Get your own free workspace
View
 

O que se Diz e o que se Entende de Cecília Meireles

    O QUE SE DIZ E O QUE SE ENTENDE

    CECÍLIA MEIRELES

    *

    Orelha do livro:

    Como alguns outros poetas brasileiros - entre os quais se destacam

Drummond, Bandeira, Mário Quintana - Cecília Meireles não limitou seu trato

com a palavra à construção de versos. Autora de livros infantis, de artigos

até hoje importantes sobre educação, Cecília dedicou-se com igual entusiasmo

à crônica. Sua produção, nesse setor, é quase tão extensa quanto a poética,

e não se limitava a jornal: divulgava-a também pelo rádio.

    Ora, se ainda se precisa de uma'prova'a respeito do'senso de participação' de Cecília (há quem

considere sua poesia excessivamente inefável, desligada da realidade, exceto a

'exceção honrosa' de O Romanceiro da Inconfidência), sua atividade de cronista

é mais do que suficiente para destruir qualquer dúvida.

    O que se Diz e o que se Entende reúne, nesse aspecto, a prosa mais incisiva

de Cecília. Aquilo que em sua poesia assume, em geral e de modo inevitável, um

sentido implícito, aqui se desdobra em testemunho da artista comprometida com

todas as dimensões da vida que a cerca: a social, a política, a cultural e,

quase profeticamente, a ecológica. Textos sobre a destruição da natureza nas

grandes cidades em função de um falso desenvolvimento urbano, ou sobre a

drástica redução da linguagem na fala cotidiana sob pretexto de melhor'se

comunicar', adquirem sem abrir mão da elegância e da delicadeza típicas de seu

estilo, força de manifesto. Assim também, a nostalgia, certo saudosismo, não

de todo isentos de amargura e desconsolo, funcionam como elementos de crítica

de situações de injustiça e opressão, tanto no plano individual quanto no

social, mas não se fechando na contemplação de um passado reduzido à sua inútil

memória. Pelo contrário, a 'recordação' é, paradoxalmente, utópica. Serve como

parâmetro para o que as pessoas deveriam ser.aqui e agora, caso se quisessem de

fato felizes e equânimes consigo e com os outros. Por outro. lado, fica mais

uma vez claro que a consciência social de qualquer artista não depende da sua

ideologia, das suas crenças, das suas posições. Esta consciência se concretiza

na linguagem que ele constrói. No caso do escritor, isso se traduz no modo como

ele tenta desvendar, pela palavra, os mecanismos, íntimos ou coletivos, que

desfiguram o homem em sua liberdade. Ora denunciando, ora celebrando; agora em

júbilo, imediatamente depois atingindo as fronteiras de uma solitária

desesperança, esses textos de Cecília estão entre os melhores momentos de

sua criação e de nossa literatura.

                   CECÍLIA MEIRELES

                    O QUE SE DIZ

                 E O QUE SE ENTENDE

                     (Crônicas)

               Editora Nova Fronteira

                      SUMÁRIO

Cotidiano, nostalgia e transcendencia 11

    O QUE SE DIZ E O QUE SE ENTENDE

Ano muito bom                         17

Carta para Andrômeda                  20

Patinação                             22

Lamento pela cidade perdida           25

Férias na Ilha do Nanja               27

A moça do Silogeu                     29

Contrabando e magia                   31

Sabiás românticos                     34

Meus "orientes"                       36

Os anjos de papel couché              39

Jantar à luz de vela                  42

Fantasmas                             44

Caligrafia poética e risonha          46

"Oi da prata e do ouro. .."           49

Descobrimento do anjo da guarda       52

Tunho antigo                          54

O que se diz e o que se entende       57

Luzes da terra e do céu               59

Antiguidades                          61

Súplica por uma árvore                63

Inverno                               65

Semana Santa                          68

As vinte e duas horas                 71

História quase macabra                73

Lembrança de Abhay Khatau             76

A arte de não fazer nada              79

Carnaval do Rio                       82

Rabindranath,  pequeno  estudante     84

Dia de sol                            87

Não creias nos teus olhos             90

Festa                                 93

Escola de bem-te-vis                  95

Centenário de Okakura Kakuzo          98

Chegada da Primavera                  100

Querida música                        102

Canções  de  Tagore                   105

Tédio de comprar                      107

Da gula bem temperada                 109

Os saltimbancos                       112

Jardins                               115

O tempo e os relógios                 118

Aragem do Oriente                     121

Flores da Caçulinha                   124

O estranho festim                     127

A cor da inveja                       130

Oradores e cães danados               133

Figuras de  Marken                    136

Curso completo                        139

Por falarmos de chá...                142

A propósito de Vila-Lobos             144

Considerações  acerca da goiaba       146

Três livrinhos antigos                148

O  aniversário de Gandhi              150

Liçôes de botânica                    154

Juvenal                               157

Marine Drive                          160

O  Gurudev                            163

Hora japonesa                         166

Outro Natal                           169

Conversas antigas de fim de ano       172

    COTIDIANO, NOSTALGIA

      E TRANSCENDÊNCIA

 

    Numa primeira impressão, o mundo visto por Cecilia Meireles é exemplo de

incompreensão, transtorno e desacerto. O trato humano é de dificil realização:

o que se diz não é o que se entende; a avaliação das coisas e de nosso

comportamento se faz por parâmetros não coincidentes; divergem as pessoas no

grau de sensibilização aos matizes afetivos. Várias crônicas deste livro

registram, às vezes sob leve ironia, a inquietação de Cecilia Meireles em face

da dificuldade de se conciliarem os mecanismos da compreensão no mundo moderno.

Na alegoria de "Os Saltimbancos", em que o fantástico do relato dramaticamente

acentua a convulsão da ordem social, ou numa parábola como "Escola de Bem-te-

vis" em que a economia da linguagem, à medida que se sucedem as gerações,

atinge o extremo da usura, percebemos, sob a inquietaão de um texto ou sob a

ironia de outro, o espirito do cronista sensivel aos problemas de transtorno

da ordem social e desentendimento dos homens em suas diferentes escalas de

relacionamento.

    A ruptura com o bom senso, a aderência às coisas de um musgo nocivo que

lhes corrompe antigos valores, levam o cronista à reflexão sobre um tempo

superado, ou em mudança, em que essas mesmas coisas guardavam entre si outra

relação e os seres humanos conviviam segundo uma ordem que não excluia

impregnação afetiva. Certo saudosismo, assim, aflora da mirada retrospectiva,

acentuando a oposição presente/passado: a cidade antiga, imagem de graça e

còrdialidade, só se recupera nos espelhos da memória; a estátua sobranceira

aos jardins e ao mar nos dá, mesmo à véspera de sua demoliçâo, o derradeiro

ensinamento, iluminando, com o archote que levanta nuina das mãos, o mundo

sobre o qual a outra pousa, protetora. E houve um tempo em que mesmo a prática

do comércio envolvia, em sua comunicaçâo amistosa, uma Iição de cordialidade e

ensinava a admirar as coisas também pelo lado estético e venerável, belas e

antigas que eram.

    A confrontação entre certa instabilidade moderna e a afetividade de outrora

leva o cronista a um recuo maior no tempo, e faz aflorar na memória o instante

lirico da infância, na qual simbolicamente se insere a imagem da babá Pedrina.

Da boca da pajem negra lhe viriam à criança não só as lições do mundo, sob

forma sincrética de superstições, tabus e encantamentos, como a descoberta do

sistema de dualidades que rege todas as coisas: vida/morte, realidade/fantasia,

terrenal/transcendente. O espaço do entendimento infantil será magicamente

ocupado por bandas e coretos, fantasmas. bêbados noturnos, e figuras que deixam

na vida da criança a marca de sua presença lirica ou afetuosa.

    A evocação nostálgica de outros instantes ou a comparação de costumes de

hoje e de ontem não abafam, entretanto, no cronista, a capacidade de apreender

fatos, circunstâncias e situaçôes do cotidiano, alternando-se ironia e ternura

nos registros. No processo de seleção das crônicas deste livro, houve uma firme

intenção de se mostrar o interesse de Cecilia Meireles tanto pelos episódios

miúdos do dia-a-dia quanto pelas questões de natureza ética ou pelos problemas

que tangenciassem os limites extremos do humano. Esses episódios - experiências

vividas ou sabidas -, ora grotescos, ora densamente humanos, exemplares alguns,

outros cercsuráveis, tecem a rede do cotidiano de todos nós, à qual o cronista,

por condição, não poderia estar alheio.

    Em meio ao registro de circunstâncias que fazem o recheio da vida; junto à

consideração nostálgica de antigas impressões ou ao fluxo lirico do discurso,

levanta-se neste livro outra ordem de textos: a daqueles em que Cecilia

Meireles fixou a tendência orientalistica de seu espirito, a natureza

contemplativa de seu ser e, de certo modo, a leve inquietação de

transcendência, permanente motivo de sua vida e de sua arte. Da exaltação dessa

cultura oriental - da indiana, especialmente, com que afinava por natureza -

recolhem-se, pois, alguns textos que hão de servir como pontos de referência no

roteiro espiritual de Cecilia: uma 'aragem' que sintetiza os seus vários

"orientes" e se faz Iição de vida.

                                 Darcy Damasceno

    13

    ANO MUITO BOM

Certa noite de 31 de dezembro, éramos um grupo de pessoas mais ou menos

estranhas umas às outras, que voávamos juntas para a india. Nossas relações

de conhecimento, muito vagas, datavam apenas de horas. Nossa história comum

limitava-se à contemplação de algumas imagens inesquecíveis: o Mediterrâneo,

as pirâmides, imensos desertos pálidos, golfos que o sol coloria com tintas

orientais e, finalmente, o céu que fora tão grande e parecia pouco a pouco

reduzir-se em sombra, e ficar do nosso tamanho, do tamanho das nossas pequenas

vidas ali suspensas, com seus mistérios, esperanças e medos.

    Eramos pessoas de variados lugares, viajando por variados motivos. Algumas,

imersas em leituras edificantes; outras, distraídas com livros fúteis. Umas

dormitavam cansadas; outras, que se aferravam ao noticiário de seus jornais,

embora esses jornais e essas notícias fossem ficando a cada instante muito mais

longe e como sem efeito para os viajantes do céu. E algumas que se entregavam

sossegadas ao seu destino, mascando esses grãos e sementes com que os dentes

vâo entretendo, resignados, a passagem do tempo.

    Éramos também pessoas de sonhos aparentemente diversos: bons indianos que

regressavam, a seus lares; europeus preocupados com pesquisas de arte e

ciência; gente que ruminava negócios muito complexos; gente que refletia sobre

a maneira de tornar o Oriente e o Ocidente reciprocamente inteligíveis. Havia

de tudo: como convém a uma viagem mais ou menos mitológica. A minha rósea

vizinha americana, de sandálias douradas, quando alguém Ihe perguntou o que

ia fazer por aqueles lados, respondeu com naturalidade que ia passar a noite

dançando em Bombaim. E a aeromoça, com seus trajes de anjo, passava por entre

esses sonhos tão desencontrados distribuindo equitativamente sementes e balas,

enquanto a rósea americana começava a perfumar-se toda, porque Bombaim era uma

realidade cada vez mais próxima.

  O ano, porém, chegava ainda mais depressa que Bombaim. E em dado momento

soubemos todos que, malgrado as extravagâncias dos relógios, era meia-noite,

entre as estrelas e o mar.

    Para os que tinham deixado sua casa no Ocidente; essa meia-noite se enchia

de repente de recordações e saudades. Estrondos de bombas, cascatas cintilantes

de fogos de artifício, ondas de música, repiques de sinos, rostos amados,

cartões de Boas restas, e, em redor das ceias tradicionais, vozes antigas,

vozes recentes, vozes graves, vozes humildes, dizendo frases de amizade que na

terra, de tão repetidas, parecem banais, mas, naquela altura, inesperadamente

se tornavam miraculosas, com toda a sua potência de felicidada.

    Com pequenas alterações, todos levávamos no coraçâo essa velha herança

romana de doces ofertas de tâmaras; figos, mel, a antigos deuses que

desejaríamos eternamente propícios. Com o mesmo gesto das mâos contemporâneas,

entrevíamos em sonho mãos antiqüíssimas trocando presentes amistosos. E sobre

as festividades pagãs, o Menino Jesus, num outro plano, recebia a Circuncisão.

Tudo isso levávamos conosco: início da vida, início das eras: uma união total,

uma infinita alegria.

    E a aeromoça, de belíssimos olhos, abria e fechava as asas do seu sári

azul servindo-nos suas pequeninas oferendas. E o comandante vinha participar

da festa, que era ao mesmo tempo de começo e de fim.

    E de repente vimos que estávamos todos de mãos dadas, e todos formulávamos

nossos votos mútuos, cada um na sua língua, todos num idioma comum de esperança

e ternura.

    Foi assim que, entre um ano e outro, uma noite, entre o céu e a terra, o

Oriente e o Ocidente estiveram unidos simbolicamente, num fervoroso abraço.

    O dia seguinte foi belo, colorido, bizarro, como são todos os dias da

India. Mas lá o ano nâo começa em janeiro em todos os calendários. O primeiro

dia do ano lunar, o Gudi Parwa, é na primavera. Há grandes festas, e quem

mastigar folhas de nim, nesse dia, terá saúde o ano inteiro. Mas a coisa mais

bela é que nesse dia ninguém pode falar com violência e são proibidas todas as

manifestações de cólera. Ano bom, verdadeiramente! Quem o pudesse conservar

assim, recomeçando-o do mesmo modo todos os dias!

    19

    CARTA PARA ANDRÔMEDA

Acabo de ouvir que na via-láctea, próximo a Andrômeda, ou nessa mesma nebulosa,

existe um povo sobrenatural que deseja ardentemente entrar em comunicação com

os habitantes da Terra. Esse povo é dotado de uma civilização adiantadíssima,

e vê (e compreende e perdoa, naturalmente) o que estamos fazendo, neste triste

chão, nós, subdesenvolvidos mortais. Não é preciso, pois, mandar contar para

Andrômeda o que vamos curtindo neste mundo, não só por sermos os pobres mortais

que somos, mas sobretudo por nos estarmos tornando muito piores do que devíamos

ser. Tudo isso de Andrômeda é limpidamente visível: de lá, somos vistos como

uns pequenos monstros, por essas gaiolas de vidro dos arranha-céus.

Desconfio mesmo que sejamos vistos também por dentro, malgrado as vidraças

opacas dos nossos corpos. E os habitantes da via-láctea, magnânimos como

certamente saio, devem sentir tanta pena de nós, como nós devíamos sentir

vergonha, ante os seus olhos, ou a sua sensibilidade, ou os meios de que dispõem

para nos perceberem de tão longe. (Creio que muitos séculos-luz.)

