros cabelos ao
vento. . . - e as casotas bicudas, as pontes de madeira,
as cancelas, tudo limpo, nítido, alegre, feliz, decerto,
mas de uma alegria, de uma felicidade um pouco distante,
discreta, pensativa.
Muitas sutilezas: meninos e meninas vestem-se do
mesmo modo até os cinco ou seis anos; mas reconhecem-se
porque o gorro dos meninos é diferente, porque
eles usam uns botões de prata na gola, porque, nas
roupas, têm uma tira branca vertical... E são lindas
crianças, todas igualmente de cabelos compridos, finos,
dourados, leves com seda desfiada.
E vem um bando de moças de mãos dadas, e devem
contar histórias de domingo e de mocidade: e seu sorriso
é tímido, pronto a guardar-se, a desaparecer.
Pelas cercas, pelas pontes, perto dos barquinhos, à
margem da água, as moças e crianças com seus corpetes
tes de mil cores, suas mangas listadas e seus cabelos
louros enchem as paisagens de Marken como pinturas
extremamente ornamentais tendo por fundo pequenos
muros de tijolo, casas de angulosos telhados, com janelas
brancas e cortininhas de franjas por detrás dos
vidros.
Mais tarde, quando se pensa em Marken, naqueles
rostos, naquelas cores, é como um sonho com um jogo
de cartas: uma tarde, entre o céu e água, as figuras
armando e desarmando festas: dama, valete, rei, dama,
valete, rei...
138
CURSO COMPLETO
A mocinha era tão graciosa, tâo tímida, tão meiga que
parecia uma flor do campo: uma sempre-viva, um botãozinho
de ouro. Contou-me suas melancolias de adolescente,
porque vivia na província, tinha muita vocação
para estudos superiores, só poderia realizá-los no
Rio de Janeiro, esta "rainha das cidades e empório do
mundo". Deixou sua casa distante, começou seus estudos,
conheceu muita gente, abriu seus caminhos, a todos
encantou com a sua meiguice e a sua timidez e,
como o tempo passa tâo depressa, dali a pouco me contou
que já possuía não sei quantos diplomas, ia conquistar
outros tantos, tudo era maravilhoso, a seus olhos; certamente
conseguiria uma viagem ao estrangeiro; a vida
é doce, a humanidade é boa, o céu é sempre azul e os
pássaros cantam todos para nós.
De repente, a mocinha aparece-me. Continuava graciosa,
meiga, tímida, sussurrante, embora tivesse aprendido
a falar várias línguas, e entendesse de mil coisas
difíceis que mais da metade da população do mundo
vai morrer sem ter jamais ouvido mencionar. Sabia tudo
isso com a terminologia própria, mas também o traduzia
para a língua vulgar com tal encanto e perspicácia
que antes do fim do ano já se tinha tornado professora.
Depois, a moça, repleta de talento e de conhecimento,
sentiu talvez que o peso de saber é muito grande
para ser transportado por uma criatura sozinha, anuncio-me
com sutil delicadeza que em breve se casaria.
Nessas ocasiões logo se pergunta com quem. Ela não
sabia. Não tinha encontrado ainda o noivo. Mas ia encontra-lo
amanhã, depois de amanhã, quem sabe? na
Praia de Copacabana, na Rua do Ouvidor, à porta de
alguma livraria, num teatro... O noivo devia andar por aí.
Transcorre o tempo novamente - mas não com excessivos
dias - e a mocinha procura-me para anunciar
que já encontrara o noivo, e aquele ano mesmo; sem
falta, estaria casada. Era tâo eficiente, essa mocinha! E
continuava graciosa, meiga, mesmo com aquele ar tímido
de florzinha do campo, sempre-viva ou botãozinho
de ouro.
E assim foi. A mocinha escolheu a mais linda capela;
o mais vistoso sacerdote; o vestido de mais elegante simplicidade,
inspirado em modas antigas e que outrora
tornaram mais sonhadoras as princesas; e a cerimônia
ia ser também daqui a pouco tempo e todos os dias
iam chegando às suas mãos lindos presentes.
Por fim, a mocinha pediu-me permissão para mostrar
seu álbum com as fotografias do casamento. Era uma
obra de arte: ali estava o seu ramo do flores, displi
centemente abandonado sobre um móvel, como a significar
que assim ficava para trás a primeira parte da
vida, e agora se iniciava a segunda, sob felizes signos.
Voltei a página, e mal pude reconhecer a simples mocinha
tímida: era uma bela figura, com um vestido de
seda rija, que, justamente pela rigidez, lhe acentuava as
formas juvenis, a ponto de desabrocharem. Aparecia-lhe
a ponta do sapatinho, muito alto e muito elegante;
caía-lhe pelos ombros uma pequena catarata de tule ;
suas unhas tinham sido pintadas de prata e um traço
de prata Ihe delineava também a pálpebra superior, como
um fino arroio marginando os curvos, infinitamente
sutis bambus dos cílios.
Estivera tão bonita a mocinha, naquele dia, que o fotógrafo
se encantara em multiplicar a sua imagem: e
ela sorria; volvia os olhos com muito riüstério; dava um
passo e detinha-se; tornava-se lânguida como as rosas;
depois fazia-se inflexível como uma espada: enfim, o
ato do casamento era uma festa para os olhos, fixada
ali no cetinoso papel para todo o sempre.
Esta mocinha é tão eficiente que daqui a pouco terá
lindos netos. E já os vejo debruçados sobre essa beleza
terrena, eles que, certamente, se casarão nas cintilantes
capelas da Lua.
141
141
POR FALARMOS DE CHÁ. . .
Por falarmos de chá, lembrei-me de dois poemas chineses,
muito antigos, do tempo daquela famosa dinastia
T'ang, sob a qual floresceram tantos poetas, e acima
da qual brilharam astros como Li-Po e Tu-Fu.
Um dos poemas é de Lo-Tung, grande bebedor de
chá, que enumerava as sensações experimentadas à medida
que absorvia consecutivas taças:
A primeira taça umedece-me os lábios e a garganta;
a segunda, interrompe-me a solidão;
a terceira, penetra-me as entranhas, onde revolve
[milhares de ideografias estranhas;
a quarta, produz uma leve transpiração que leva,
[através dos meus poros, o que existe de
[mau na minha vida;
com a quinta, sinto-me purificado;
a sexta, transporta-me ao Reino dos Imortais;
a sétima. . . Ah! a sétima. . . já não posso beber mais!
Sinto apenas o sopro do vento frio encher as mangas
[da minha roupa...
Onde está o Paraíso?
Deixai-me subir nesta suave brisa e que ela me leve
[para lá!
O outro poema, de Uang-Tsi, é em forma de mensagem:
delicada mensagem de um homem que manda a
um amigo algumas folhas de chá para agradecer-lhe um
poema de outro poeta. Diz assim:
Para agradecer-vos por me terdes feito conhecer esta
poesia de Tsu-Kia-Liang, envio-vos algumas folhas
de chá. São da árvore do mosteiro situado na montanha U-i.
É o mais ilustre chá do Império, como vós sois o seu
mais ilustre letrado. Tomais um vaso azul de Ni-hing.
Enchei-o de água de neve colhida, ao nascer do Sol,
na vertente oriental da montanha Su-chan. Colocai-o
num fogo de gravetos de roble, que devem ter sido
apanhados sobre um musgo muito antigo e deixai-o
sobre esse fogo até que a água comece a rir.
Derramai-a, então, numa taça de Huen-tcha, onde deveis
ter colocado algumas folhas desse chá, cobri a
taça com um pedaço de seda branca tecida em Huachan
e esperai que se espalhe pela vossa câmara
um perfume comparável ao de um jardim de Fun-lo.
Levai a taça aos lábios e fechai os olhos. Estareis no
Paraíso.
Lidos os dois poemas, verifica-se não ser difícil chegar
ao Paraíso. Basta saber preparar e saber beber uma taça
de chá. Notai, porém, senhores, quantos requisitos exteriores
e interiores são necessários a esse ato aparentemente
fácil e simples! Mesmo sem provar desse chá
de tão remotos séculos, se ouvirmos bem os poemas,
se os ouvirmos extremamente bem, chegaremos ao Paraíso.
(Mas ainda haverá quem sonhe com lugar tão sutil?)
143
A PROPOSITO DE VILA-LOBOS
Dizia-me um amigo que, em sua terra (que não era a
nossa. . . ), os artistas viviam muito mal, mas tinham
enterros muito bonitos. Não sei como terá sido o seu:
não creio que tenha tido sequer essa compensação, se
é que pode ser uma consolação atravessar a vida com
as agruras que a condição de artista fatalmente implica,
para acabar em cortejo triunfal pela cidade, como
espetáculo exemplar, estímulo e consolo de outras infinitas
gerações de artistas.
Creio que o artista é o mais infeliz habitante da terra,
embora com toda essa infelicidade desperte em redor
de si montanhas de ódios gratuitos e matas impenetráveis
de inveja. Por que se odeia, por que se inveja uma
pobre criatura geralmente indefesa, sem sindicato, sem
montepio, sem abono (essas mercês de que o homem
comum desfruta, além de outras muitas)? O artista produz
o que pode produzir a criatura humana consumida
em realizar-se de maneira sublime. (É claro que estou
falando do artista verdadeiro!) Em geral não lhe importa
nada o que vai acontecer depois: se Ihe compram a
obra, se a entendem, se a maltratam, se os outros se
apropriam dela, ou se até lhe negam os direitos de autoria.
Enfim, o artista vai no seu destino mais ou menos
como destituído de atributos mortais, desgraçado mas
glorioso, muito mais perto dos deuses que levitam, do
que dos inimigos que rastejam. De um modo geral, não
chega a viver sua vida: vive apenas o que produz - o
que, vamos e venhamos, não se poderia considerar destino
muito sedutor para os que amam o mundo e seus
deleites.
Mas tem sido sempre assim - com uma ou outra
exceção, como é de praxe na vida, e como convém dizer
numa crônica, a fim de amenizar o assunto, de não Ihe
dar tom pessimista e também nâo acusar a humanidade
toda de crueldade mental.
Lembro-me, aliás, de uma coisa simpática: nos últimos
anos da vida de Sibelius o curso dos veículos foi
desviado de sua rua, para que nenhum ruído incômodo
perturbasse o velho compositor em suas últimas produções.
Mas isso é tão belo e foi tão longe que nem parece
notícia, mas apenas sonho.
Não conheci Vila-Lobos de perto, mas imagino que
houvesse em sua vida o cortejo de fatalidades inerentes
à sua condição de artista. Soube que seu enterro foi uma
consagração pública; mas não me parece que isso baste
nem mesmo tenha muito que ver com a importância de
sua obra.
O que me parece muito sério é que, depois de mortos,
quando já deixaram de ser amáveis ou irritáveis, simpáticos,
ou antipáticos, e apenas são o que realizaram
menos em si do que fora de si, na paisagem do espírito,
os artistas se afirmam totalmente, purificados e indestrutíveis.
A morte não tem nada com os artistas. Eles
não são essas pessoas que vemos. Sâo como seres sobre-
humanos, passando por nós com essas roupas e sapatos
que se usam, e até fumando charutos, como Vila-
Lobos. Isso pode ser enterrado, com ou sem pompa.
Mas o seu trabalho? Como pode morrer o que é imortal?
145
CONSIDERAÇÕES ACERCA
DA GOIABA
Muitas pessoas sabem o que seja goiabada; mas talvez
nem todas elas já tenham visto uma goiaba. Aliás, a
goiaba já fez a confusão de um velho cronista do Brasil,
que a descreveu pegada ao tronccy da goiabeira. Decerto,
entre seus olhos e seus ouvidos produziu-se uma
compreensível atrapalhação, fazendo falar de goiaba e
pensar em jabuticaba... (A rima, ss vezes, é traiçoeira...)
Os indígenas, que sempre deram nomes certos às
coisas, parece que a chamavam a-covab para dizerem
que era um ajuntamento de caroços. Na verdade, ela é
pouco mais do que isso. E em certo idioma da fndia,
quando se quer dizer goiaba diz-se pêrrz, que é assim
que ela se chama. (Agora, quando se quer dizer pêra
não se deve dizer goiaba. .. Isso já seria engraçado demais!)
Penso em tudo isto porque estou vendo, à porta de
uma confeitaria, uma goiaba que custa sessenta cruzeiros.
Sessenta cruzeiros: quer dizer, quase um litro de
leite, umas cinqüenta gramas de manteiga, meio quilo
de pão . . . (Bem, nâo me atrevo a continuar, porque
os preços sobem a cada instante, e podem já não estar
atualizados . . . ) Em todo caso, a goiaba custa sessenta
cruzeiros.
As goiabas estâo ali arrumadinhas na caixa. De aparência
modesta, mas de escandaloso perfume. As vezes
como o das angélicas, o perfume da goiaba causa até
Segundo o padrão monetário da época, mudado depois.
um grande mal-estar. Mas é quando estâo muitas juntas;
pois, separadamente, desprendem um cheiro delicioso.
Como as pessoas que, sozinhas" são delicadas e
encantadoras e, num grupo, não se sabe como, se tornam
vulgares e até estúpidas.
O que eu lamento é que os passantes olhem para as
goiabas, para o preço, e não se detenham: as goiabas
não Ihes dizem nada a não ser que são uma fruta de
cheiro excessivo e de custo muito alto.
Isso me entristece, pois a goiabeira é uma árvore meio
torta, de folhas todas riscadinhas, e cujo tronco se descasca
como se fosse papel. Por baixo, a madeira é lisa
e bonita que nem marfim. Antes da goiaba nascer, aparece
uma flor tão alva, tão gloriosa, coroada de ouro e
seda branca! uma flor que lembra a Estrela da Manhã.
Há um movimento de vespas, de abelhas, em redor dessas
flores. Depois, a goiaba é um pequenino botão verde;
depois, é um fruto oval e amarelo, cetinoso e perfumoso.
Quando se parte, ela abre um sorriso de dentinhos
cor-de-rosa. Tão grande é o seu perfume, tão tenra
a sua polpa, que, muitas vezes, antes mesmo das
crianças, são os passarinhos que a provam. E nesse dia
cantam muito melhor.
Eis o que é, mais ou menos, uma goiaba. De modo
que, embora não as vendam, mas para mostrar quanto
as estimam, os senhores mercadores deviam pedir por
elas não sessenta cruzeiros - preço vil - mas seiscentos
e até mais.