    Ora, eu queria escrever esta carta para Andrômeda, embora, na sua

sabedoria, esse povo seja capaz de surpreender todas as intenções nossas,

porque a Terra é tão grande, e eu sou tão pequena que é natural que os de

Andrômeda estejam mais interessados nos condutores do mundo, nos chefes, nos

poderosos, e não nos cronistas como nós..

    O que eu queria dizer aos de Andrômeda é que passo a dirigir toda a minha

atenção aos seus apelos, que acredito na possibilidade do sobrenatural, que não

me resigno a esta presente condição humana, que peço todo o auxílio desses

anjos da via-láctea para que nos venham salvar, como Perseu, um dia, salvou

aquela que, exposta a um monstro marinho, teve afinal seu nome escrito nesses

caminhos brancos do céu.

    Por serem mais perfeitos que nós, os de Andrômeda devem estar mais

próximos de Deus. E estamos com tamanha falta de Deus, e tanta dificuldade de

encontrá-lo que os de Andrômeda devem procurar chegar imediatamente a todos

nós, senão em veículos espaciais, em veículos espirituais e invisíveis, que

cheguem a cada um em particular e acordem o que aínda existe de divino neste

caos em que a humanidade foi precipitada.

    Entre a beleza de sua mãe, Cassiopéia, e a coragem de seu esposo, Perseu,

Andrômeda é um símbolo de salvação do martírio. ó vós, os de Andrômeda, vede

como estamos sendo martirizados por estes séculos duros, por estes séculos

impiedosos, em que a ciência e a riqueza não podem lutar contra a ferocidade!

Apressai-vos, que vos necessitamos muito! Trazei-nos o vosso exemplo, a vossa

inspiração, dai um estímulo aos que se inclinam para a decadência, e redobrai

a força dos que não se querem abandonar a um destino inferior ao do homem!

Povos da via-láctea, tende pena dos que ficaram neste mundo perpetuando as

atrocidades dos velhos mitos!

    21

    PATINAÇÃO

O  admirável não é apenas que as roupas sejam tão belas, que os movimentos se

desenvolvam com tanta harmonia: o admirável, principalmente, é que tudo isso

deslize sobre patins. As figuras vêm de longe, velozmente, mas numa velocidade

suave, silenciosa e feliz. Devíamos andar assim no mundo. Nossos trajetos

deviam cruzar-se desse modo: sem choques nem pausas, com um desenho de

cortesias que se entrelaçam delicadamente. E vem a ser justamente a mais

adequada ao conjunto, como se a submissão à lei não lhe diminuísse o valor

próprio mas, ao contrário, o salientasse e lhe revelasse imprevistos aspectos.

    Alguma coisa fugidia, apaixonada de distância e mistério existe no nosso

coraçâo, pela delícia que nos causam os movimentos dos patinadores retirando-se

implacável e sutilmente, como um som que gradativamente se apaga, uma estrela

que, inexorável, desaparece. Os patinadores vão sendo levados, num tempo mais

profundo que o do seu bailado, absorvidos pelo ímã do horizonte, inalcançáveis

e íntegros como deuses.

    Alguma coisa também deve existir em nós atraída pela resposta do eco,

ansiosa de repercussões e espelhos, para nos encantarmos com os patinadores

que se acercam e reconhecem e combinam seus abraços com esse perfeito ritmo

em que confundem e recuperam sua unidade, aproximando-se e separando-se, livres

e prisioneiros, deixando que se cumpra com rigor e graça a parábola de seus

encontros e desencontros.

    Pensa-se gue isto é uma distração frívola, e está-se diante da verdade do

mundo, iluminado de outro modo, com algumas pessoas interpretando esta vida de

cada dia, apenas alegoricamente.

    Alguma coisa deve existir em nós que se recusa a andar levitando entre as

douradas estrelas: que ainda não se desprendeu totalmente da selva, da burla,

do árido ensinamento do chão. Porque deste modo nos regozijamos com as presenças

grotescas, e as formas inseguxas, e o medo e o risco, a aventura talvez inábil

do gesto incerto... Pode ser que não sejamos sempre desmesuradamente líricos:

um prosaísmo pesado, espesso, talvez compense em banalidades rasteiras o ímpeto

com que, outras vezes, nos atiramos a altas e inquietantes expedições. . .

    Mas é tudo sobre patins, num abrir e fechar de olhos, sem que mais nada nos

detenha, porque já partimos, seguimos, continuamos, estamos sendo levados, pela

nossa vontade e pela fatalidade deste escorregar por uma superfície gelada.

    Alguma coisa em nós deseja a solidão, a companhia da própria sombra,

apenas, para assim nos emocionarmos com o dançarino isolado que se debruça

para o seu reflexo, que em si mesmo se encontra, seus pés unidos

perpendicularmente a seus pés, e assim vai, e volta, e não volta, fazendo o seu

caminho no vazio, inventando um itinerário e uma direçâo.

    Mas alguma coisa nos atrai para o convívio e o colóquio, pois assim nos

alegramos com a multidão festiva que se reúne e desdobra numa infinita

coreografia, toda cintilante e entusiástica, depois de tantas provas

acrobáticas, de tantas evoluções e tantos e tão variados arabescos.

    Sobre patins. Com essa rapidez que desejaríamos ter, que o nosso

pensamento, o nosso coração desejam, e este nosso corpo fatigado não consegue

possuir. Sobre patins. Num mundo sem esquinas, sem acidentes, comtis èspaços

oferecendo-se á nossa passagem, e todos nós, cordiais e puros, realizando em

sua plenitude o ideograma da nossa vida na clara página da existência. Sobre

patins. Com a disciplina fluida de cada instante, de horizonte a horizonte,

sem erro, temor nem desfalecimento!

    24

    LAMENTO PELA CIDADE PERDIDA

Minha querida cidade, que te aconteceu, que já não te reconheço? Procuro-te em

todas as tuas estensões e nâo te encontro. Para ver-te, preciso alcançar os

espelhos da memória. Da saudade. E então sinto que deixaste de ser, que estás

perdida.

    Ah! cidade querida, edificada entre água e montanha, com tuas matas ainda

repletas de pássaros; com teus bairros cercados de jardins e pianos; com tuas

casas sobrevoadas por pombos, eras o exemplo da beleza simples e gentil. De

janela a janela, cumprimentavam-se os vizinhos; os vendedores, pelas ruas,

passavam a cantar ; as crianças eram felizes em seus quintais, entre as

grandes árvores; tudo eram cortesias, pelas calçadas, pelos bondes, ao entrar

uma porta, ao sentar a uma mesa.

    Bons tempos, minha querida cidade, em que éramos pobres e amáveis! Sabíamos

ser alegres, mas não tanto que ofendêssemos os tristes; e em nossa tristeza

havia suavidade, porque éramos pacientes e compreensivos. Acreditávamos nos

valores do espírito: e neles fundávamos a nossa grandeza e o nosso respeito.

Mesmo quando não tínhamos muito, sabíamos partilhar o que tivéssemos com amor

e delicadeza. Passávamos pelo povo mais hospitaleiro do mundo, mas esquecíamos

a fama, para não nos envaidecermos com ela.

    Ah! cidade querida, tinhas festas realmente festivas, com sinos e foguetes,

procissões e préstitos, comidas e doces tradicionais. Continuávamos o passado,

embora caminhando para o futuro. Tínhamos carinho pela nossa bagagem de

lembranças, pela experiência dos nossos mortos, que desejávamos honrar.

Prezávamos tanto os nossos avós como desejávamos que viessem a ser prezados os

nossos filhos. Éramos elos de uma corrente que não queríamos, de modo algum,

obscurecer. Éramos modestos e cordiais, sensíveis e discretos.

    E eis que tudo isso, que era a tua virtude e o teu encanto, desapareceu de

súbito, porque uma ambição de grandeza e riqueza toldou a tua beleza tranqüila.

Como resistiriam os pássaros e as flores aos teus agressivos muros de cimento

armado? E os jovens, bruscamente desorientados? Ah! não se pensou nisso...

    E assim, minha querida cidade, a juventude tem perdido a generosidade, a

maturidade tem  esquecido sua prudência, e a velhice sua sabedoria: todos aqui

têm ficado menores, e meio pobres, à medida que aumentam a tua riqueza e a tua

grandeza. E então eu me pergunto que grandeza, que riqueza são essas que fazem

diminuir e empobrecer os teus habitantes. Que fundamento funesto existe nessa

riqueza e nessa grandeza que, à sua sombra, os homens se tornam mesquinhos,

perversos, ardilosos de pensamento e ferozes de coração.

    Ah! cidade querida, bem sei que tudo isto foi feito por aqueles que nâo

te amaram: os que não te entenderam nem protegeram. Mas, prisioneira agora de

tantas emboscadas - poderemos ainda salvar-te? arrancar-te às falsidades em que

te enredaram? restituir-te o antigo rosto, simples e natural, onde beleza e

bondade se confundiam? Poderemos tornar a ver-te, cordial e afetuosa como

foste, sem pecados e crimes em cada esquina - sem este peso de egoísmo e

vaidade, de cobiça e de ódio que hoje toldam e enegrecem a tua verdadeira

imagem?

    26

    FÉRIAS NA ILHA DO NANJA

Meus amigos estão fazendo as malas, arrumando as malas nos seus carros, olhando

o céu para verem que tempo faz, pensando nas suas estradas - barreiras, pedras

soltas, fissuras - sem falar em bandidos, milhôes de bandidos entre as

fissuras, as pedras soltas e as barreiras... Meus amigos partem para as suas

férias, cansados de tanto trabalho; de tanta chuva e tanto sol; de tantas

notícias ruins; de tantos colegas, chefes e  subalternos incompetentes;

de tanta luta com os motoristas da contramâo; de tanta esperança, de tantas

decepções; enfim, cansados, cansados de serem obrigados a viver, numa grande

cidade, isto que já está sendo a negação da própria vida.

    Pois meus amigos lá se vão, de camisa nova, muito cuidadosos e escanhoados,

fazendo todos os sinais possíveis e adequados para não receberem nenhuma

pancada que detenha o seu plano de viagem antes do primeiro cruzamento.

    E eu vou para a Ilha do Nanja.

    Termas? Pois as termas são ao ar livre, com emanações vulcânicas a subirem

do chão por mil furinhos invisíveis, enquanto se ouve a grossa voz do fogo

subterrâneo contar histórias do princípio do mundo. O ar está cheio de nuvens

sulfurosas; e as crianças brincam de fazer comida nas pocinhas do chão. onde a

água ferve.

    Sossego? A beira das lagoas verdés e azuis, o silêncio cresce como um

bosque. Pelos caminhos, passam carros de bois, carros de vime, como cestos

enormes; o carreiro vai andando tranqüilamente, como em sonho, ao lento ritmo

dos animais: - é - um desenho - ciássico bojo da tarde límpida.

    Poesia? As moças cantam em seus teares, em suas casas de pedra; dançam e

cantam nos terreiros e pátios, danças e cantigas de outras épocas, sem saberem

que aquilo se chama folclore. Os homens tocam e cantam pelas ruas, em dias de

festa; e em dias de festa as ruas sâo atapetadas de flores por onde passam

procissôes que cantam.

    A Ilha do Nanja amanhece toda azul com sol claro e passarinhos no ar; de

repente, tudo desaparece, uma névoa cinzenta envolve montes e praias; saltam

gotas de chuva por todos os lados, como um súbito brinquedo de cristal. A névoa

já não existe. Existem nuvens brancas cobrindo e descobrindo o sol. Então, vem

o vento, desce das nuvens, passa pelas árvores, sobe para as nuvens, e nesses

jogos se passa o dia inteiro: não há maior distração, na Ilha do Nanja, que

contemplar as inconstâncias do céu.

    Eu vou para a Ilha do Nanja para sair daqui. Passarei as férias lá. Nem

preciso fechar os olhos: já estou vendo os pescadores com suas barcas de

sardinhas, e a moça à janela a namorar um moço na outra janela de outra ilha!

    28

    A MOÇA DO SILOGEU

Quando os senhores passarem ali pelo Passeio Público, não deixem de olhar -

a certa distância - para o alto do Silogeu, e de dizer adeus à moça que ainda

está sentada lá em cima, protegendo com a mão esquerda o globo terrestre, e

levantando, na direita, uma pequena chama - que parece uma rosa.

    Enquanto Teixeira de Freitas recolhe em sua toga o vento que vem das águas

e Deodoro saúda o horizonte republicanamente, a moça do Silogeu espera que a

retirem dali, que a derrubem, que a destruam! - e é por isso que os senhores

lhe devem dizer adeus, com a possível ternura.

    Sua casa era aquela, de uma cor violeta, que o sol às vezes tornava rósea,

que a sombra às vezes tornava azul. Nessa mansão tornassolada, de arquitetura

tranqüila e maternal, reuniram-se academias, institutos, pessoas ilustres,

dedicadas aos mais nobres estudos literarios e científicos: que outro nome lhe

podiam dar senão o de Silogeu?

    E então, no alto, puseram aquela moça, com a mão esquerda sobre o mundo e

a direita segurando um archote: uma pequena chama, que parece uma rosa.

    A princípio, ela avistava apenas o mar, as montanhas, a copa das árvores.

(Issa foi há cerca de meio século.) Depois, a praia foi mudando de aspecto,

surgiram construções novas, estátuas, monumentos. E uma grande velocidade se

desenvolveu pelas ruas em redor. A moça, porém, continuava, acima de todas as

mudanças, a proteger a imagem do mundo com uma das mãos e a iluminá-lo com a

outra.

    Mas, como os senhores podem ver, a mansão tornassolada já não é mais

violeta nem azul nem cor-de-rosa... É uma triste ruína cinzenta, toda

escoriada, em frente ao jardinzinho de Dom Luís de Vasconcelos, que podia ser

o mais belo recanto de sonho, no coração da cidade!

    A moça do Silogeu, com sua atitude de rainha protetora das letras e das

ciências, vai desaparecer qualquer dia, na derrubada iminente, sem carro de

triunfo que a arrebate pelas nuvens, sem fitas desnastradas que espalhem pelos

ares mensagens tão gentis como as das pirâmides do jardim vizinho: "Saudade do

Rio!" "Amor do Público! ".

    Nâo, a moça do Silogeu vai desaparecer obscuramente, com seu mundo e sua

chama - que parece uma rosa. E tudo será poeira, e ninguém pensará na alegoria

que ali esteve presente, por tanto tempo, e na moça que, sem falar, dizia com

o seu gesto: Coragem! Fé! Perseverança! e fazia crer num mundo iluminado pelas

letras e pelas ciências.

    Quando os  senhores passarem por ali, digam adeus à moça! Digam-lhe adeus

com a possível ternura. E guardem no fundo dos olhos e do coração a sua imagem.

(A mão esquerda pousava no mundo e a direita levantava uma luz.) Digam adeus à

moça do Silogeu! Pensem naquele mundo. Pensem naquela chama - tão discreta, que

parecia apenas uma rosa.