147
TRÊS LIVRINHOS ANTIGOS
Eis-me diante de três pequenos livros do século passado,
que me deleitam, como se nâo fossem livros, mas espelhos
refletindo o viver, o sentir, o pensar dos nossos
avós.
O primeiro é um Cozinheiro Moderno, "onde se ensina
pelo método mais fácil e mais breve o modo de
se prepararem vários manjares, tanto de carne, como de
peixe mariscos, legumes, ovos, laticínios , etc. São quatrocentas
e tantas páginas compactas, por onde desfilam
orelhas e olhos de vitela, coelhos enrolados, perus
em globo, coxinhas de galinhas em botinas, frangos em
forma de peras; muitos caldos curativos, uns para purificarem
a massa do sangue, outros para tosses secas, para
dores de cabeça - ao lado de sopas mais alegres, como
uma "sopa saudável", uma "sopa de primavera com
ervilhas" e de uma "sopa de leite de amêndoas", que essa
já é doce e servia-se "guarnecida de biscoitos de la
Reina, ou de amêndoa". Em matéria de molhos (isto
passando por alto muitos capítulos), há de tudo: à es
panhola e à inglesa, à holandesa e à alemâ, à moscovita
e à provençal. P alguns têm seus patronos declarados: o
do Conde de Saxônia e o do Duque de Nevers; e
outros, vagos patronos: o da Princesa, o do Almirante
- e o dos pobres, com azeite e sem azeite. . . Há pastelinhos,
salsichas, empadas, e, no capítulo da doçaria,
onde os bolos se chamam "gatéus", há os pudins,
os sonhos, os crocantes, e as "cremas", que são da Delfina,
da Abadessa, aveludadas, virgens, batidas, meringadas,
queimadas...
O segundo livro é de sonhos, Arte de Adevinhar o
Futuro, "ou explicação completa, clara e fácil dos sonhos
e aparições noturnas". Creio que muitos desses
sonhos deixaram de constar do repertório onírico, no
século atual. Mas, precisamente há um século, sonhava-se
com abadessas, arlequins, boticário, usurário, desmaio
de senhora, desmaio de homem, ratoeira, sangues-
suga, tendas de guerra, vinagre que se bebe, vivandeiras-
e, para terminar, estes três exemplos de sonhos
maravilhosos: zéfiro, zero e zodíaco... Tudo isso tinha
seu significado, é claro, e este livrinho, traduzido do
francês e que custava, no seu tempo, cento e vinte réis,
devia andar em todas as casas, entretendo as famílias,
pois já na capa avisava ser "obra interessante e divertida". . .
Quanto ao terceiro livrinho, é um Novo Almanaque
de Lembranças Luso-Brasileiro, repositório de curiosidades,
poesias, charadas, conselhos e informações gerais,
que nos fala de bruxas, feiticeiras, lobisomens e
almas de outro mundo, do cavalo branco de Lafayette,
dos ébrios e sóbrios, dos arcos de triunfo, dos hotentotes,
dos fósseis e das geadas - enfim, uma pequena
enciclopédia, capaz de fornecer muitos motivos de conversação
para as visitas amáveis de outrora, quando as
pessoas tinham tempo de conversar, quando ainda podia
dia haver visitas, quando a amabilidade fazia parte da
boa educaçâo. (No tumulto editorial de hoje, folheio
esses três livrinhos...)
149
O ANIVERSÁRIO
DE GANDHI
Num dado momento, a India projetou-se no Ocidente
com um esplendor fora do comum: dois homens a tornavam
assim radiosa e atraíam para ela o respeito e a
admiração dos povos - Rabindranath Tagore e o Mahatma
Gandhi. Isso foi no tempo em que se preparava
a sua independência, para a qual, de maneira diversa
porém igualmente notável, contribuíram esses dois grandes
espíritos. Tagore e Gandhi parecem, na verdade ,
resumir, entre 1920 e 1940, todas as virtudes passadas
de seu povo, e representá-lo da maneira mais adequada
para o início de uma vida nova, dignificada em liberdade
e sabedoria.
As grandes e merecidas comemorações do centenário
de Tagore, este ano*, não obscurecem a data natalícia
de Gandhi, quase centenário também, pois nasceu a 2
de outubro de l869. Ao contrário: sob essa luz altísssima
que ilumina a figura do Poeta, alcança relevo
maior a figura do Santo, esse curioso, moderno Santo
das multidões, que viveu e morreu pela independência
de seu povo e pode ser considerado o Pai da Pátria.
Por suas origens, por seu ambiente, por sua firmação,
por seu destino de artista, caberia a Tagore essa
importante missão de fascinar o mundo: traduzidos nos
mais diversos idiomas, seus versos animam leitores desconhecidos,
servem de alimento espiritual a pessoas que
nem o conheceram e, por mais que estejam vivendo de
* 1961.
suas palavras, muitas vezes nem sabem muita coisa a
a respeito de sua vida, de sua pessoa, de seus desígnios
artisticos.
Gandhi é quase seu oposto em tudo: e tem-se a impressão
de que a Providência reuniu essas duas criaturas
tão diferentes para, ao mesmo tempo, mostrar a
Índia no equilibrio de sua diversidade, tão poderosa
em sonho como em ação, tão capaz de alçar-se em lirismo
rismo ao convívio de Deus como de procurar por Deus
no mais humilde caminho dos homens.
Esse humilde caminho dos homens pertenceu a Gandhi.
Ele se dispôs a experimentar em si mesmo as injustiças
de que eram vítimas seus irmãos infelizes:as
dos que pertenciam a outras castas, as dos que sofriam
humilhações de poderosos, as dos gue não sabiam como
lutar, com a sua fraqueza contra a esmagadora força
dos homens armados.
Vimos, então, esse homem de vasta inteligência, de
imensa perspicácia, de uma vontade férrea, e de uma
pureza pessoal comparável à das crianças e à dos anjos,
deixar seus trajes ocidentais, vestir-se como os ascetas
falar as multidões, ensinar justiça, aceitar prisões,
praticar jejuns, protestar contra os grandes, conduzir
sua gente por um caminho certo mas difícil, só capitulando
na morte depois de ter cumprido seu longo
programa de libertação nacional.
Outros chefes podem realizar programa idêntico : mas
o caso de Gandhi - e é isso que o torna imortal -
é o da revolta conduzida dentro de rigorosos compromissos
de moralidade e verdade; e, por incrível que
pareça, sua revolução, tendo o prazo curto das revoluções,
operou-se com um espírito de educação do povo
e bem sabemos que a educação é um plano de prazo longo.
Como conseguiu o Mahatma esse milagre? Sendo um
milagre, ele mesmo. Pois a grande verdade, em qualquer
acontecimento, é que os fatos valem pelos homens
que os dirigem, mais ainda do que pela idéia que possam
encerrar. E essa ausência de chefes extraordinários,
de chefes alheios a resultados pessoais, a transações e
até a vaidades de poder é que torna melancólicas muitas
façanhas históricas.
No caso de Gandhi, vemos um homem despojar-se de
tudo, reduzir ao mínimo suas necessidades (que resta,
de seus bens, no "Memorial" que lhe levantaram? -
umas sandálias, um bordão, uns óculos, um relógio...)
- viver na modéstia do seu retiro ou caminhar longas
distâncias para organizar o povo, para harmonizar os
intelectuais e os rústicos, para coordenar todas as forças
não das armas, mas do espírito, no sentido de formar
uma barreira humana (ou sobre-humana) contra o
poderio, a escravidão, a injustiça, impedindo a ação
violenta dos oprimidos, e tentando esclarecer os inimigos
sobre os seus próprios erros. Exercia, desse modo,
uma dupla atividade de educador e mestre e guia: ensinando
a uns a vencerem pela sua capacidade de sofrimento,
e a outros a se livrarem do peso de suas
culpas.
Para Rabindranath Tagore, Deus é uma expressão
de amor, é uma intuiçâo poética, é um encontro póstumo,
transcendente e definitivo; para o Mahatma, Deus
é a Verdade, a Verdade é Deus, como num postulado
científico.
É abraçado a essa certeza, fundido nessa fé que Gandhi
empreende sua ação de condutor de um povo martirizado.
Habituara-se, desde menino, a essa nitidez de
propósitos; suas memórias revelam-nos essa inquietação
do adolescente e do jovem para dirigir seu comportamento
dentro da lei moral inerente à condição humana,
seja qual for a raça, dentro de qualquer ambiente, sob
qualquer filosofia ou religião. Esse sentimento da universalidade
da "lei" torna o advogado M. K. Gandhi
um jurista diferente: ele é, antes e acima de tudo, um
servidor da Verdade, um distribuidor de Justiça. E tão
linear se torna sua atuação, diante de cada caso, que
não se pode deixar de pensar na configuração dos diamantes,
com seu brilho, sua dureza e suas arestas.
Num país de grande riqueza imaginativa, onde os
deuses facilmente se podem multiplicar, o Mahatma não
pretendeu subir jamais além da sua condição de homem
e de cidadão; ao contrário, vemo-lo constantemente
procurando descer ao que nessa condição pode existir
de mais humilde, precário, desditoso, para aprender todas
as misérias, e dar-lhes adequada solução. Vemo-lo
utilizar transportes de ínfima classe, caminhar a pé com
os peregrinos, interessar-se por assuntos domésticos de
limpeza, higiene, alimentação, sem que esse constante
pousar em níveis tão obscuros perturbe o ímpeto e a
extensão de seus vôos. Ele é uma constante demonstração
de que se pode ser feliz na mais completa humildade
de existência, desde a construção de um povo,
ao aperfeiçoamento do homem, à realização da paz e
da sabedoria numa sólida base de confiança, numa total
fidelidade consigo mesmo, com outrem, e com essa
Verdade que é Deus.
Há em Gandhi uma claridade fixa, que cativa as pessoas
de boa vontade, porque ela é uma promessa, uma
esperança de que cada um de nós pode ser assim -
de que a natureza humana pode ser sem perversidade,
sem desvios, sem lances de mentira e traição. Que esses
defeitos podem ser redimidos, que o homem pode cultivar
em si apenas o que há de generoso e nobre em
sua natureza, e que pode chegar à mais alta dignidade
sem destruir nenhuma vida, sem oprimir nem desprezar
ninguém.
Relembremos tudo isso, nesta data do Mahatma, a
"Grande Alma", e não nos esqueçamos de que existiu
no mundo um homem assim.
153
LIÇÕES DE BOTÂMCA
Todos achávamos o compêndio de botânica excelente:
em francês, encadernado em percalina amarela, agradável
de tomar nas mãos, bom de folhear, bem impresso,
com desenhos claros - essas coisas que nem
sempre os editores levam em conta e podem, no entanto,
ter influência na vida de um estudante e até na sua
vocação. O professor ajudava a esclarecer o texto: depois,
procurava-se a letra a, a letra b, a letra c, todo o
alfabeto, que indicavam o que se estava estudando nas
plantas, quer inteiras, quer em seus pormenores, e nos
cortes longitudinais que mostravam seus segredos interiores.
Era muito agradável: vivia-se em jardins, pomares,
campos imaginários. Salvo algum exemplo especial,
não se tratava de nenhuma planta, nenhuma flor, de
fruto algum. Tudo estava reduzido à idéia, nem mesmo
à imagem dos objetos. Mas era - pelo menos para
alguns - um exercício fácil e feliz. Assim Deus tinha
disposto as suas criações vegetais! E sépalas, raízes,
pistilo, cada coisa no seu lugar cumpria uma determida
função; e quando havia aberrações, era outra
história. . .
Naquele tempo não se analisava nada disso com muita
profundeza, mas com o assombro e a curiosidade
das descobertas. Apenas, entre as folhas dos livros e os
seus desenhos, assomava coma um fantasma bom a figura
de tio Zeferino.
Não sei de onde ele vinha, mas vinha com o anoitecer,
como trazido pelo lusco-fusco da tarde. Trazia ramos
de flores e embrulhos de frutas. Vinha orgulhoso,
sorridente, pois tudo aquilo nascia em chácara sua, sob
os cuidados seus. Descansava os embrulhos e ramos na
mesa rústica, falava do tempo, do sol e da chuva e ainda
trazia em redor das unhas a terra dos seus canteiros.
sua chegada coincidia com a hora em que as crianças
boazinhas devem ir dormir: de modo que sua figura
e suas falas ficavam, metade neste mundo, metade no
outro. No dos sonhos. Mas era ele que entendia e explicava
rosas e eglantinas, dálias e crisântemos, e fazia
apreciar o perfume escondido da violeta em contraposição
à violência do jasmim-do-cabo. Era um homem
singular. Falava de flores simples e dobradas e com um
canivete que exibia âs vezes, parece que resolvia seus
problemas, tornando doces as laranjas amargas e creio
que aumentando o tamanho ou o número de outras
frutas. Tudo com aquele canivete! Todos ficávamos
boquiabertos de admiração.
Mas tio Zeferino não se gabava muito daquelas colaborações
com Deus. Pedia umas fruteiras brancas e
redondas, que de perfil pareciam cogumelos, e ia dispondo
as frutas. Da laranja e da goiaba não precisava
falar, pois quem não as conhecia? Mas havia a carambola,
a nêspera, a romã, o jambo: essas eram grandes
novidades, que nâo se encontravam em qualquer lugar.
Tio Zeferino devia conhecer todas as plantas do
mundo - pensávamos. Queríamos associar a sua figura
à dos anões de louça que, naquele tempo, habitavam
alguns jardins. Mas tio Zeferino não tinha nada de
anão: era um homem robusto, de meia-idade, cabelos
um pouco grisalhos, e uns grandes olhos verdes, como
duas folhas. Uns olhos bons, que riam para as crianças,
para as coisas todas deste mundo que ele, afinal, com
as suas grossas mãos, ajudava a criar. Assim, contava a
história das flores e dos frutos, desde o tempo em que
eram apenas sementes, e como era a terra e o adubo e a
água e o sol, e como tudo se fazia cor, perfume, gosto,
sumo... Falava com amor. Pois se ele conhecia cada
limão desde quando era uma pequenina flor, e depois
se tornara um botãozinho verde `assinzinho', e se arredondara
e crescera, e agora estava ali, na mesa rústica,
ou numa cestinha onde os tinham recolhido, e perfumava
a casa toda, e estava pronto (isso nos causava dó)
para ser cortado em rodelas ou espremido em limonadas.