    30

    CONTRABANDO E MAGIA

A alfândega mais sugestiva do mundo é essa cidade de Trás-os-Montes que se

chama Alfândega-da-Fé, nome que pode inspirar ao viajante imaginativo

aventuras sobrenaturais, com anjos e demônios a verificarem nas suas balanças,

lindamente aferidas, a alma de cada um, como em auto de Gil Vicente. Já andei

perto, mas nunca tive a sorte de passar por essa cidade: fica-me sempre no

mapa e nas setas da sinalização - e no entanto ela é que certamente me

consolaria dos desgostos que me têm causado (com duas ou, três exceções)

essas alfândegas realmente alfândegas, não só no nome, mas em funçâo, que cada

país coloca nos lugares que Ihes parecem mais adequados e com as quais, além da

finalidade a que se destinam, conseguem alcançar outra: a irritação do viajante

honesto submetido a seus sádicos rigores.

    Parece-me, às vezes, que esses senhores que ofendem as nossas malas e as

nossas pessoas com a sua deconfiança - e alguns com seu sarcasmo - devem ser

escolhidos em concursos de grande interesse público, assim como os concursos

de beleza, graça, elegância, inteligência, que hoje consagram por toda parte

donas e donzelas favorecidas pela natureza e pela educação. Mas, evidentemente,

concursos às avessas. Deve haver um acordo internacional, nesse sentido, para

eleger as caras mais selvagens, com mais sobrancelhas e narinas mais

resfolegantes, e mãos mais bruscas, de unhas mais ameaçadoras. Nós, ignorantes,

não o sabemos. Mas verificamo-lo à nossa custa.

    Tenho encontrado alfândegas que me desarrumam as malas, à procura de quê?

Pois de café, de açúcar, de cigarros, de arroz... Enfim, sente-se uma pessoa,

sem mais nem menos, confundida com os senhores comerciantes, em geral muito

honrados, desta praça ou de qualquer outra - o que não é (longe de nós!)

nenhuma diminuição, quanto à atividade em si, malgrado alguns métodos e

técnicas de tal atividade não se coadunarem propriamente com a vocação de

qualquer viajante.

    Estuda-se nos tratados a arte de arrumar as roupas em camadas, e depois de

tudo muito bem disposto nos seus respectivos lugares, lugares exclusivos e

intransferíveis, com seu catálogo e código, o Cérbero aparece, ávido de

contrabandos, desloca toda aquela paciente obra-prima, à procura de qualquer

dos itens referidos, e até de outros, que desconhecemos, mas que lhe podem

ocorrer, em privilegiada inspiração. Se depois a mala não se ajusta, o fecho

enguiça, não se pode dar volta à chave, se alguma coisa fica torta ou quebrada,

com a pressa do exame, como se vai responsabilizar aquele malfeitor, brutal

intérprete da lei?

    Certa vez, indo dar (por inocência) um curso de folclore no estrangeiro, e

como levasse alguns discos para ilustrá-lo, fui solicitada, entre muitos lápis,

carimbos e olhares de raio-X a traduzir para a língua local (traduzir mesmo,

não explicar, apenas) palavras como "batuque", "cateretê", "jongo", etc...

(Desta vez, achei absolutamente inútil dar qualquer curso sobre qualquer

assunto em qualquer lugar.)

    Mas, tempos depois, encontrei um Cérbero eruditd e irônico. Não queria

revolver todas as minhas malas, oh, não. Com um gesto circense, apontou apenas

uma delas. Somente aquela! (E exultava!) Queria saber se eu levava... barras

de ouro! Porque o Brasil, explicou-me, é o país das minas. Logo,

silogisticamente... (Por onde vi que o Brasil está com duzentos anos de atraso

nas informações aduaneiras. E pareceu-me necessário dar imediatamente, no

estrangeiro, todos os cursos sobre os nossos assuntos.)

    Houve outro que não me mexeu nas malas. Esse tinha mais confiança no seu

faro. Fitou-me com olhos hipnóticos, e levantando na mão um objeto que parecia

um simples lápis mas devia ser um radar, perguntou-me com voz hierática: "Não

leva nenhum quadro célebre?" (Enfim, essa pergunta me agradou mais. Já não se

tratava de feijão nem lombo. E o homem nâo me desarrumava a roupa. Pode ser

até que estivesse brincando.. As criaturas são tâo misteriosas...)

    Mas quando leio nos jornais que há contrabandos de bebidas, de aparelhos

de rádio, de ar condicionado, de... - que sei eu! - fico muito impressionada.

Porque é difícil confundir uma camisa com uma caixa de metal, e esses objetos

grandes - e grandiosos - não cabem nem se agüentam nessas pobres malas que

com qualquer pequeno choque logo se recusam a funcionar. Bem sei que há malas

de todas as grandezas. Mas quanto maiores mais se vêem. A não ser que se trate

de processo mágico de narcotizar o Cérbero, ou de tornar invisíveis as coisas,

ou de desincorporá-las do lado de cá da alfândega e reincorporá-las do lado de

lá - processo muito antigo e bem exposto em qualquer manual prático de

feitiçaria. Talvez seja preciso estudar melhor a situação atual dos bruxos,

organizar um congresso para debater o assunto, criar, talvez, um departamento

especializado...

    33

    SABIÁS ROMÂNTICOS

Se eu disser que o mês de agosto chega no bico dos sabiás - quem me vai

entender? Quem me vai entender, se eu disser que entre as névoas da manhã,

sabiás invisiveis - nas mangueiras? nos ipês? - anunciam o céu azul e o dia

mesmo? Ninguém sabe mais o nome das aves. As aves desapareceram com as muralhas

de cimento armado, com os fios que cruzam os ares, com a fumaça e os ruídos da

cidade hostil.

    Ós velhos cronistas que viram uma terra diferente, puderam anotar com

minuciosas palavras: "... criam-se em árvores baixas, em ninhos, outros

pássaros, a que o gentio chama sabiá-oca, que são todos aleonados, muito

formosos, os quais cantam muito bem ... " O ouvido do segundo cronista era

mais apurado - e ele escrevia: "Outro pássaro se acha, chamado sabiá, da

feição do melro de Espanha - e antes cuido que é o próprio, porque canta como

eles, sem lhe  faltar mais que um dobrete..: " Um terceiro cronista

opinava:"... sabiás que chamam "das praias", por andarem sémpre nas ribanceiras

(onde só cantam), mais que todos suaves."

    Não me lembro de ter ouvido esses cantos "mais que todos suaves" entre os

versos do século XVIII. Nesse tempo, andavam os poetas ainda muito lembrados

dos rouxinóis europeus, e a paisagem brasileira facilmente se confundia com os

bosques da Arcádia.

    Foi preciso que viessem os românticos, já num Brasil independente, para

que, na culta Coiznbra, uma voz recordasse os bosques e as várzeas da pátria

distanter e escrevesse a "Canção do Exílio":

    "Minha terra tem palmeiras

     onde canta o sábiá..."

    Os jovens poetas que se seguiram, todos se lembraram do pássaro de voz

suave:

    "É um país majestoso

     Essa terra de Tupá,

     Desd' o Amazonas ao Prata

     Do Rio Grande ao Pará!

     - Tem serranias gigantes

     E tem bosques verdejantes

     Que repetem incessantes

     Os cantos do sabiá!"

    O sabiá sugeria vozes de anjos mortos, de almas errantes, de gênios da

tarde. ("São os sabiás que cantam /Nas mangueiras do pomar...")

    Chamavam-no "formoso","sonoro","poeta da solidão"... Chamaram-no mesmo

"alado Anacreonte"...

    Isso foi num tempo de mansões, varandas, laranjeiras, mangueiras, quando

os poetas conversávam com donzelas líricas e muito frágeis, que lhes diziam:

"Nunca mais eu virei, risonhá e louca/Roubar o ninho ao sabiá choroso"...

(Falavam assim, as moças de então!)

    Agora vem agosto, nas asas dos sabiás suaves. E eu penso nos velhos

cronistas que os descreveram e nos poetas que prestaram atenção ao seu canto:

um Gonçalves Dias, um Bernardo Guimarães, um Casirniro de Abreu, um Fagundes

Varela, um Castro Alves:... E é como se estivessem comigo, esses poetas, para

ouvir, entre mangueiras e ipês, os "chorosos sabiás".

    36

    MEUS "ORIENTES"

O Oriente tem sido uma paixâo constante na minha vida: não, porém, pelo seu

chamado "exotismo" - que é atração e curiosidade de turistas - mas pela sua

profundidade poética, que é uma outra maneira de ser da sabedoria. Como se

cristalizou em mim esse sentimento de admiração emocionada por esses povos

distantes, não é fácil de explicar em poucas linhas. Mas foi uma cristalização

muito lenta, dos primeiros tempos da infância. E lembro-me nitidamente desses

antigos encontros, que me deixavam tão pensativa e interessada, antes que eu

pudesse adivinhar, sequer, a sua significação.

    Minha Avó, que falava uma linguagem camoniana, costumava dizer, em certas

oportunidades: "Cata, cata, que é viagem da India!" Eu ainda não sabia do

sentido náutico do verbo "catar": mas parecia-me que, com aquele estribilho,

tudo andava mais depressa, como para uma urgente partida.

    Eu ainda nem sabia ler, e a babá Pedrina mostrava-me as figuras dos livros.

Foi assim que conheci o touro alado dos assírios; e durante muito tempo aquele

poderoso animal com face humana habitou a minha imaginação infantil, mais

sugestivo e misterioso que os príncipes e princesas das histórias de fadas.

    Havia também a cozinheira com a velha bandeja decharão para as compras do

quitandeiro. Ela me explicava à sua moda aqueles pavilhões, aqueles barcos

dourados, aquelas figurinhas já meio desfeitas pelo tempo... E no dia em que,

diante dos cestos do quitandeiro eu a ouvi pronunciar a palavra "quingombó",

que era como chamava ao quiabo, instalou-se na minha fantasia a idéia que

aquilo devia ser chinês: que assim deviam falar as pessoas representadas na

antiga bandeja de charão.

    A babá Pedrina sabia muito do Oriente, de tanto fazer chá, cujas folhas

vinham numa caixa maravilhosa da India ou da China. Ela tratava também de uns

pobres restos de louças, sobreviventes a muitas catástrofes domésticas, e

contava-me histórias que iam sendo ilustradas pelas pontes, pelos pagodes,

pelas árvores azuis pintados nos pratos e nas xícaras. Mas as suas intuições

orientais se concentravam numa canção que me parece andava na moda, por aquele

tempo, e que começava assim: "Não és tu quem eu amo, não és! Nem Teresa,/ nem

mesmo Ciprina,/nem Nlercedes, a loura, nem mesmo/a travessa, gentil

Valentina..." A cantiga continuava com a descrição da mulher amada: "Quem eu

amo, te digo, está longe,/lá nas terras do império chinês,/num palácio de

louça vermelha,/sob um teto de azul japonês."

    Essa mistura da China com o Japão acrescentava indizível mistério à

lânguida canção. Mas a mim o que verdadeiramente me encantava era poder-se

habitar um "palácio de louça vermelha", moradia que se me afigurava

extremamente aprazível, pela beleza da cor, pela frescura e sonoridade da

louça.

    Eu também gostaria de morar numa habitaçâo dessas. E foi por isso que

tentei entrar num jarrão, semelhante, no meu sonho, ao palácio da cantiga, e

foi por isso que, para salvar o jarrão da sua pequena inquilina, o puseram num

lugar tão acautelado, tão inacessível, tão escondido, que um cabide caiu por

cima dele e o desbeiçou.

    Esses foram os meus "orientes" mais remotos, enfeitados por algumas sedas

estampadas com a palma indiana - motivo que perdura nos mais modernos tecidos

- e por uma infinidade de móveis de junco, de aparelhos de chá, de bibelôs que

se acumulavam nas casas das pessoas amigas, e que iam de suntuosas esculturas

em marfim a pequenos objetos de papel colorido. As senhoras usavam quimonos,

as mocinhas se abanavam com ventarolas de seda, leques de marfim rendado,

comia-se tanto arroz, tantas "fatias chinesas", falava-se de tanto cetim de

Macau e de outras fazendas orientais que era como se as naus dos bisavós

continuassem a trafegar por esses mares, e delas recebêssemos diretamente a

canela e o cravo dos nossos doces de cada dia.

    Uma velhota; que chamavam de "turca", ia pedir à minha Avó folhas de

videira para fazer sua comida; e o mascate que vendia de porta em porta

alfinetes e pentes, rendas de linho e fitas, sabonetes e cosméticos,

conversava; na sua língua atravessada, sobre coisas de sua terra, a mais bela

terra do mundo ...

    Havia as noites de febre. E então minha Avó começava a contar-me a história

da princesinha que tinha uma estrela de ouro na testa. A história nunca foi

além do título, já por si tão lindo que começava por me fazer sonhar, e logo

me fazia dormir. E no dia em que me encontrei, na India, com tantas moças

maravilhosas, tendo na testa aquele sinal que foi indicação de casta e hoje é

simples adorno, sinal que pode ser de tinta vermelha ou de diamante, percebi

que eram aquelas as minhas antigas princesinhas, que eu ia encontrar tão longe,

quando o Oriente se abriu, claro e amorável,

sobre os meus remotos "orientes".

    38

    OS ANJOS DE PAPEL COUCHÉ

Quando os olhos se abrem sobre estas mansas meninas dos hospitais, tem-se

vontade de exclamar: "Oh! os anjos de papel couché!..." - vendo-as tão alvas

e reluzentes, tão aladas e fora dos assuntos terrenos. Mas não seria prudente

uma exclamação assim: pois quanto a anjos elas estão muito bem-informadas,

conhecem-nos pelos seus nomes, certamente passeiam com eles de braço dado; mas

papel couché é coisa de que jamais ouviram falar, e poderiam achar depreciativa

tal citação. Não devemos, de forma alguma, deixar pairar a sombra da mais leve

suspeita de ofensa sobre as mansas meninas dos hospitais. Pois, na verdade,

elas não são apenas encantadoras, mas mesmo sobrenaturais: sem rumor de passos,

vão e vêm, atravessam as paredes, suspendem no ar, graciosamente, baldes e

vassouras, bandejas e lençóis como se tudo fossem ramos de flores.