Mas tio Zeferino comandava esses nascimentos e
sacrifícios com uma superior tranqüilidade. Depois de
uns, vêm outros, tudo é assim, a vida continua, a vida
vai sendo sempre: Deus não pára, vai criando, vai renovando...
Tudo isso que tio Zeferino dizia não era
tirado dos livros, mas da sua cabeça, do seu coração,
da sua experiência de trabalho. Eram tão vivas as suas
palavras que ninguém deixava de acreditar. Segurando
uma dália ou uma tangerina, ele parecia um orador e
(Deus me perdoe) um orador sacro.
156
JUVENAL
Avisto agora o bom preto Juvenal, magro, alto, sorridente,
com um belo dente de ouro no canto do sorriso.
Quando ele aparecia à porta da sala de aula, desabrochava
de alegria o nosso coraçâo. Pois, quem não gosta
de ter um lápis de ponta muito bem aparada, pequeno
cone, muito liso, de cedro cheiroso, com um
bom estilete de plombagina, cuja incrível finura se experimentava
na ponta do dedo? E Juvenal trazia uma
porção de lápis, dispostos como varetas de leque, e
punha-se a distribuí-los pelas crianças como quem oferecesse flores...
Juvenal batia a sineta, à hora do recreio: todos pensavam
nele, que assim marcava a hora da merenda,
hora tão grata, quando se passa do curso do Rio São
Francisco ou da Serra da Mantiqueira para o pão com
queijo e goiabada.
As meninas tinham tal gratidão por Juvenal que, ao
cantarem o Hino à Bandeira, naquele trecho que diz:
"Recebe o afeto que se encerra / em nosso peito juvenil...",
olhavam para ele, imóvel, no canto do pátio,
e brincavam: "em nosso peito, Juvenal..." O bom
preto fazia brilhar o dente de ouro no canto do sorriso,
e a voz das meninas se apagava, com a sua carinhosa
brincadeira, no grande coro escolar.
Todas as lembranças agradáveis da áula se acumulavam
naquela simples figura de servente. Era uma espécie
de mágico: entrava com rolos de mapas, que desenrolava
cuidadosamente na parede. Os mapas eram
novos, brilhantes, cheiravam fortemente a verniz, a resina,
como as figuras dos brinquedos, as ilustraçóes de
certos livros de histórias, os cromos que acompanhavam
as lindas caixas de passas do Natal. O bom, preto ia
buscar nos seus esconderijos os esqueletos e os poliedros,
o globo terrestre, o policromo bolário (que as pessoas
entendidas chamavam de "ábaco"), e aqueles maravilhos,
enormes cartões desdobráveis onde figuravam,
presos por uma linha, amostras de minerais, tubos com
sementes várias, e, simplesmente impressos em cores
vivas, os diversos cortes longitudinais da pessoa humana,
com seus segredos interiores, digestivos, respiratórios,
circulatórios. Juvenal conhecia tudo aquilo. E
transportava tanta ciência com ar muito sério, compenetrado
da sua responsabilidade ao lidar com aquele
material. Os tempos eram outros. Havia uma noção de
respeito e dignidade que atingia as criaturas mais humildes.
Quando Juvenal retirava a bandeira do seu
lugar para entregar à criança que devia segurá-la, fazia-o
com a maior delicadeza, pois sabia que estava
tocando no "símbolo da pátria": e as palavras tinham
sentido certo, e os homens de bem, como aquele bom
preto, sabiam manter o devido decoro diante das coisas
veneráveis. Nessa ocasião nem aparecia o seu dente de
ouro: Juvenal era um cidadão exemplar.
Depois, sim, quando as crianças lhe encomendavam
merendas caprichosas, ele tinha autorização de comprar
na confeitaria próxima: "Um pão doce redondo,
com creme por cima; se não tiver redondo, pode ser
mesmo comprido, sim? - mas com bastante açúcar
cristalizado!" (Juvenal tomava nota.) "Juvenal, Juvenal,
um peixinho de chocolate! com recheio de hortelã!"
"Duas empadas, Juvenal, duas empadas de camarão!"
"Eu quero pastel de carne. Bem estufado! Assim" -
e a menina inchava de ar as bochechas. Juvenal tomava
nota e sorria. "Ninguém mais quer merenda?", perugntava,
pronto a dobrar a sua nota de compras. Vinha
do fundo da sala uma voz tímida: "Eu queria um sonho...
Quanto custa um sonho, Juvenal? Um tostão?
Duzentos réis?" Talvez fosse mais... Os sonhos eram
tão grandes, tão cheirosos, tanto açúcar por cima, com
tanto creme por dentro... "Quatrocentos réis?" Juvenal
ia trazer o sonho. Depois, acertaria as contas.
E, ao voltar, o dente de ouro cintilava no alto daqueles
embrulhos de doces perfumosos e ainda quentes.
"De quem são as empadas? E o peixinho de chocolate?
E o sonho?. .." Distribuía as encomendas, acertava
as contas, dava o troco...
Desse modo, o bom preto conquistava todos aqueles
inocentes corações. E havia sincera ternura na pequena
irreverência com que as meninas murmuravam à socapa:
"Recebe o afeto que se encerra em nosso peito ,
Juvenal!" Eram só as pequeninas que faziam isso. Ninguém
as ouvia, no grande coro escolar. E não punham
malícia nenhuma no trocadilho. Era um desejo simples
e honesto de agradecer ao bom preto a gentileza com
que as tratava. Eram crianças como devem ser os anjos:
muito puras e muito sensíveis.
159
MARINE DRIVE
O livro abriu-se nessa fotografia de Bombaim: Marine
Drive. Quem conheceu a Praia de Botafogo, no Rio ,
antes das atuais reformas, poderia pensar que esta
curva era a da praia carioca, e este enrocamento, e esta
amurada em que, no entanto, se vêem sentadas mulheres
indianas, de sári, cabelos enrolados na nuca, cercadas
de crianças e desfrutando com elas da fresquidão
matinal do mar.
A luz do sol estende largas manchas brancas nas pedras,
no parapeito, nas roupas das mulheres, no rosto
das crianças, e na linha contínua dos edifícios, até o
fim da curva, que parece um desenho de harpa. Se
fosse uma fotografia colorida, esta luz estaria impregnada
de uma cintilação de coral e de ouro e a espuma
que estas águas vêm entregar às pedras estaria cheia
de chispas irisadas de diamantes.
Marine Drive. Aquele mormaço pelo céu, pelas paredes,
pelo chão. Dentro de casa, os ventiladores rodando
quase inutilmente. Aquele torpor que talvez inutilize
para a atividade física, mas abre campos largos para
a imaginaçâo. O informante malicioso que diz: "Em
Bombaim, apenas três estações: warm, warmer and
warmest." Sim, faz muito calor. Até o grande relógio
parece que anda mais devagar. Não há um sopro de
brisa. E as águas do mar não consolam a vista, pois
bem se vê que devem estar muito cálidas, cheias de
faíscas, de reflexos, de vibrações de fogo.
No entanto, à noite, Marine Drive transforma-se. Passeia-se
num carro descoberto, com um cocheiro sonolento
e na verdade é como se não se estivesse passeando,
mas apenas sonhando que se passeava. De um
lado e de outro, tudo deserto. O carrinho vai rodando
e, de ponta a ponta, tudo deserto, também. Deserto e
claro: o chão, as fachadas dos edifícios, a amurada que
alonga a sua curva emoldurando o mar. Agora, não
mais a cor do coral e do ouro das manhãs de sol, mas
a brancura do luar polvilhando de prata o caminho, as
casas e o arabesco das ondas inquietas.
Com esse rodar do carrinho por dentro da silenciosa
brancura; com esse ritmo do cavalinho a trabalhar tão
tarde, na noite; com o vulto do cocheiro imóvel; com
os amigos calados, deixando-se ir, o passeio noturno já
transcende os limites de Marine Drive: como no drama
de Kalidás, vamos subindo do chão, vamos ascendendo
pelos ares, vamos perdendo a nossa identidade terrena
e adquirindo uma natureza mais sutil. Somos os viajantes
de uma noite sobrenatural, branca e transparente:
vamos em direção às estrelas, e das casas todas
fechadas ninguém assiste à nossa evasão.
Essas casas são, na verdade, edifícios de vários andares,
de arquitetura sóbria, alinhados, que a claridade
do luar transforma numa alta e longa muralha branca.
Embora fechados, ainda se nota, ern alguns, leves
pontos de iluminação. E desses incertos lugares vem aos
nossos ouvidos um som de música oriental, muito plangente,
que paira suspensa na noite como o perfume
nos jardins.
Oh! o indeterminável passeio por Marine Drive! Bombaim,
cidade tumultuosa, de multidões apressadas, oferece-nos
este momento único de solidão e silêncio, esta
avenida de sonho atravessada por um simples carrinho
onde quatro pessoas extasiadas se deixam conduzir
tranqüilamente, sem obrigação de chegar a lugar
nenhum.
Mas um outro som se levanta, agora muito mais próximo:
o de uma frauta rústica, de música indecisa, inventada
lentamente, nota a nota; nùma delicada experiência.
De onde vem essa música, tão doce de ouvir
porque se sente que está sendo criada com amor, por
uma necessidade veemente de expressão, sofrimento que
poderia ser grito, mas que se transforma em suspiro e
cadência e melodia...
A música vem do lado do mar: vem das pedras do
enrocamento. Ali, à beira d'água, onde a espùma também
reduz a um sussùrro a larga voz das ondas, o músico
invisível está modelando os sons de uma obscura
frauta para contar à noite, ao céu, à solidão os segredos
da sua vida. Até muito longe nos acompanha a vaga
melodia que poderia ser a linguagem de qualquer um
de nós. Cabem dentro dela nossas lembranças, nossas
perguntas; nossas saudades. E o carrinho vai rodando
cada vez mais leve, como por cima da música.
162
O GURUDEV
Como a Gandhi se impôs o título de Mahatma, a "Grande
Alma", por sua dedicação à Verdade e à salvação de
seu povo, a Rabindranath Tagore se chamou o Gurudev,
o "Professor" - não no sentido mais ou menos aleatório
de mero transmissor de conhecimentos, mas com o
significado profundo de um formador de almas, de um
Poeta atuante, capaz de abrir para os discípulos - ou
simples leitores - caminhos largos e claros de pensamento,
de sentimento, de compreensão da vida, de entendimento
das nações, com o instrumento da Beleza,
que também não é mais que o esplendor da Verdade.
Foi por issa mesmo que, embora profundamente diferentes,
num dado momento Gandhi e Tagore coincidiram,
como diversos mas igualmente admiráveis representantes
da India, aos olhos de seu país e diante do
mundo. E foi assim que, atuando cada um no seu setor,
contribuíram ambos para transformar a sorte de seu
povo.
Rabindranath Tagore é conhecido no estrangeiro
principalmente como Poeta. O prêmio Nobel de 1913 e
as numerosas traduções de sua obra em vários idiomas
ocidentais concorreram para fazê-lo admirado por toda
parte. Pouco tempo depois, Gandhi observaria que "o
poeta da India" estava a ponto de se tornar "o poeta
do mundo". E na verdade, se recordarmos os poetas
da Europa que se comoveram com sua pessoa e com
seus poemas, sentimos que ele foi o grande intérprete
de sua terra, naquele momento, e do que ela possui
de mais alto e puro, em força delicada, poder espiritual,
serenidade e inspiração.
Mas Tagore não foi apenas esse imenso Poeta que
se nos tornou familiar mediante traduções - pois apenas
uma parte de sua obra foi escrita diretamente em
inglês, ou por ele traduzida do bengali. Foi dramaturgo,
romancista e contista, para falarmos apenas da sua
atividade literária. Em todos os gêneros, sua sensibilidade
poética permanece a mesma; no entanto, há páginas
suas de leve malícia, com certa sutil penetração
satírica, especialmente as de memórias, quando se refere
a seus tempos de estudo e primeiras experiências.
Em muitos casos, é um precursor, segundo a crítica de
seu país, quanto aos gêneros, e um grande estilista em
seu idioma.
Seu teatro nâo é fácil de definir: o gosto ocidental
reclamará, no texto, os conflitos a que está acostumado.
O texto tagoreano é muito depurado, quase puramente
lírico, sem a movimentação dos diálogos ocidentais.
Como se em lugar de conflitos houvesse apenas aspira
ções, inquietaçôes, e cada personagem se desenvolves
se numa atitude isolada - como coreograficamente,
num mundo de outras dimensões, de outros dramas -
diante de um acontecimento, um mistério, uma revelação
que ardentemente se espera, se contempla ou
recebe. Essa obra teatral, literariamente, pode ser conciderada
como uma série de poemas dramáticos, muitas;
vezes enriquecidos com música, dança, canto, coros
também de Tagore.
Assim como a pintura e a poesia, a música da India
é cheia de sutileza, com modos peculiares de expressão
obediente a cânones tradicionais que a tornam pouco
acessível a um auditório não familiarizado com a estética
indiana e o sentido das ragas. No entanto,
canções de Tagore são tâo difundidas, em sua terra, que
certa noite, num grupo de pessoas do Oriente e do
Ocidente que cantavam canções populares, a moça indiana
que cantou também uma saudosa melodia estava
cantando uma canção do grande Poeta. Suas palavras
e sua música circulavam assim como a voz do próprio
povo, quase com a glória do anonimato.
Poemas, contos, canções, romances, teatro, música,
tudo converge para um fim superior, na obra de Tagore.
É uma obra altamente educativa, sem nenhuma
aparência ou intenção didática. Ele não acreditava,
aliás, em métodos de educação que não fossem inspirados
em grandes sentimentos. Os pedagogos deixavam-no
apreensivo. Queria educadores capazes de amar seu
ofício e seus discípulos, de amar a vida em sua totalidade.
E, sem desconhecer os sofrimentos deste mundo,
gostava de mostrar caminhos de alegria, esses caminhos
por onde os corações felizes e agradecidos vão sem
medo ao encontro do seu Amor. Caminhos do fim do
mundo, onde todos se reconhecerão.
165
HORA JAPONESA
Desembaraçados dos sapatos - como é de uso, no
Oriente, para se penetrar em recinto sagrado - transpõe-se
o limiar da sala onde se vai servir o jantar.