    A essas meninas nada se deve perguntar: nem como se chamam, nem que horas

sâo, nem se chove ou faz bom tempo, porque elas não existem para responder a

tais coisas. Sua existência transcorre em outros planos: seus espanadores e

vassouras limpam as estrelas; as nuvens, asas de pássaros que nós não

avistamos. Não se pode dizer que transportem nada nas mãos: tudo é muito

improvável, em relação a essas reluzentes meninas. Elas andam assim soltas como

plumas, simbolicamente: não para fazerem coisas concretas e objetivas, mas para

recordarem aos olhos vagos dos doentes que há um mundo material onde essas

coisas têm seu peso e seu valor, pois a tendência dos doentes é irem ficando

muito mais irreais do que elas, e aproveitarem o descanso dos lentos dias para

serem puro sonho, por mapas sobrenaturais. Esses anjos de papel couché esvoaçam

como folhas brancas e nelas podemos ir mentalmente escrevendo recordações,

imagens amadas, pensamentos que a solidão sugere, versos que algum dia lemos,

desenhos remotos de cenas que poderiam ter um dia existido. Mas as meninas

jamais desconfiariam dessas imaginações que as podem cercar e enlaçar tão

sutilmente, acrescentando outros símbolos aos seus símbolos. Flutuam anônimas,

dissolvem-se, evaporam-se, voam das varandas, alongam nas mãos misteriosas

remédios que oferecem sem rumor, como flores gotejando orvalhos.

    As vezes, dir-se-ia que sorriem, mas deve ser engano da nossa parte: elas

nâo têm razão nenhuma para sorrir, elas estão alheias ao sofrimento e à

felicidade, pairam sobre essas ilusões humanas, equilibradas nessa eqüidistante

indiferença com que circulam as distantes maravilhas do universo.

    Poder-se-ia pensar que, por vezes, nos amassem, que se comovessem com a

nossa docilidade e a nossa obediência, tão entregues que ficamos à sua

contemplação, tão confiantes no poder musical do seu giro todo branco, pelas

paredes azuis, pelos ares luminosos, pelas noites imóveis. Mas, certamente, é

puro engano da nossa parte, também. O mundo do amor é do outro lado destes

muros: lá onde as criaturas inventaram dependências, coerências, conseqüências.

E aqui tudo é livre, de uma total fluidez, sem princípio nem fim, sem

sobressaltos passados ou futuros, tudo está fora dessas leis da gravidade que

apegam o homem ao mundo e aos seus inúmeros elementos.

    Assim, os anjos de papel couché, em cujas brilhantes asas vamos imprimindo

tantas lembranças e sentimentos, não conservam nada disso permanentemente em

sua lustrosa brancura.

    Todas essas coisas que nós supomos grandiosas caem como um tênue pólen,

dispersam-se pelas solidões que reinam entre o que somos e o que não somos,

perdem-se no silêncio que fecha em suas abóbadas eternas a efêmera paisagem

das noites e dos dias.

    Os anjos de papel couché deslizam com suas bandejas, seus espanadores,

seus medicamentos como as estrelas no seu curso: próximos, distantes, sem

saberem quem somos e sem que saibamos quem sejam...

    41

    JANTAR À LUZ DE VELA

A luz das velas é cheia de delicadezas. O adamascado das toalhas

transfigura-se em brocado precioso; qualquer pequeno desenho dos talheres ou 

dos cristais adquire primores novos: a mesa resplandece, concentrada no halo

dessa claridade ao mesmo tempo intensa e discreta, simples e sobrenatural.

    É então que se pode verdadeiramente ver o que há de veludo nas rosas, e de

semeaduras e searas na crosta dourada do pão. Caminhos brancos de seda e

quartzo se abrem nos peixes, desfolhados como malmequeres. Festas muito

antigas  estacionam  espelhadas nos claros vinhos.

    As mãos passam a ter outro sentido, com suas cores e suas linhas, à luz

das velas, muito macia, porém maravilhosamente exata. As unhas róseas desmaiam,

com suas meias-luas alvas, e os gestos e as suas sombras têm outra eloqüência,

imperceptível ao clarão das grandes lâmpadas. Qualquer pequena jóia desabrocha

sua riqueza oculta: o ouro é muita mais límpido e os sons da prata parecem não

apenas audíveis, mas visíveis.

    E os rostos deixam de ser umas máscaras: seus contornos autênticos

apresentam modelações de cera e transparências de alabastro. A luz das velas

insinua-se com muita suavidade pelo desenho dos lábios, pela curva das narinas,

passa pelas pestanas, fio a fio, para, enfim, descansar nos olhos, pequenos

mares convexos, líquidos e móveis como se fossem mesmo um aglomerado de

lágrimas. E avista-se o horizonte das  almas.

    Louras, negras, prateadas, esfumam-se as cabeças, fora do halo das velas. 

Palavras e sorrisos vém de jardins submarinos, com arbustos de coral, som de

água, lembranças de pérolas. As paredes estão muita longe; no fim do mundo.

    A pequena chama ondulante mostra o que raramente se vê: as voltas que dão

os fios, na invenção das rendas; a textura das sedas e dos linhos; a irisação

do nácar dos botões. Nas uvas translúcidas, descobrem-se tênues fibras, em

torno das sementes baças, como nublosas pupilas.

    A luz da vela vai descendo verticalmente, imperceptivelmente: silenciosa e

morna. Parece uma pequenina pluma, azul, negra e dourada. E na noite redonda

de cada xícara de café, reflete-se como lua minúscula, incerta, oscilante,

fragmentada. Até que dessa luz e de sua límpida coluna reste apenas um pouco

de pavio; um pedacinho de carvâo caído na cera quente, como um inseto afogado.

    43

    FANTASMAS

No tempo da babá Pedrina, havia tantos fantasmas que até as crianças, mesmo

sem os verem, sabiam como eram e por onde andavam. Andavam pelos porões, pelos

corredores, pelos sótãos, atravessavam certos quintais, paravam pelas

encruzilhadas. Havia fantasmas de escravos e de seus antigos donos em tal

abundância que se faziam mais dignos de louvores os velhos abolicionistas: que

enorme quantidade de fantasmas produzira a escravidâo!

    Mas, terminado o cativeiro, não terminaram os fantasmas - talvez menos

sofredores, menos desesperados, menos vingativos, agora: monarquistas,

republicanos, conselheiros, oradores misturados a toda casta de ofícios e de

todos os níveis sociais. Há quem negue os fantasmas: mas entre a negação e a

inexistência de coisas, fenômenos ou fatos há uma distância considerável. E

talvez o número dos que os negam seja inferior ao dos que os afirmam.

    Outro dia, li nos jornais que uns fantasmas, em São Paulo, mudavam de

lugar os objetos de uma casa, traziam a cafeteira do fogão para a mesa,

espalhavam os mantimentos da despensa, enfim, desarrumavam, quanto encontravam

e parece que tudo isso foi testemunhado por jornalistas, que costumam ser

espíritos fortes, de tanto lidarem com os mais estranhos acontecimentos, todos

os dias.

    Este meu bairro das Laranjeiras parece ter sido outrora muito povoado de

fantasmas, especialmente a Ladeira do Ascurra, segundo nos informa o caro

Vieira Fazenda, que tanto se interessou por esta nossa querida cidade.

    Há pouco tempo, soube que os sentinelas do Monumento aos Pracinhas, em

lugar tão moderno e arejado, tinham ouvido vozes estranhas, em redor de si:

mas procurou-se explicar que seria o vento batendo ali, e tudo foi vento e

nada mais, como no poema de Edgar Poe.

    Na Inglaterra, os fantasmas não causam tanta estranheza: creio que existem

por toda parte, e são extremamente intelectualizados. Não existe um que

escreve peças teatrais, e se acha tâo identificado com a senhora que o recebe

que esta, com exemplar comportamento, se separou de seu marido por se sentir

mais casada com o seu fantasma?

    Não há, na Inglaterra, casas onde se pode ouvir boa música, sem haver

dentro delas instrumento de espécie alguma? Dizem-me que os fantasmas ingleses

até se deixam  fotografar!

    Não falo destas coisas por brincadeira: ao contrário, elas me inspiram

curiosidade e respeito. Se nós não sabemos nem o que se passa em nossa própria

casa, do outro lado de qualquer parede, como podemos saber o que se passa nos

misteriosos lugares onde os fantasmas vivem? A nossa "vã filosofia", como disse

Shakespeare, não alcança muitas coisas deste mundo. E o mundo dos fantasmas é

mais além. Os homens habituaram-se a falar de tudo superficialmente; e o

torvelinho da vida de hoje quase não permite a ninguém deter-se para pensar.

E adquirimos o hábito de sorrir com frivolidade para o que desconhecemos.

    No entanto, no entanto, as velhas Escrituras estão cheias de exemplos que

nos deixam perplexos. A tecnologia descartou a contemplação, a intuição, o

desejo sério de penetrar os profundos mistérios do mundo e da vida. O supérfluo

tornou-se tão imprescindível que se perdeu de vista o verdadeiramente

essencial.

    45

    CALIGRAFIA  POÉTICA

             E  RISONHA

Todos os dias nos servimos do alfabeto sem prestarmos atenção à forma de. cada

letra; sem nos recordarmos, portanto, de sua origein, quando cada traço rião

estava apenas em função, de um determinado som, como hoje acontece; màs

representava ainda, bem vívida, uma determinada imagem: Bem próximo do nosso

está o alfabeto hebraico, para servir de exemplo, com o nome de cada letra

significando algum objeto ou parte do corpo. (Isto sem falar na própria

história da invenção das letras, quando Deus as apreciou segundo as palavras

boas ou más que indicavam, como iniciais.)

    Na verdade, escrevemos muito depressa para nos atermos a esses antecedentes,

e já ninguém aprende a ler de letra em letra, de modo que a rapidez do mêtodo

inutiliza, como sempre acontece, a profundidade do estudo.

    Eu também me encontro na ingrata situação dos que não dispóem de muito

tempo: Jamais poderei ficar diante de um tinteiro para, com destro pincel, ir

debuxando caracteres sino-japoneses de um só traço, sequer, quanto mais de

cinco, de dez, de vinte... Ai de nós! à vida humána não permite tanto. É

preciso saber renunciar às ambições, mesmo as mais nobres:

    Mas, se não pode a minha mão delinear esses caracteres que aparentemente

se julgaria serem obra de estontèante imaginação, podem os meus olhos,

orientados por um bom guia; descobrir nessas estilizações o antigo desenho

realista destinado a exprimir o que, nosso tempo próprio, se desejou comunicar.

Essa tentativa humana de comunicaçáo (ai, neste mundo impenetrável!) é sezzi

pre comovente. Mas os meios de realizá-la, a busca e o valor emprestado a cada

elemento mostram-nos a simpatia, a boa vontade e, constantemente, o sentido

poético dos velhos mestres calígrafos. Muitas dessas concepções pertencem,

realmente, ao domínio da expressão universal, o que não deixa de ser uma

demonstração da identidade humana, a despeito do espaço e do témpo: Que o

desenho da mão sobre o coração signifique sem falta, "certamente"; que o

símbolo do centro aliado ao do coração exprima "lealdade", parece-nos natural 

e familiar, e tão oriental como ocidental, pois estamos acostumados a

associações idênticas, e fazemos do coração nossa testemunha, e os nossos

sentimentos profundos (como o da lealdade) residem no fundo (ou centro) do

nosso coraçâo.

    Que a imagem de uma árvore cercada por uma moldura signifique "sofrer"

lembra-nos as velhas relações do homem com a natureza e a sua sensibilidade

diante de uma árvore impedida de crescer.

    Outros caracteres dão uma idéia da honrosa opinião que os velhos calígrafos

tinham a respeito da humanidade. Assim, o símbolo de homem unido ao de palavra

exprimindo "confiar" mostra que a "palavra de homem" era, naqueles tempos,

coisa verdadeiramente digna de crédito. E o símbolo de homem unido a traços

numerais indicando "bondade", "simpatia", é uma afirmação da fé no convívio

humano, da possibilidade de se ser melhor (ou de poder mostrá-lo) em sociedade

que na solidão.

    Alguns caracteres nos fazem refletir sobre a diferença dos tempos:

poderemos, nos dias de hoje, aceitar sem vacilação que o símbolo de um velho

associado ao de um moço possa exprimir "mudar", "transformar", pela ação dos

conhecimentos e experiências que o primeiro possa exercer sobre o segundo?

    Mas o belo símbolo das mãos estendidas para significar "amigo", mas o

portão fechado sobre o coração, para dizer "agonizar", mas a mulher e a

criança exprimindo "gostar" são caracteres que comovem por sua delicadeza

poética.

    Mas os velhos calgrafos tinham também fino sentido realista: na

representação de "pai" vê-se a mão que segura um cacete; para exprimir

"barulho de vozes", parecia-lhes bastante desenhar três mulheres; e o símbolo

da mulher aliado ao de mal, doença, significava, para eles, claramente,

"ter ciúmes". (E nós hoje sorrimos desses velhos calígrafos, que com certeza

sorriam também, ao inventarem esses caracteres...)

    48

    "OI, DA PRATA E DO OURO ..."

O que sabemos dos Reis Magos, pelo Evangelho, é o que nos conta São Mateus:

Tendo, pois, nascido Jesus em Belém de Judá, em tempo do Rei Herodes, eis que

vieram do Oriente uns magos a Jerusalém, dizendo:"Onde está o rei dos judeus

que é nascido? - porque nós vimos no Oriente a sua estrela e viemos adorá-lo."

Muito perturbado, Herodes teria pedido aos magos, não sem malícia, que, se

acaso encontrassem o menino profetizado, o viessem avisar, para ele o adorar

também. Os magos, no entanto, encontraram-no, fizeram-lhe suas oferendas de

ouro, incenso e mirra, "e havida resposta em sonho que não tornassem a Herodes,

voltaram por outro caminho para a sua terra".

    Mais tarde, as festas da Epifania celebrariam o Natal, a Adoração dos Magos

e outros fatos relacionados com os primórdios do cristianismo, e, no domínio

popular, reminiscências várias se iriam aproximando, reunindo danças, cantigas,

cortejos, banquetes, formando, sob, diversos nomes, outros folguedos.

    Já não se ouvem, pelas grandes cidades, aquelas vozes de pastorinhas

visitadoras de presépios:

    "O de casa, nobre gente, escutai e ouvireis que das bandas do Oriente são

chegados os três Reis."

    Mas nas cidades pequenas, por esse vasto Brasil, continua a tradiçâo, mais

ou menos conservada, das antigas cheganças, do bumba-meu-boi, dos "ternos" de

Reis, com seus tiradores de versos e seus músicos, cantando, tocando, dançando,

pedindo dinheiro e donativos para as alegrias da data.

    Como o folclore é um fato vivo, a imaginação popular enriquece a tradição

com suas invenções novas. Uma ressonância muito remota de festivais agrícolas

faz as pastorinhas cantarem como em sonho:

    "Nosso trigo está maduro, Vamos para o campo ceifar.. "

    Há quadras de vivo sentido jornalístico, que registram os fatos com

adorável precisão: "Os três Reis quando souberam que era nascido o Messias,

montaram em seus cavalos todos cheios de alegria."

    E assim vão os festeiros pedindo vinho e doces, misturando versos antigos

e modernos, paganismo e cristianismo, coisas ainda de Portugal, coisas já do 

Brasil, pobreza e alegria, ignorância e perspicácia.

    Para explicar essa mistura do Evangelho com o peditório e o rancho de Reis,

uns festeiros de Guaxupé contaram a uma aluna do Centro de Pesquisas de São

Paulo "que os Reis, nessa caminhada pelo deserto, fizeram-se acompanhar de 

guardas e dois palhaços que cantavam e dançavam a troco de dinheiro". Assim é

a ingenuidade do povo.

    Muito mais engenhosa, porém, é a história de Reis narrada pelo mestre

violeiro Caetano Avelino da Silveira, de São Paulo, ao folclorista João Batista

Conti: "Diziam os antigos, e é por conta deles, porque eu não vi, que quando

nasceu o Menino Jesuis, na Terra

    Santa, havia treis reis: um branco, um preto e um caboclo. Os reis branco,

querendo lográ o preto, disseram: "perciso dá uma volta muito grande" e

ensinaram um caminho errado pro preto ficá logrado. E assim forum os treis vê

o Senhor Menino. Mais o preto pegô o caminho errado. Quando os branco chegaram

na cocheira, onde tava o Menino Jesuis, derum cum o preto já na frente do

Menino, que entonces o Senhor Menino pegô uma coroa, pois na cabeça do rei

preto e disse: "vassumecê é o reis dos Congo". Foi então que o preto foi chamá

uma porção de negros e vieram dançá na frente do Menino. Daí em diante ficô a

Congada."

    Além de ser um pequeno espelho das trapaças deste mundo e da esperança na

justiça divina, a pequena história, com a sua versão nova do tradicional

episódio, oferece-nos também uma curiosa sugestão sobre a origem de outra festa

da época: a dos Congos.

    E uma alegria, afinal, pensar que tudo isso ainda existe no mundo: que o

homem ainda é feito de recordaçôes, infância, imaginação, sensibilidade, sonho. 

Que não somos ainda autômatos. (Por quanto tempo?) E que em algum ponto do

Brasil vozes alegres estarão cantando a esta hora:

    "Oi! da prata e do ouro se faz o metal!

     Oi! a véspera de Reis é pra nós festejar!"

    51

    DESCOBRIMENTO DO

    ANJO DA GUARDA

A moça disse-me que estava longe da família, na grande cidade onde chegara

para trabalhar e estudar. A imponência dos edifícios, a pressa da multidão, o

tumulto das ruas, a agitação das noites, tudo a atordoava: e mal tinha tempo

para fazer amizades.

    Antes, sua paisagem era uma praça, uma igreja, um pequeno rio, ladeiras

tranqüilas, jardins antigos, casas agradáveis onde, aqui e ali, alguém

praticava exercícios de piano. As pessoas visitavam-se, contavam suas histórias

familiares, aconselhavam-se. Havia pequenas festas, um pouco de dança, a música

da filarmônica local, um grupo de teatro.

    As moças sabiam muitas coisas, eram muito dotadas: bordavam, cosiam,

confeitavam bolos, faziam flores. Ultimamente aprendiam até a executar objetos

domésticos de matéria plástica. (Disso ela não gostava muito.)

    Seus estudos chegaram a um ponto que despertaram a atenção dos professores. 

(Estudava musica.) Todos acharam que era uma pena ficar ali, ajudando a cantar

na igreja, ensinando solfejo às crianças: devia ir para um centro maior,

receber outros estímulos, dedicar-se completamente à sua vocação. E ela foi.

    Mas a grande cidade era assim, com tanta gente,

ninguém prestava atenção a nada, havia música por toda parte, nos edifícios, 

pelas  ruas,  nas  casas  comerciais,

nos  mercados,  nos  restaurantes,  e  ela  mesma  já nem

sentia a sua música, já nâo se ouvia, não se achava

necessária.

 O  ambiente  era  desatento.  Tudo  entrava  por  um

 ouvido e saía pelo outro. E o que acontecia com a pro-

 fissão acontecia também com a vida: prometiam coisas

 que não cumpriam, marcavam encontros que não se efe-

 tivavam,  as  colegas  pareciam-lhe  muito  sofisticadas,  e

 depois de ter observado um pouco, com a sua bem-orga-

 nizada  cabeça  disciplinada  por  bemóis  e  sustenidos,

 chegara à conclusão de que (pelo menos por enquanto)

 não valia a pena namorar.

 A moça, entâo, sentiu-se muito sozinha, desencoraja-

 da - e ali, com seus papéis de solfa na mão, parecia

 mesmo a própria musa Euterpe, exausta de modernida-

 de e saudosa do Olimpo.

 O que mais a assombrava era a ausência de apoio

 social:  as moças de sua idade falavam de penteados;

 os  professores,  de  taxas,  reivindicaçôes,  abonos,  e  os

 rapazes discorriam sobre esporte - ou eram grandes

 mestres em toda categoria de arte, ou grandes conduto-

 res da humanidade, oradores e grevistas. Meio gangsters,

 meio líderes, desesperados de ambiçâo.

 Foi assim que, uma tarde, a moça pensou no Anjo

 da Guarda. Deus era grande demais, para atingi-lo: não

 tinha  coragem.  Chamou  baixinho  o  Anjo  da  Guarda,

 para  experimentar.  Ao  contrário,  porém,  do  que  ela

 esperava, o Anjo da Guarda respondeu. Passou a con-

 versar com ele todos os dias. Todos os ruídos em redor

 se dissolveram:  os barulhos do mundo e as conversas

 frívolas. Sozinha, ela fala com o seu Anjo da Guarda

 que,  solícito, responde  às  suas  dúvidas e  resolve os

 seus problemas.

 Voltada  para  esse  paraíso  interior,  disse-me  que  é

 outra pessoa:  tudo Ihe parece claro, certo, com outro

 sentido. Seu mundo de música é o mesmo do Anjo da

 Guarda. E acha admirável que esse mundo possa existir

 dentro do outro, veloz e ruidoso, sem ser atingido em

 sua harmonia, livre de qualquer vulgaridade e aflição.

    53

    JUNHO ANTIGO

Naquele  tempo   existia  a  babá  Pedrina,  (Digo  babá,

como agora se usa, mas naquele tempo se dizia paje,m

ou ama-seca:) A babâ Pedrina era uma jovem mulatinha,

éxtremarnente gentil, que conhecia um.. mundo de coisas:

sabia as ladainhas e cânticos reiigiosos de sua terra, as

músicas  dós  coretos,  histórias  de  bichos,  lobisomem,

mula-sem-cabeça, fantasmas, e de príncipes e princesas

que;  depois  de  muitas  vicissitudes,  acabavam  felizes,

com casamentos muito festivos, sob uma linda chuva de

arroz: (Ela não dizia príncipe, mas princês: o que sempre

me pareceu palavra muito elegante, e de sua particular invenção.)

 Ora; Pedrina, como se vê pelo nome, nascera no mês

de junho, e pertencia ao calendário das festas de Santo

Antônio, São João e São Pedro. Era especialmente versada

em toda classe de  adivinhações e . `sortes' e por

muito tempo me perguntou qual era a di£erença entre

médico e água, sem que . eu pudesse resolver problema

tão sério, para a minha idade. A diferença - revelou-me

um  dia,  confidencialmente,  como  quem transmite

um  conhecimento  secreto - é  que  "a  água mata  a

secura e o  médico, se cura, não  mata". Esse jogo  de

palavras me pareceu tão engenhoso que me apliquei a

inventax trocadilhos, sem chegar, riaturalmente, a resultados

perfeitos.

 Em matéria de parlendas, Pedrina era muito competente:

imterpretava o barulho dos trens, as vozes  dos

sinos, dos galos, dos sapos; sabia a linguagem das flores,

muito usada pelas donas e donzelas da época; tinha o

seu repertório de cançôes de berço; de roda, de brinquedos

infantis; tocava músìca em papel fino esticado num

pente, e ensinou-me que as meninas bem-educadas deviam

saber fazer reverências e dizer merci e pas de guoi.

 O mês de junho era, naquele tempo, muito mais do

que hoje, um período mágico. Todas as crianças sonhavam

com  barraquinhas  de  fogos,  ou  para  comprá-los

ou para vendê-los. E havia já naquele tempa índícios

de corrupção até nesses pequenos negociantes, que cometiam

suas fraudes e não aceitavam reclamações. Os meninos

gostavam de coisas ruidosas como "bichas chinesas",

bombas, ou coisas um pouco humorísticas, como

os busca-pés, que faziam as pessoas correr, assustadas.

Mas as meninas queriam estrelinhas, fósforos coloridos,

foguetes de lágrimas e não compreendiam que São João

não acordasse com tanto ruído. Mas era assim,  conforme

Pedrina e outras autoridades:  São  João  queria

descer à  Terra, no  seu  dia, para folgar:  mas  acordava

sempre antes ou depois da data. Parece que isso era

bom, pois, se acontecesse acertar, creio que o mundo

acabava.

 Assim, com fogos e fogueiras, aipim e batata-doce a

assar nas brasas, cantigas a Santo  Antônio e a São João,

o mês ia passando, com o  céu  coberto  de estrelas  e

balões,  e as donas e  donzelas  dedicadas  a interpretar

o futuro, inclinadas como pitonisas sobre copos, pratos

cheios  d'água,  facas  manchadas  pela  seiva  das  bananeiras...

 As  crianças  bem educadas  (aquelas  que até sabiam

dizer merci e pas de quoi) podiam ficar pelas imediações,

muito quietinhas, observando aquele ritual mágico.

Dentro  dos  copos,  o  ovo  quebrado  na  água  formava

cortinados,  velas  de  navios,  altares . . .  Olhos  ansiosos

espreitavam ali casamentos, viagens, mortes, e aceitavam

os prognósticos assim desenhados. As agulhas nadavam

no prato d'água, iam, vinham,  aproximavam-se, afastavam-se,

desencontravam-se, mas às vezes aderiam uma

à outra, e as donas e donzelas suspiravam aliviadas:

parece que se tratava de novos encontros, voltas, fim

das separações...

 Pedrina passava sonhadoramente ao longo desses mistérios.

Sob a sua doçura e gentileza morava,  decerto,

uma espécie de saudosa melancolia. Acreditava no que

a seiva da bananeira escrevia na lâmina da faca, se a

cravavam na planta à meia-noite em ponto, e a traziam

de volta sem olhar para trás. Também acreditava que

não chegaria ao ano seguinte quem não divisasse o próprio

rosto  na  água  de  uma bacia  ao  relento,  àquela

hora da noite. Mas nunca nos disse por que acreditava

nisso.  Falava mais  séria,  com uma  sombra  nos  olhos

que de repente se tornavam estrábicos. Mas os balões

subiam, as lágrimas dos foguetes cascateavam  ela noite

as rodinhas giravam sob as árvores do quintal, as crianças

cantavam, as trepadeiras abriam flores perfumosas,

São João continuava a dormir, e São Pedro tinha nas

mãos a chave com que certamente abriu as portas do

céu para Pedrina.

    56

    O QUE SE DIZ E O QUE

    SE ENTENDE

Há tempos, descobri numa vitrine um objeto azul que

me interessava. Entrei na loja, dirigi-me ao balconista

com a maior cortesia, pedi-lhe aquele objeto azul. Antes

de me atender, o moço observou com a maior seriedade:

"A senhora quer dizer...  verde?" Como não houvesse

no lugar indicado nenhum objeto verde nem mesmo

vermelho,  que  explicasse  um  possível  daltonismo,

fiquei  um  pouco  surpreendida,  mas  insisti:  "Não,  eu

quero dizer... azul."  O  moço teve essa expressão resignada

de quem tem de aturar por obrigação a impertinência

dos fregueses, mas foi buscar o objeto indicado.

Enquanto se dedicava à delicada operação, tive um momento

de dúvida - talvez eu me tivesse enganado. Um

objeto de cristal, descoberto numa vitrine, pode sofrer

uma  inconstância  no  colorido,  o  verde  pode  parecer

azul...  E, na verdade, o moço devia conhecer melhor

do que eu os objetos que se encontravam ali em exposição.

Mas, ao voltar, com um vago olhar triunfante de

quem acaba de ganhar uma pequena batalha, ao colocar

no balcão o que ele acreditava ser um objeto verde,

verifiquei que o triunfo era meu. E enquanto acertávamos

as contas, pensei: fazem falta as mâes que ensinavam

navam  as  cores  aos  filhos;  fazem falta os  jardins de

infância; por onde anda o disco de Newton? e será que

os arranha-céus já não deixam mais ninguém conhecer

o arco-íris?

 De outra vez, entro numa loja de brinquedos, e com

o maior respeito e veneraçâo dirijo-me à vendedora, que

era a própria Cleópatra, com olhos distendidos até as

orelhas, e peruca negra a imobilizar-lhe o pescoço: "Eu

desejava um caleidoscópio..." Cleópatra mirou-me com

um desdém milenar, e como um generoso favor, e por

atenção aos seus deuses, balbuciou: "Não temos." Como

não tinham? Pois se eu da rua avistara uma prateleira

toda  de  caleidoscópio!  Então,  com  o  mais  humilde

gesto, ousei apontar para a referida prateleira. Cleópatra,

com visível contrariedade, corrigiu minha ignorância:

 "A senhora quer dizer...  tubo?" Mas eu, sabendo

bem a distância que vai da minha pessoa à sedutora

rainha, insisti, por amor à verdade, e à etimologia: "Não

eu  queró .dizer...  caleidoscópio."  Certamente,  Cleópatra

tra já nâo  se lembrava mais . dos  gregos, e, com um

desdém muito maior que o anterior, dignou-se vender-me

me um caleidoscópio, na verdade tão sem graça que bem

merecia ser tratado como desprezível tubo.

  Mas outro dia precisei de papel impermeável, dirigi-me

a uma seção de papelaria, falei com um jovem esportivo,

limpo, atualizado, realizado, e pedi-lhe o que que·

ria, certa de que seria rapidamente atendida. Ele porém,

com  o  seu  belo  sorriso  profissional,  também  me  respondeu:

"A senhora quer dizer papel metálico?" "Não

eu quero dizer papel iircperineável, mesmo." Ele fechou

o  seu  claro  sorriso,  como  quem  recebe  uma  notícia

triste, e murmurou-me inconsolável:  "Não temos." Mas

como  não  tinha?  Pois  estava  ali  mesmo,  muito  bem

enroladinho! E o moço ficou tão admirado como se ele

fosse o comprador e eu o dono do negócio.

  Mas o que me assombra não é que as pessoas ignorem

o que vendem: o meu assombro é pensarem que eu

sempre quero dizer outra coisa. Não! eu sempre quero

dizer o que digo.