Oh! como é sábio o Oriente! Os pés fatigados por
estas duras caminhadas de pedras e asfaltos, sentem um
delicado prazer ao pisarem na branda esteira, que forra
o pavimento: esteira tornada ainda mais branda pelo
artifício de algum suave plástico que, colocado por baixo,
lhe empresta uma espessura de tênue colchão. Os
pés se sentem repousados e agradecidos: e logo esse
bem-estar se comunica a todo o corpo e à própria alma.
Assim começa, de maneira tão humilde, a felicidade da
hora japonesa.
A sala é simples, e essa simplicidade nos oferece um
ambiente de ditosa calma. Apenas um kakemono ornamenta
a parede com seus caracteres, falando de uma
flor que se abre sobre os quatro mares - poema que
cada letrado presente interpreta a seu modo. (Esses
poemas do Extremo Oriente podem ser interpretados
de muitos modos - parece-me - mas estão incorporados
à vida humana: não são para serem lidos, apenas,
mas vividos. Creio que, no Oriente, é mesmo difícil
separar, entre as pessoas verdadeiramente cultas, a vida
e a poesia.)
Cada convidado encontra numa pequena cestinha,
em forma de canoa, um guardanapo, tão bem enrolado
que forma um compacto cilindro de pano. Desenrola-se
esse guardanapo que foi assim espremido depois de
mergulhado em água quente, e obtém-se uma agradável
compressa para limpar as mãos, antes do jantar. As
mãos ficam tão frescas, tão novas como se as fôssemos
usar pela primeira vez.
E então aparecem as lindas moças japonesas, com
seus discretos e elegantes quimonos, e, entre genuflexões,
distribuem pelos convivas pequenas bandejas
acharoadas, com umas tigelas tão lindas e arrumadas
com tal encanto que não se sabe se aqui se deve comer
com os olhos, apenas, ou também com a boca, de maneira
vulgar. Pois o alimento, que se apresenta em pequenas
porções, vem disposto artisticamente, além de
ser artisticamente preparado. As pequenas fatias de peixe
cru têm um aspecto cristalino, mineral, assim alvas,
translúcidas, com leves insinuações róseas;. ou alaranjadas.
Há umas sardinhas que parecem pequenas noivas,
envoltas numa vestimenta branca, num orvalho de diamante.
E umas três rodelinhas, como de porcelana, que
se acomodam ao lado, são também pedacinhos de outro
peixe, que nunca tínhamos conhecido sob esse aspecto.
Essas minúsculas iguarias sâo para se colher com as varetas
de madeira apresentadas na bandeja, e saboreiam-se
depois de mergulhá-las no molho de soja de uma
tigelinha menor.
Uns bebem sakê, que é uma bebida extraída do arroz;
outros se deliciam com o karpes, extraído do leite
- branco, adocicado, perfumoso -, e que, segundo
os japoneses, tem o gosto do primeiro amor, pois à sua
doçura acrescenta um ressaibo levemente acidulado. Uma
romântica bebida, que não contém álcool, que não embriaga,
mas refrigera e consola o coração.
As moças que andam em volta da mesa, como pássaros
próximos e coloridos, levam e trazem, por entre
suaves sorrisos, novas tigelas, em suas pequenas bandejas
individuais. Parece que todos os peixes do mar desfilam,
em apresentação delicada, nesse espetáculo
poético que é a culinária japonesa. E vem o rubicundo
camarão cozido, com sua armadura de coral; e há fatias,
rodelas, tiras - barbatanas? cartilagens? - de outros
produtos marinhos que só os entendidos sabem logo
distinguir, com um simples olhar.
A certa altura, as lindas moças trazem sopa de ovo e,
mais adiante, pratos com frutas, onde os bagos de uva,
esverdeados e transparentes, brilham com seu ar de
pedra preciosa ao lado da rubra melancia de polpa cintilante
e do caqui descascado e dividido em quatro partes,
pois, segundo soube mais tarde, é nesse ponto de
amadurecimento, ainda nâo convertido naquele deleitoso
creme que os ocidentais apreciam, que o caqui
é verdadeiramente elegante e digno de ser oferecido aos
convivas.
Não falo da louça, da ornamentação da comida -
uma folha de salsão, aqui; um talo de gengibre avermelhado,
acolá; pedacinhos de cenoura cavada recheados
com molhos imprevistos... -, não falo do chá
que se vai bebendo em chávenas sucessivas, fugindo à
realidade, voando pelo sonho... Não falo do rosto das
moças, com um suave polimento de marfim, onde os
olhos são de ônix negro. Nem falo das suas vozes, que
quando cantavam - pois também cantavam! - era
como se saíssem de seus breves lábios muitas flores e
borboletas. Falavam de cerejeiras, falavam de neve. Era
muito doce, mas também talvez um pouquinho acidulado
como aquela bebida branca que tem o gosto do pri-
meiro amor...
168
OUTRO NATAL
Cerca de seiscentos anos antes de Cristo, na fndia distante,
uma rainha depois de vários sonhos significativos,
interpretados por inúmeros sábios, teve um filho que
recebeu o nome de Siddhartha. Muitas coisas miraculosas
aconteceram então. E de uma das montanhas do
Himalaia desceu um homem santo que tomou o menino
nos braços e profetizou que ele seria um Buddha,
isto é, um Iluminado. Disse mais: se ele ficasse no seu
reino, seria um grande monarca; mas, se partisse pelo
mundo, seria um grande Mestre da humanidade.
O rei fez tudo para cercar a príncipe de coisas e
pessoas amáveis, e satisfazer-lhe todos os desejos. O príncipe
cresceu, estudou, casou-se, participou de muitas
festas, e o rei desejava que a sua sorte fosse a de um
monarca feliz, entre vassalos felizes.
Mas uma vez, passeando na sua carruagem, o príncipe
encontrou no seu caminho um velho, que a idade
empobrecera e enfraquecera, e que lhe estendeu a mão,
pedindo uma esmola. E Siddhartha aprendeu que todos
os homens, com o tempo, podiam chegar àquela triste
situação. Grande foi a sua tristeza, qua o rei tentou
atenuar com festas e distrações. Mas o príncipe encontrou,
a seguir, um homem doente, que gemia, caído na
estrada; e mais tarde viu mulheres que choravam acompanhando
um enterro. Mas um dia encontrou também
um homem de cabeça raspada, vestido de roupas simples,
que pedia um pouco de comida numa tigela. E
soube que aquele homem abandonara o mundo, dera
aos outros o que possuíra, e vivia apenas de esmolas.
Esse último encontro foi decisivo para a sua vida. "Farei
como este homem. Abandonarei o que é meu. Irei
pelo mundo afora. Terei paz de espírito. E ensinarei a
humanidade a vencer as desgraças da vida."
Sofreu muito para deixar o palácio, pois acabava de
nascer o seu primeiro filho. Nem se despediu da princesa,
para não a despertar. Partiu com um criado fiel;
e diz a lenda que ninguém ouviu os passos do seu cavalo
porque os deuses haviam juncado o chão de flores,
para ensurdecê-los. Siddhartha encontrou o Demônio,
ao sair da cidade. O Demônio aconselhou-o a não partir:
dentro de sete dias, dar-lhe-ia todos os reinos deste
mundo, para que ele os governasse. Mas o príncipe respondeu-lhe
que não queria bens terrenos; queria apenas
ser um Buddha, um Iluminado, para poder tornar
felizes todos os homens. E o príncipe procurou entender
o mundo, conhecer a Verdade, a causa do sofrimento
e a maneira de acabar com o sofrimento. E começou
a ensinar a alguns discípulos maneiras corretas
de viver: saber crer, ter altos objetivos, falar com benevolência,
ter uma conduta perfeita, uma profissão
honesta, ser perseverante na bondade, usar dignamente
da inteligência, saber meditar.