    58

    LUZES DA TERRA E DO CÉU

Coincidiu este ano com a data de Santa Luzia - a de

luminoso nome - o 25 de Kislev do calendário judaico,

que  marca  o  início  da  festa  do  Hanucá.  Embora  se

possa atribuir a esse "festival das  luzes" alguma longínqua

raiz entre as remotas celebrações . do solstício de

inverno, também é certo que sua instituição vem claramente

assinalada no Livro dos Macabeus. Derrotado o

invasor  que  havia  saqueado,  e  profanado  o  Templo,

Judas restaura, com os seus, o Lugar Santo, purificando-o

e  preparando-o  para  o  serviço  religioso,  que se

inaugura,  afinal,  entre  cânticos  e  música  de  cítaras,

címbalos e harpas, no vigésimo quinto dia do nono mês

do ano de 164 antes de Cristo. Duram oito dias essas

festas de inauguração, e estabelece-se que todos os anos,

na mesma época, oito dias de festa recordem para sempre

a famosa vitória.

  Diz-se que no Templo invadido o candelabro derrubado

bado conservara acesa  apenas uma última e vacilante

luz.  Os  judeus  partiram  em  busca  de  óleo  para  lhe

acenderem todos os braços. Assim, na festa do Hanucá,

durante oito dias, vão sendo acesas sucessivamente oito

luzes, por uma lâmpada auxiliar que tem o nome de

Shamosh, ou "servidor".

  A festa caracteriza-se ainda pela distribuição de presentes

às crianças, o costume de se servir certa iguaria,

semelhante a uma pequena panqueca, a levivá, e a utilização

de uma pitorra ou pião, o svivon, com que as

crianças  tiram  à  sorte  confeitos  e  chocolates  que  se

encontram na mesa da festa.

 As luzes do candelabro do  Hanucá fazem-nos logo

pensar na árvore do Natal, com seus brilhantes adorIios.

Os  presentes  dedicados  exclusivamente  ou  principalmente

às crianças aproximam ainda mais as duas festas.

A utilização  do  svivon  é  mais  um  curioso  pormenor

para os estudiosos de fatos tradicionais. Pois, embora

no Brasil se vá perdendo rapidamente a memória desse

pião do Natal, o folclore português assinala sempre a

sua presença no jogo do `rapa' com que os rapazes sE

entr têm,  tirando  à  sorte  nozes,  avelãs,  confeitos  ou

pinhões, nas festas de 25  de dezembro, Esse pião de

quatro faces tem em cada uma a inicial de quatro palavras:

rapa, tira, deixa e põe, e conforme a letra que

fique voltada para cima, o jogador rapa o que foi apostado,

ou tira apenas uma parte, ou deixa tudo na mesa,

ou ainda põe alguma coisa mais.

  No caso do svivon também há quatro letras assinaladas

nas  quatro  faces:  as  iniciais  da  frase  hebraica:

"Aconteceu aqui um grande milagre."

  A presença, em ambas as festas, desse pequeno pião

que gira misterioso entre as luzes acesas do Antigo e do

Novo Testamento, na mesma época do ano, é uma sedução

para os que se lembram de antiqüíssimos ritos solares

associados  a  rotações,  círculos  de  fogo,  circulação

da vida em luz, entre o céu e a terra:  de um pólo a

outro, nascimento do mundo e nascimento  do espírito

- luminoso enigma.

 

          ANTIGUIDADES

 

O dono da loja está sentado, sonolento, num cadeirão

de couro lavrado. Pode ser que me engane: mas tenho

a impressão de que não entende nada dos objetos que

o cercam. Parece mesmo que lhe inspiram mais do que

profunda indiferença, um vasto desamor.

  Em redor dele há oratórios vazios, saudosos de santos.

(ele nem sabe disso.)  Há quadros com moças mitológicas,

envoltas em véus, a dançarem entre nuvens e espumas.

(Não olha para elas.) Há estatuetas de bronze que

representam a Justiça, a Vitória, a Juventude, Diana e

Cupido, Napoleão e Pasteur. (O dono da loja não deve

ter lido jamais as etiquetas de cada bronze.)

  Entra-se na loja, apenas para ver, e ele continua sentado,

sonolento, num torpor de quem se desligou completamente

deste mundo.

  Ali  estão  as  garrafas  de  cristal  dos  banquetes  dos

nossos avós: garrafas sem tampas e tampas sem garrafas,

pobres  destinos  desencontrados  e  inocentes.  Ali  estâo

belas maçanetas venezianas que deviam servir a portas

maravilhosas de salôes que não existirão mais. Pratos e

xícaras, lampiões e jarras perfilam-se com serena dignidade

nas prateleiras poeirentas.  Pequenas jóias quebradas,

com falta de pedras. Trinchantes de lâmina enferrujada.

Molhos e molhos de talheres com melancólicos

monogramas  entrelaçados.  (Amorosos  tempos  de  casamentos

indissolúveis, de iniciais abraçadas, de lares que

pretendiam ser a imagem da Eternidade!)

  O  dono da loja continua tranqüilo no seu cadeirão

de couro, sem dar a menor atenção aos visitantes. Por

um lado, é comovente a sua confiança nos estranhos

que entram e saem. Mas leva-me a crer que apenas está

seu corpanzil naquela enorme cadeira:  que seu espírito

(isto é, aquilo que não seja propriamente o corpo) ronda,

vigilante, os infinitos objetos que jazem na sua loja, sob

e sobre poeira. Pois se alguém se lembra de perguntar:

Qual é o preço daquela jarra? Quanto custa aquele

prato?", imediatamente aquilo que nâo é apenas o seu

corpo vem à tona da poeira e exala números um pouco

fantásticos:  "Vinte mil cruzeiros ... Trinta mil... " E

tudo continua a ser sonolência e pó.

 Ah!  compoteiras  gloriosas,  que  um  dia  brilhastes

com o topázio e o rubi dos doces de carambola e goiaba!

Ah!  taças lapidadas erguidas entre discursos, bordadas

de  sussurrante  espuma!  Ah!  vulto  de  alabastro  que

fostes como um raio de luar entre remotas sedas drapeadas!

...Tivestes os vossos donos, que vos amaram,

que  vos  admiraram,  que  vos  protegeram  para  que  a

vossa beleza não sofresse nenhum agravo. E agora sois

objetos  desparelhados,  que  uns  acham  velhos  demais

que outros não acham suficientemente velhos, e assim

habitais  esse  mundo  de  poeira;  e  representais  apenas

um certo  preço:  o  preço  consignado  nos  catálogos,  e

que a memória de um homem sonolento  diz em voz

alta, como se vos batesse com uma vara e vos partisse.

    62

    SÚPLICA  POR  UMA  ÁRVORE

Um dia, um professor comovido falava-me de árvores.

Seu  avô  conhecera  Andersen-Andersen,  esse  pequeno

deus  que  encantou  para  sempre  a  infâricia,  todas  as

infâncias,  com  suas  maravilhosas  histórias.  Mas,  além

de conhecer Andersen, o avô desse comovido professor

legara a seus descendentes uma recordação extremamente

terna: ao sentir que se aproximava o fim de sua vida,

pediu que o transportassem aos lugares  amados, onde

brincara  em   menino,  para  abraçar  e  beijar  as .árvores

daquele mundo antigo - mundo de sonho, pureza, poesia

- povoado de crianças, ramos, flores, pássaros . . .

O professor comovido transportava-se a esse tempo de

ternura, pensava nesse avô tão sensível, e continuava a

participar, com ele, dessa cordialidade geral, desse agradecido

decido  amor  à Natureza que, em silêncio, nos rodeia

com a sua proteção, mesmo obscura e enigmátìca.

  Lembrei-me de tudo isso ao contemplar uma árvore

que não esqueço, e cujo tronco há quinze dias se encontra

todo ferido, lascado pelo choque de um táxi desgorvenado.

Segundo  os  técnicos,  se não  for  socorrida,

essa árvore deverá morrer dentro em breve: pois a pancada

que  a  atingiu  afetou-a  na  profundidade  da  sua

vida.

  Uma  testemunha  realista,  meramente  interessada  na

descriçâo dos fatos aparentes, contaria que, uma destas

tardes, um  pobre táxi obscuro, rodando dentro da quilometragem

regular,  foi  abalroado  por  um  poderoso

furgão, de maneira tâo jeitosa que o motorista foi cuspido

do seu lugar; e o carro, em movimento, dirigiu-se,

desgovernado, para cima, para baixo, para a direita e

para  a esquerda,  até  se  amassar contra uma  árvore.

Apenas  isso:  sem falar que  o  táxi levava passageiro,

que, no seu lugar, aguardava o desfecho desse jogo de

forças cumprindo-se inexoráveis dentro das leis da física.

 Mas um observador mais sensível, mais dedicado ao

que mora além das aparências - sem divergir da descrição

gráfica do fato -, veria, no instante mais agudo

da situação, a bondosa, a caridosa, a dadivosa árvore

enfrentar o  desastre  com  a sua solidez  estóica, deter  o

desvario da máquina, embora expondo ao risco a sua

vida.

 Com  que  abraço  se pode  agradecer  o  heroísmo  de

uma árvore? Num tempo em que os homens se destroem

com pensamentos, palavras e atos,  de que maneira se

pode louvar uma árvore que protege e salva, embora

anônima e em silêncio? A quem se deve pedir que venha,

com os recursos  de que os homens  dispõem, impedir

que se extinga a vida vegetal que salvou uma vida humana?

Vinde, senhores da cidade!, tratai desta árvore

símbolo! Tratai-a com amor, porque está sofrendo,

por que está ferida, porque não se queixa - e para que

não se diga que os homens são menos generosos  que

as  plantas.

    64

    INVERNO

Com este frio que faz, Petronilha, devíamos ter uma

boa lareira. Estaríamos sentadas uma diante da outra,

e talvez eu me animasse a reaprender a técnica de tricô.

Na Europa, minha amiga Eva, mesmo sem lareira, senta-se

no cantinho mais abrigado da sua casa e, com uma

velocidade impressionante, faz meias, casaquinhos, toucas,

xales, que manda distribuir pelos pobres sem que

eles  jamais  tenham  visto  ou  venham  a  conhecer  as

suas . mãos. Os  pobres pensam que tudo isso lhes cai

do céu, ficam muito felizes, pois o celestial é infinitamente

superior ao terreno,  e agradecem a Deus tamanha

nha  ventura  como  a  de  envolver  as  criancinhas  em

lindas  complicações  de  lã.  Mas  aqui,  Petronilha,  não

sei  se  existem  as  mesmas  disposições  para  o  maravilhoso.

Os pobres parece que não gostam tanto de receber

ber essas coisas tecidas com amor e aparecidas nas suas

mãos  como  presentes  de  fadas:  preferem  comprar  os

grosseiros produtos  da indústria expostos  nos  bazares.

Não, Petronilha, não voltarei ao tricô. Voltarei, sim, à

lareira, onde, ao excitante calor das chamas, inventare-

mos meios e modos de aquecer os friorentos sem ser

por esse sistema quase sobrenatural.

 Tenho visto lareiras, Petronilha. Alguma coisa muito

antiga deve haver no fundo da nossa alma, para assim

nos alegrarmos com o crepitar da madeira, com o flutuar

tuar das labaredas amarelas e vermelhas, com o cheiro

da  lenha  queimada,  com  o  prazer  de  revolvermos  as

últimas brasas na cinza. Tudo isso é primitivo e . alado,

ao mesmo tempo. Não me faz pensar no Inferno dos

doutores da Igreja, mas no nascimento do mundo, em

franjas  do  Sol  a  brincarem  na  Terra,  em  pequenos

recados de luz, apenas balbuciantes. Tudo isso é lindo,

Petronilha, e eu insisto em sonhar - dado o frio que

faz -  com  uma  lareira  bem  alta,  bem  larga,  bem

luminosa.

 Mas quando me lembro que essa lenha vem das florestas,

que  estão  sendo  queimadas  belas  árvores  para

o nosso prazer, entra-me no coração uma tristeza igual

a uma leve mas  penetrante seta. Mereceremos  nós o

sacrifício de uma só árvore?

 Um dia, à margem de um rio, vi homens a fazerem

um barco. A madeira recendia, cor de marfim, aberta

ao sol. Os homens aparelhavam-na destramente,  e eu

contemplava a distância aquela transformação da árvore.

Senti a mesma pena, mas pensei que nâo era tão grande

a ofensa, pois a árvore poderia envelhecer, apodrecer,

ignorada, na mata, se não a aproveitassem com aquela

habilidade e aquele amor.  Porque havia amor naquele

trabalho  de  tal  metamorfose.  E  a  árvore,  despregada

do solo, dessa fixação a que está condenada, iria navegar,

deslizar pelo rio, conhecer outros aspectos daquele

lugar onde nascera, ver as colinas, ver os penedos,

ver os peixes, ver muitas coisas - pois certamente lhe

pintariam dois grandes olhos, na proa, como já faziam

os antigos, e ainda lhe dariam um bonito nome protetor,

como é de uso com os próprios humanos.

 Assim me consolei, Petronilha, da árvore transformada

em barco. Era, de certo modo, engrandecê-la, arrancá-la

à  obscuridade  e  oferecer-lhe  um  mundo  novo,

onde seria amada e feliz.

 Mas com a lareira é diferente,  Petronilha. As belas

árvores  despedaçadas transformam-se em fogo e cinza.

Desaparecem. A glória efêmera das labaredas é glória

apenas para os nossos olhos. Mas, para a madeira, além

de efêmera é cruel. A árvore arde na sua própria chama,

é o sacrifício e a vítima, a um só tempo. Não,

Petronilha,  creio  que  não  quero  mais  a  lareira.  Não

faremos  tricô  para  os  friorentos,  nem  estaremos  "ao

pé  do  fogo  dobando  e fiando"   , e  a  dizer  versos  de

Ronsard, que não escreveu para nós... Já passaram  os

séculos sobre Ronsard e Helena . . .  Creio que as lareiras

devem ficar também no horizonte dos séculos. Não

Petronilha, não vamos consentir nessa morte das árvores

para o nosso conforto. Vamos vestir todos os nossos

agasalhos e contemplar a linda, embora fria chuva que

continua

a cair pelo jardim, pela montanha, pela terra. . .

    67

    SEMANA SANTA

Penso agora numa Semana Santa de Ouro Preto, recordo

do a melancolia das igrejas, na cidade contrita. Posso

ver  a  multidão  comprimir-se  para  assistir  à  Procissão

do Encontro:  no alto dos andores, o rosto da Virgem

é  uma  pálida  flor,  e  a  cabeça  do  Cristo,  inclinada,

balança os cachos do cabelo ao sabor da marcha, com

um ar dolente de quem vai por um caminho inevitável.

O pregador começa a falar explicando aquela passagem

do  Evangelho,  exorta  os  fiéis  à  contemplação  daquela

cena, cuja significação mais profunda procura traduzir.

Mas o povo já está todo muito comovido: as velhinhas

choram, as crianças fazem um beicinho medroso e triste

e  as  moças  ficam  pensativas,  porque  -  embora  em

plano divino - os fatos se reduzem à desgraça cotidiana,

que elas conhecem bem, de um Filho que vai morrer,

e cuja Mãe não o pode salvar, e que ali se despedem,

uma com o peito atravessado  de punhais, outro

com a sua própria cruz às costas. 'O  povo é bom, o

povo quereria que todas as Mães e todos os Filhos fossem

felizes, e se pudessem socorrer, e não morressem

nunca, e principalmente não morressem dessa maneira,

pregados  a  cruzes  transportadas  nos  próprios  ombros.

  O povo é bom, e sabe que o Cristo ressuscitará, o

povo  confia  na  Ressurreição,  mas  sua  tristeza  não  é

menor, por isso, e há lágrimas sinceras nos rostos simples

que levantam o perfil para os andores parados na

encruzilhada.

  A  descida  da  Cruz,  novamente  a  aflição  dos  fiés,

com o rosto banhado em lágrimas. Tudo foi há muito

tempo,  êrii  termos  sobre-humanos,  eles  o  sabem:  dizia

como se pode ver Nossa Senhora com seu terno Filho   ,

assim despregado e em chagas, a resvalar para os seus

braços consternados? Ah! o povo é bom e não pode

deixar de comover-se com a Santa Tragédia, que, em

termos humildes, é a sua tragédia de cada dia, com os

braços  infelizes  estendidos para filhos  martirizados.

 Depois,  à luz  dos  círios, na interminável procissâo

que sobe e desce pelas ladeiras, o povo, de olhos lutuosos,

experimenta em seu coração aquele acontecimento

duplamente emocionante, conhecendo-o também no plano

terrenal, na angústia e no mistério da morte, a cada

instante observada e sofrida. Pelas ruas, o povo bom

acompanha o enterro do Justo, agüentando com fortaleza

o cansaço do íngreme caminho;  e pelas janelas,

como pelas ruas, o povo bom participa daquela amargura,

morre  em  seu  coração  daquela morte,  aceita  a

sua condição humana, naquele lance final, depois de

se ter preparado para ele através das provações anteriores,

 graves e acerbas.

 Tudo isso enquanto as matracas fazem um acompanhamento

surdo,  tenebroso,  ameaçador,  e  os  cabelos

da Madalena exibem sua amorosa beleza, e a voz que

canta  o  O  vos  Omnes  se  eleva,  pungente,  na  noite,

fazendo chorar o povo  bom, que tera suas  dores tão

grandes, tão grandes, mas decerto menores do que a

daquela  que  pergunta:  "Conheceis  uma  dor  igual  à

minha?" - e expõe a Santa Verônica.

  Oh, a dor dos pais pelos filhos! Abraão vai no cortejo,

querendo descarregar a espada sobre  Isaac, para

provar a Deus sua devoção. Mas o Anjo compadecido

puxa-lhe a espada para cima. Não, não é preciso que

ele sacrifique o menino que também vai carregando às

costas  o  pequeno  feixe  de  lenha  do  seu  sacrifício:

"Abraão, Abraâo, não estendas a tua mão sobre o menino,

e não lhe faças mal algum..." Deus é bom, o

povo é bom, uma onda de bondade comove a noite inteira,

das estrelas do céu até o tundo dos côrregos ...

  Depois, é aquele amanhecer festivo de coisas claras

e douradas, de cânticos felizes, de sinos, com todas as

lágrimas enxutas, porque um dia todos os Filhos serão

felizes, nem Isaac será queimado no alto do monte nem

Jesus crucificado;  um dia todas as Mães serão definitivamente

jubilosas, e as velhinhas  agradecem a  Deus

- há  dois zizil  anos  as velhinhas  agradecem  a Deus

tanta bondade - e as moças sentem o coração dilatado

de esperanças, e os anjinhos de procissão, que agora

mal podem andar com suas grandes asas de penas brancas,

os anjinhos que um dia vão ser crescidos, adultos

e  vão  saber  destes  difíceis  problemas  de  viver,  de

serem filhos  e  de  serem pais,  esses  anjinhos,  de  pés

cansados  e  carinhas  alegres,  comem  os  seus  confeitos

de Páscoa, ainda de asas e túnica, à beira das calçadas,

no degrau das portas, em alguma ponta de muro . . .

  O  povo bom sofre uma vez por ano, intensamente,

seu compromisso de ser bom, de ser melhor, cada dia

mais, para sempre. O destino do homem é ser bom. Sua

felicidade está em consegui-lo, mesmo-ou principalmente-sofrendo.

    70

    ÀS VINTE E DUAS HORAS

Às vinte e duas horas devíamos todos estar dormindo,

para vivermos um século, se acreditássemos no provérbio

que "acordar às seis, almoçar às dez, jantar às seis,

deitar às dez, faz o homem viver dez vezes  dez..."

Mas ai! quem acredita mais em provérbios? quem sabe

provérbios?  que são  provérbios?  A  vida  mudou  quase

de repente, e os hábitos tornaram-se outros, e é outra

a moderna rotina. (E será bom viver um século?)

 As vinte e duas horas, se dormíssemos, talvez tivéssemos

belos sonhos, talvez nos despertasse alguma serenata.

Mas  a  província  do  Rio  de  Janeiro  ainda  nâo

perdeu  seu  estilo  de  grande  cidade:  nem  as  crianças

querem deitar-se a esta hora! e mesmo os anciãos e os

doentes  acham  que  a  esta  hora  ainda  se  pode  estar

acordado, ainda é tempo de ver, ouvir, pensar, falar...

Todos  queremos  prolongar  o  tempo,  vivê-lo  mais:  a

cada instante pode sobrevir uma revelação importante!

Cada minuto é um mistério.  E o  que amamos,  acima

de tudo,  é  o mistério:  dele viemos,  nele perduramos,

para ele nos dirigimos.

 As vinte e duas horas, cada um está vivendo um instante

diferente, como a qualquer outra hora do dia ou

da noite: alguém pode estar nascendo, alguém pode estar

morrendo.  Alguém  pode  estar  pedindo  socorro,  e

não sabemos.  Alguém pode estar sendo feliz, até sem

o saber.

 As vinte e duas horas, há luz no gabinete dos que

estudam, na sala dos que conversam, nos aposentos dos

que sofrem, dos que esperam, dos que amam.  Vemos

#essa sucessão de luzes, vidraças sobre vidraças, ao longo

das imensas ruas. Cada luz pertence a um instante diferente.

A distância unifica tudo em silêncio:  mas há

palavras muito diversas, na ôrbita de cada lâmpada. Se

pudéssemos  ouvi-las  todas,  veríamos  de  que  surpreendentes

contrastes é feita essa aparente identidade.

 Às vinte e duas horas, as ruas estão desertas, de um

lado;  repletas, de outro:  há beldades, como flores noturnas,

que só depois das vinte e duas horas exibem o

seu esplendor: é uma hora mais escura para os pobres,

nas suas tocas - mas é uma hora mais clara para as

sedas e os diamantes. As sombras da noite sâo assim

caprichosas.

 Mas tudo é enganoso, estas vinte e duas horas são

também uma ilusão, porque em outros lugares amanhece,

em outros é pleno dia, e em cada ponto da Terra um

momento  diferente  marca uma outra  atividade  e  um

outro sonho. E tudo isto que pesa nos nossos ombros

e na nossa alma se vai tornando aladQ, leve, livre, e a

própria Terra vai deixando de ser este cenário próximo

e  aflitivo:  recuperando  suas  velhas  asas,  reafirmando-se

Planeta, no vôo do universo!

  E que quer dizer "vinte e duas horas"?

    72

    HISTÓRIA  QUASE MACABRA

Aquele senhor contou-me que conhece um lugar cujas

condições  climáticas  mumificam  os  cadáveres  enterrados,

sem necessidade de qualquer embalsamamento. Ele

esteve  nesse  lugar,  como  turista,  quando  se  podia  já

visitar um museu subterrâneo onde os antigos mortos

se  apresentavam  intactos  em  seus  corpos  e  em  seus

vestidos.

  Sucedeu  que,  na  época  das  exumações,  começaram

a encontrar esses corpos assim admiravelmente conservados.

Pensaram,  a  princípio,  que  fossem  casos  especias,

quem  sabe,  mesmo,  casos  de  santidade.  Mas  à

medida que iam sendo feitas as sucessivas exumações,

no prazo que a cada uma correspondia, notou-se que o

fenômeno era geral. Foi quando alguém, com forte vocação

turística, sugeriu que se organizasse o tal museu

subterrâneo. Não sei de pormenores a respeito, porque

aquele senhor me contava essas coisas com certo constrangimento,

dada  a  sua  reverência  pelos  mortos  e  o

que  se  seguiu,  na  conversação.  Parece  que levantaram

uma parede de vidro, para se poder ver aquela exibição

fúnebre, e que os mortos, embora em seus ataúdes,

foram colocados em posiçâo vertical. Era o que se podia

deduzir dos gestos com que aquele senhor fazia a

sua respeitosa descrição.

  Todos  os  museus  têm,  naturalmente,  seus  conservadores

dores e seus guardas. E seus guias. O guia deste museu

não  podia  limitar-se  a  acompanhar  os  visitantes  para

lhes oferecer esse singular espetáculo. Estudou a história

de cada morto: essa parte da história de cada um

que  se supõe suficiente para retratar qualquer pessoa,

e  que, em  geral, consta apenas de uns  míseros  dados

superficiais - datas, lugares, vagos pontos de referência.

Ainda há muitos homens antropófagos, quero dizer,

ávidos  de  devorar  a  vida  do  próximo,  de  saber  pormenores,

de  penetrar  em  intimidades,  dé  colecionar

anedotas,  pequenos  fatos  sem  importância,  mas  que

sejam parte da história de alguém, que muitas vezes nem

conheceram, mas que lhes dá prazer saborear, assimilar.

É muito triste este mundo.

 Então o guia do cemitério,  não  desconhecendo essa

vocação antropofágica, sobretudo dos turistas, que nem

mastigam as vítimas - vão absorvendo tudo, contanto

que sintam encher-se com o verídico e o inverídico os

celeiros estéreis da sua imaginação -, o guia começou

a  fazer  suas  divagações  sobre  os  pobres  mortos  ali

expostos como se lhes não bastasse a infelicidade dessa

póstuma exibição, e ainda tivessem de servir de pasto

à fome dos  visitantes  com biografias  que não  correspondiam à verdade.

 Mas  a verdade é mesmo muito  difícil de  discernir.

Que saberiam os mortos das suas verdades de vivos?

Os mortos têm outras verdades, devem ter os seus monólogos

e  diálogos, e o que foram é uma coisa  sem

sentido, em face do que passam a ser. Talvez o guia,

obscuramente, pensasse desse modo: e ia fabricando os

seus romances, segundo a própria aparência dos personages.

Os mortos não têm todos  a mesma aparência,

Uns  tornam-se  amarelos;  outros, verdes,  azuis,  cinzentos,

com placas acobreadas; e alguns ficam meio trans-

lúcidos, como alabastro, e há os que parecem de pérola,

com um vago luar iluminando-os.

  Disse-me  aquele  senhor  que  nem  todos  os  mortos

do cemitério estavam exatamente bem-conservados. Mas

alguns  podiam  ser  considerados  perfeitos. ,Um  homem

de  uns  quarenta  anos,  extrem,mente  bem-vestido,  era

o exemplar mais  admirável  da exposição.  Tinha finas

mãos,  muito  alvas,  e  uma  fisionomia  romântica  de

grande  expressão.  Seus  cabelos  negros  mantinham-se

bem penteados, com o brilho natural dos cabelos vivos

e uma grande onda descia-lhe um pouco pela testa, ampla

e serena, e perdia-se por detrás da orelha. Todos os

visitantes se interessavam por aquela figura, e queriam

conhecer a sua vida, a sua profissão e tudo mais que

neste mundo se usa querer saber pela curiosidade antropofágica.

 A princípio, o guia dava os pormenores que constavam

vam do próprio livro do cemitério. Mas um dia, sob a

excitante influência dos turistas, começou a divagar, a

contar fatos da sua imaginação, a atribuir ao morto o

que  Ihe  parecia  corresponder  à  sua  romântica  figura.

Mas, disse-me aquele senhor que a certa altura parou,

e perdeu  para  sempre  a  voz.  Os  turistas  não  viram:

mas o guia deixou escrito que o morto abrira os olhos

fitara-o muito  sério,  e  dissera-Ihe,  num, suspiro:  "Deixa-

-me em paz. Por que mentes assim?"

    75

    LEMBRANÇA DE

    ABHAY KHATAU

Quando visitei, na lndia, o pintor Abhay Khatau, ele

era um jovem de vinte e poucos anos, e morava num

desses  prodigiosos  palácios  de  complicada  construção,

com  inúmeras  escadas,  sucessivos  terraços,  múltiplas

varandas,  que  resumem  o  sentido  patriarcal  de  uma

época,  em  aconchegar,  verdadeiramente  como  numa

árvore, os vários  ramos  da família que se vai multiplicando.

  A medida que subíamos para o seu apartamento, o

palácio ia-se oferecendo à vista sob os mais inesperados

aspectos: e era como se fôssemos percorrendo uma

galeria de miniaturas clássicas: numa sala, meninas cantavam

e dançavam, esbeltas e transcendentes, apoiando

seus exercícios em pensativas músicas; noutra sala, um

homem,  acocorado  à  maneira  oriental,  ocupava-se  em

passar  a  ferro  um  sári  que  serpeava  em  cores  pelo

assoalho; mais adiante estavam sendo socadas as especiarias

que dão  à cozinha indiana esse aroma cálido,

acre,  picante,  delícia  dos  que  a  apreciam,  pavor  dos

que a detestam. Tudo isso entrecortado de céu azul,

de frondes,  de paredes brancas,  de roupas  de muitas

cores.

  Depois do chá com bolinhos de arroz e pasteizinhos

muito  quentes e  gordurosos (entre  pessoas  não  apenas

amáveis e cultas, mas para as quais a arte ainda é uma

coisa  sagrada, um dom de transmitir mensagens entre

o céu e a terra, entre a eternidade do espírito e a volubilidade

do momento) começaram a aparecer os desenhos

e pinturas do jovem Abhay Khatau.

  Afinal, quem era ele, e que nos tinha a dizer, com

seus quadros? As primeiras alusões eram à sua riqueza:

uma riqueza que nos transportaria a panoramas lendários,

colocando-o numa situação ímpar, com inteira liberdade

para consagrar-se exclusivamente à sua vida artística.

Havia  também  a  sua  precocidade.  Ele  nascera

pintor:  só se entendia com tintas, cores, símbolos gráficos.