Já era, então, um Iluminado. Praticou e ensinou largamente
o bem, não apenas entre os homens, mas também
para com os animais. Sua doutrina foi a da não-
violência. E seu prestígio dilatou-se pela terra e da
lndia passou para o Extremo Oriente, e hoje, até no
Ocidente, seu nome é venerado com amor e respeito.
Em Ajanta, na India, à mar em de um curso d'água
de que vi apenas o leito, alinham-se as várias capelas
de um antiqüíssimo mosteiro budista. Tudo cortado na
pedra e recoberto de pinturas que se tornaram célebres,
Essas grutas, hoje vazias, são apenas um dos grandes
monumentos de arte da fndia. Mas a doutrina do Buddha
impregnou o coração das criaturas, e naquele lado
do mundo nem os passarinhos fogem com medo dos
homens.
Agora há pouco, assisti em São Paulo, num templo
budista, à comemoração do nascimento do príncipe
Siddhartha. Uma cerimônia simples, com recitação e
canto em japonês, uma breve palestra em português,
alguns slides sobre a história do Buddha. Numa espécie
de pequeno andor, enfeitado de flores e colocado
no meio da sala, havia uma pequena imagem do
Buddha. De cada lado, um recipiente com chá. Os fiéis,
a certa altura da cerimônia, faziam uma reverência ao
jovem príncipe, representado não na postura consagrada
de Iluminado, mas de pé, e vertiam sobre a sua
imagem uma colher de chá, como alusão ao seu primeiro
banho. A atmosfera, simples e cordial, recendia aos
incensos que, no Oriente, sâo usados em quase todas
as cerimônias.
E, entre estes dias tumultuosos, pesados de ambições
e violências, comovia-me assistir àquela celebração de
aniversário de um príncipe que há cerca de dois mil e
quinhentos anos abandonou todas as suas riquezas para
ensinar aos homens o caminho da felicidade, que é o
da sabedoria. Tão longe, no espaço e no tempo, ali se
festejava o seu nascimento. Ali se renovava a esperança
de um constante aperfeiçoamento do homem em
seus pensamentos, sentimentos e atos. De uma disciplina
espiritual. De uma vontade efetiva de ser melhor. A fumaça
do incenso perfumava esses sonhos, e levava-os
para o céu.
171
CONVERSAS ANTIGAS
DE FIM DE ANO
- Teria sido Juvenal que cortou todos esses ramos de
mangueira?
- Não: eu creio que Desidério ajudou. Ele sozinho
não podia fazer todo o serviço.
- Desidério é horrível, não é? Tem um nome tão
feio, tão feio... E ele parece um homem fantasiado de
urso, não parece?
- Não acho, nâo. Desidério não é bonito. Mas eu
gosto do nome dele. E tudo que ele faz é bom. Viva o
Desidério!
- Que menina insuportável. Isso é hora de dar vivas
a alguém?
- Não. A ninguém. Só ao Desidério, que ajudou
Juvenal a cortar os ramos de mangueira!
(O pátio da escola está juncado de folhas. Sente-se
um cheiro delicioso como se agora se habitasse dentro
das árvores: um cheiro de seiva úmida, viva, quente. O
palco também está juncado de folhagem e passam festões
de folhas de um lado para outro, na parte de cima, ;
entremeados a fitas verdes e amarelas.)
- Julinha! Zuleica! Mas que vestidos bonitos vocês
têm! Como brilham! Que fazenda é essa?
- A fazenda não sei como se chama: deve ser nanzuque
ou mol-mol. Minha mãe é que sabe.
- Mas, por baixo, temos sombras de cetim.
- Ah! e as rendas. . .
- As rendas são estrangeiras.
- Tão bonitas!
- O seu vestido é o mesmo da última festa, não é?
- o mesmo. No ano que vem terei um novo. Não
me importo com isso. Estava ficando curto, minha avó
abaixou duas pregas. Mas a minha faixa é nova. Também
é estrangeira. Eu gosto muito da franja, não é
linda?
- Julinha! - Zuleica! Vamos dar uma corrida até
o portão!
- Eu não posso. Meu vestido é muito fino.
- Eu também não. Meu sapato é novo e está um
pouco apertado. ruim sapato apertado, não é?
- E, faz bolhas no calcanhar.
- Está uma beleza, a escola. Tudo coberto de folhagem
de mangueira. Até dá um pouco dor de cabeça.
A senhora não vai logo à festa?
- Não, os meus filhos estâo em escola particular.
- E aprendem muito?
- Aprendem alguma coisa: e os seus?
- Oh! os meus estão adiantadíssimos. Nem gostam
de livros; mas sabem tanto que meu marido fica admirado.
A maiorzinha até vai cantar hoje uma cantiga em
japonês!
- Em japonês!
- Sim, senhora. Tem quimono, tamanquinhos, flor
na cabeça, um leque enorme e canta Chon kina chon. . .
- Chon kina chon? Que é que isso quer dizer?
- Ah! não sei, mas é uma beleza. Ela canta virando
o leque por cima deste ombro, por cima do outro. Todo
mundo bate palmas!
- Julinha! Zuleica! Não podemos ficar juntas! Que
pena! Cada um tem de ir para a sua fila! Por que você
está triste, Julinha?
- Minha mãe vai ficar zangada: puxaram-me pelo
vestido, e olhe a renda como ficou!
- É mesmo! E Zuleica? Também rasgou o vestido?
- Não: eu não posso pisar com estes sapatos! Nâo
posso andar! Não gosto de sapatos novos!
- Oh! mas já vai começar a festa. Vocês viram que
porção de prêmios nós vamos ganhar?
- Ah! eu não vou ganhar nenhum.
- Eu também não.
- Como é que .vocês sabem?
- Pelas notas.
- Você não ouviu a professora dizer que nós tínhamos
estudado muito pouco?
- Ah! não ouvi.
- Já começaram a tocar o hino? As crianças já vâo
cantar?
- Creio que ainda não. É alguém que está experimentado
o piano. Parece que aqui na escola há uma
menina que é um gênio, como pianista.
- Então vamos prestar atenção. Pode ser ela.
- A senhora viu aquela meninazinha amarela que
recebeu uma porção de prêmios? Não tem pai nem mãe.
Estuda tanto, sabe tanto, que é a melhor aluna da
escola.
- Qual é? Aquela ali?
- Aquela mesma. O vestidinho dela já nâo é novo:
mas está muito bem engomado.
- Esses babados de bordado inglês são muito vistosos.
- E viu que faixa bonita ela traz à cintura? Deve
ser francesa. A faixa é nova.: Não há outra igual em
toda a escola.
- Parece que eIa nem se importa com isso! Não
está vendo? Sentou-se num galho de mangueira que estava
tava no chão, e está roendo um biscoito, como quem
nem sente o gosto; e com a outra mão vai folheando
um dos livros que recebeu. Olhe quantos lhe deram:
um, dois, três, quatro...
- São bonitos, não são, esses livros vermelhos de
beira dourada?
175
FIM do LIVRO
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