Essa era a sua comunicação com o mundo, e o

que o mundo lhe dizia chegava também traduzido nessa

linguagem. Essa linguagem e essa comunicação; além de

cores, tinham ritmo. Esse ânimo dançante que a India

sente palpitar na Criação, e que vivifica suas tradições

e se reflete na imagem de seus deuses, apoderava-se também

da inspiração de Abhay Khatau, tornando sua pintura

implicitamente musical.

  Entre os quadros que iam aparecendo, surgiram também

os sáris do enxoval de sua noiva, executados sobre

desenhos por ele amorosamente sonhados: a esse desdobrar

de sedas coloridas, em fabulosas combinações  de

tonalidades  e  desenhos  entremeados  de  ouro,  desatou

de repente pequenas  cascatas cintilantes  em redor da

sala que a cada instante se ia tornando mais fantástica.

  Os pintores atuais da India não obedecem exclusivamente

aos  temas  e  técnicas  tradicionais:  há  curiosas

fusões do Oriente com o Ocidente, em seus trabalhos,

e acentuações, ora no assunto, ora no estilo, que revelam

as inquietudes e buscas desses jovens.

  Abhay Khatau tinha viajado pela Europa, conhecera

a   Itália, cujos museus visitara e cujo teatro de ópera

particularmente  havia  impressionado  sua  sensibilidade

de pintor. A movimentação e o colorido do espetáculo,

a estranheza da indumentária fantasiosa refletiam-se em

seus quadros com aquela fisionomia febril das esculturas

amontoadas nas paredes dos velhos templos indianos.

  Mas Abhay Khatau observara também certos aspectos

da vida social  do  Ocidente.  E  começaram  a aparecer

desenhos realistas de senhoras rubicundas, com grandes

decotes, extravagantes vestidos,  que ele,  sem nenhuma

intenção caricatural, antes com a mais respeitosa seriedade,

ia sobrepondo diante de nós, em telas e cartões.

 Nós é que víamos, com pungente melancolia, a finalidade

deste mundo nosso, agitado e superficial, de modas

vãs, de exibicionismo sem sentido, de reuniões sem finalidade

séria, de vida falsa, oca, demoníaca.

 As mulheres veladas, a cortesia da palavra e do gesto,

o recato da alma preocupada com os seus temas, tudo

quanto em redor de nós, na India, seduzia e deslumbrava,

parecia-nos pertencer a outra idade, a outro tempo

humano.  O  Ocidente  era  um  grito  brutal,  no  meio

daquela música.

 Mas Abhay Khatau ia mostrando seus quadros com

a mais  suave naturalidade.  Como um professor isento

de paixões, que expõe a sua lição. E ele mesmo não

pensava em liçâo nenhuma. Pensava em cores, figuras,

ritmo, essas vagas invenções.

    78

    A ARTE DE NÃO FAZER NADA

Dizem-me que mais de metade da humanidade se dedica

à prática dessa arte;  mas eu, que apenas recente e

provisoriamente  a  estou  experimentando,  discordo  um

pouco da afirmativa. Não existe tal quantidade de gente

completamente  inativa:  o  que  acontece  é  estar  essa

gente interessada em atividades exclusivamente pessoais,

sem conseqüências úteis para o resto do mundo.

  Aqui me encontro num excelente ponto  de observação:

o lago, em frente à janela, está sendo percorrido

pelos botes vermelhos em que mesmo a pessoa que vai

remando parece não estar fazendo nada. Mas o que verdadeiramente

está  acontecendo,  nós,  espectadores,  não

sabemos: cada um pode estar vivendo o seu drama ou

o seu romance, o que já é fazer alguma coisa, embora

tais vivências em nada nos afetem.

 E  não  posso  dizer que  não  estejam fazendo  nada

aqueles que passam a cavalo, subindo e descendo ladeiras,

atentos ao trote ou ao galope do animal.

 Há homens longamente parados a olhar os patos na

água.  Esses,  dir-se-ia  que  não  fazem mesmo  absolutamente

nada: chapeuzinho de palha, cigarro na boca, ali

se deixam ficar, como sem passado nem futuro, unicamente

reduzidos àquela contemplação.  Mas  quem sabe

a lição que estão recebendo dos patos, desse viver anfíbio,

desse destino de navegar com remos próprios, dessa

obediência  de  seguirem  todos  juntos,  enfileirados,  clã

obediente, para a noite que conhecem, no pequeno bosque

arredondado?  Pode  ser um grande  trabalho  interior,

o desses homens simples, aparentemente desocupados,

á beira de um lago tranguilo.De muitas experiencias

contemplativas  se  constrói  a  sabedoria,  como  a

poesia. E não sabemos - nem eles mesmos sabem -

se este homem não vai aplicar um dia o que neste momento

aprende, calado e quieto, como se não estivesse

fazendo nada.

  Assim os rapazinhos que se divertem em luta violenta,

derrubando-se uns aos outros, procedem a uma avaliação

de  forças,  de  golpes  de  habilidade:  lições  de

assalto  e  defesa,  postas  em  prática  espontaneamente.

Pode . algum  curso  ser  mais  interessante  do  que  este,

que encontra já os alunos vivamente dispostos a segui-lo?

 E aqui pelo salão fala-se de coisas que muitos julgariam

fúteis: de jogos de cartas, do valor convencional

de ases e coringas . . . Mas os que assim conversam estão

de  tal  modo  necessitados  desses  conhecimentos  como

outros, neste mundo, de uma leitura filosófica ou científica.

Não se pode, em sã consciência, dizer que não

estejam fazendo nada.

  Mesmo estas mocinhas que trouxeram para a vitrola

seus ruidosos discos americanos e ainda recomendam:

"Ponha bem alto!  Ponha bem alto!" -, embora conversem

de outra coisa e nâo prestem nenhuma atenção

à música, estão escravizadas ao seu ritmo, que vão acompanhando

com os ombros, com as mãos, com requebros

da cabeça. Não estão fazendo nada? Mas estão  disciplinando

a sua própria cadência;  estão  acertando pelo

compasso da época (se é pior ou melhor esse compasso,

quem  o  ousará dizer?)  a  sua  própria vida,  como  o

colegial que acerta, em pauta dupla, sua caligrafia.

  Não, não;  estou desconfiadíssima de que a tal arte

de não fazer nada não existe. Pois estas senhoras, certamente,

vieram para aqui a fim, de não se dedicarem

a coisa nenhuma: e eis que encontram trabalhos dobrados,

pois  a  cada hora do  dia  pensam em mudar  de

roupa e em se fazerem mais originais e mais bonitas. E

os  cavalheiros  que  as  acompanham,  com tanto  tempo

que àgora têm á sua disposição, dedicam-se a gentilezas

e  solicitudes  que  representam  um  trabalho  meritório,

sem dúvida, mas  delicado e ininterrupto.  Quem falou

em férias, em descanso, em arte de não fazer nada?

As pessoas mais disponíveis são as que vêm tratar

da saúde. Pois de manhã cedinho já estão vestidas, a

caminho do balneário, onde lutam com os seus cálculos

e  alergias, em vigorosos  banhos, em duchas  e massagens.

E atravessam a manhã ocupadas com o relógio, a

controlarem os goles d'água de seus copinhos. E atravessam

o dia ocupadas com a sua dieta e o seu descanso,

de modo que seria grande injustiça imaginar que

não estejam fazendo nada.

Até as crianças, que gozam da fama de uma existência

de contínua gratuidade, tentam, à tardinha, brincar

de roda, recitar versos, dançar e cantar, o que lhes

custa um enorme esforço, pois as tradições vão desaparecendo.

E é tudo assim.  Não vejo  nada inativo:  nem estas

nuvens  que  parecem  paradas,  nem  estes  passarinhos

que voam para o norte, nem o cavalo abandonado à

margem  da  estrada,  que  meneia  a  cauda  indolentemente.

Apenas, talvez haja um valor e uma hierarquia

nessas atividades. Mas quem sou eu, para defini-las e

recomendá-las?

    81

    CARNAVAL DO  RIO

O  Carnaval   começa  a  borbulhar,  aqui,  certa  noite,

obscuramente,  no  negrume  dos  morros.    apenas  um

ritmo surdo, um movimento de arrulho que embala o

sono  dos  vales.  Prossegue,  prossegue,  palpitante,  na

sombra,  na  distância,  como  um  coração  cansado  e

opaco num vasto corpo de silêncio.

 Pouco a pouco, esse ritmo noturno se vai despojando

de suas franjas secretas, seu contorno vai sendo mais

forte e mais nítido, como se, deixando seus esconderijos

rasteiros,  se fosse libertando  da  pesada poeira  do

seu  nascimento.  E  então  já  se  pode  acompanhar,  de

muito longe, aquele andamento invisível e que adquire

ressonância, que já não é uma simples cadência monótona,

mas uma construçâo de sons  que de repente se

entrelaçam,  vão  baixando  e  recomeçam,  no  alto  da

noite,  pelos  seus  densos  muros,  longas  inscrições  gravadas

como essas que perduram nas edificações muçulmanas.

  Pouco a pouco,  também, vozes muito esguias  começam

a elevar-se, como letras compridas e vistosas, nessas

prolongadas e fluentes inscrições. São vozes várias, que

também se enlaçam, e chamam e respondem, e se dis-

persam na vastidão da noite. De tão longe, não se pode

entender o que dizem, mas sente-se o apelo, a ternura   ,

a melancolia do grico. E esse instante humano faz sonhar

com  tempos  passados,  com  a  envolvente  presença  de

uma boa gente negra, séria e generosa, ainda não desprendida

de seus compromissos  de ritos, de mitos, de

lendas, de fábulas.

Com a sucessão das noites,tudo vai ficando mais

claro: o ar adquire transparência e os sons se aproximam

do  nosso  ouvido,  com  todas  as  suas  múltiplas

riquezas.  Não  apenas  o  bater dos  tambores, o  ranger

das cuícas, o martelar abafado das madeiras,  mas vibrações

de  metal, oscilações, interferências  de  vidro;  desenhos

agudos,  estridentes,  redondos,  prateados,  veludosos:

pássaros, sinos, insetos, comandados por um vigoroso

apito  que  atravessa,  repentino  e  imperativo,  a

compacta parede musical, porta de muralha que se abre

e logo se torna a fechar.

 Finalmente,  o  Carnaval  instala-se no  seu  dia.  Todo

essé  trabalho  preparatório,  no  alto  dos  morros,  vem

fundir-se. nas  ondas  da  multidão  exultante  que  transborda

pelas. ruas. Vemos os grupos, os blocos, os ranchos,

os grandes desfiles, os bailes. . .  Vemos de perto

as  roupas  de  seda  e  arminho;  escutamos  as  canções;

contemplamos estandartes, carros complicados;  ouvimos

narrativas de . enredos, explicações, erudições . . .

 E  assim  o  Carnaval  transcorre,  entre  serpentinas  e

luzes, palmas de turistas, alegrias e tristezas de prêmios:

uma grande festa desigual, onde o melhor e o pior se

misturam às.. cegas, num demorado delíria monstruoso.

Mas o que fica no ar é uma cadência, a pulsação de

um mundo e de. um tempo subterrâneos, um sentimento

de vida surda procurando encontrar-se, desde um remoto

passado a um futuro muito vago, através de esfinges e

enigmas.

    83

    RABINDRANATH,

    PEQUENO ESTUDANTE

Ao longo da sua vasta e importante obra literária,

Rabindranath Tagore, sempre que pode, faz uma referênCIA

aos seus primeiros tempos de estudante. Partindo de

quem  partem,  essas  lembranças  deviam  ser meditadas

por pais  e professores, pois  representam a experiência

de uma criança maravilhosamente dotada, esforçando-se

por libertar-se da rotina escolar, da memorização e do

acLímulo  de  disciplinas  que  os  professores,  embora

zelosos, se esforçavam por incutir-lhe.

 Quando um dia o menino chorou para ir à escola,

houve  quem Ihe dissesse:  "Hoje choras para ir,  amanhã

chorarás para não ir." E ele nunca esqueceu esse

prognóstico, que mais  tarde consideraria acertadíssimo.

A  escola  causou-lhe  muita  decepção.  Como  em  The

Parrot s Training, em que os sábios, para educarem um

pássaro,  a  primeira  coisa  que  acharam  necessária  foi

uma gaiola, também o menino se sentia infeliz no mundo

dos deveres escolares, longe de todas as belas coisas

da vida: o grito dos vendedores ambulantes, as meninas

felizes (que não iam à escola) brincando com caramujos

e conchinhas, as imagens familiares vistas da alta varanda:

os que fumavam, os que se penteavam, os que costuravam . . .

 Entre as histórias de bandidos, de animais ferozes, de

almas  do  outro  mundo,  e  os  cadernos  com  letras  e

números,  o  pequeno  estudante  se  sentia  terrivelmente

dividido:  de um lado, era a vida, com todas as suas

peripécias, belas e tremendas; do outro, .o ensino: páginas

nas  devoradas,  como na história  do papagaio,  nutrido

de  folhas  e  folhas  de  livros,  até  morrer  sufocado

enquanto lá fora a brisa passava pelas árvores em flor.

  A história do colegial Rabindranath Tagore não foi

propriamente brilhante, no que  se refere a essa capacidade

de absorver noçõe e armazená-las. Ao contrário,

é pela sua resistência à ação dos professores (que ele,

com tão pouca idade, já sentia nociva e irracional) que

se caracterizam os seus primeiros tempos de estudo. Em

relação a um dos mestres, sua atitude chegou mesmo

a ser a de um grevista em puro estilo "gandhiano", pois   ,

sentindo-o  agressivo  e  injustamente  autoritário,  passou

a não responder jamais às suas perguntas, mesmo quando

possuísse  as  respostas  certas.

  Essas confissões de Tagore deviam ser meditadas por

pais  e  professores,  porque  suas  experiências  infantis

continuam a ser repetidas por toda parte. Por isto ou

por aquilo, ainda que nos sobrem conhecimentos pedagógicos,

falta-nos,  freqüentemente,  o  sentido  "humano"

da criança. Que desejam as escolas? Transmitir conhecimentos?

Promover alunos? Praticar (ainda que com as

melhores  intenções)  o  comércio  da  instruçâo?  Desenvolver

as  crianças para a vida, mediante o  aprimoramento

de suas faculdades, de sua vocação, de seu gosto?

  Que  esperam  os  pais  da  escola?  Algum  descanso?

Uma partilha de responsabilidades? Diplomas?

  Sâo os adultos que decidem. A criança está entre as

suas decisões, geralmente sem forças para se defender,

mas sentindo-se ameaçada. E quando se fala de maus

estudantes  é  sempre  culpada  a  criança.  Preguiça.  Vadiação.

Falta  de  inteligência.  Distração.  Desinteresse. Etc.

  Rabindranath Tagore, homem extraordinário,  que  se

fez educador por amar as crianças, anotou suas amarguras

de  pequeno  colegial.  Falou-nos  de  seu  mundo

encantado, de sua vida poética ainda incomunicável

em contraste com os métodos e as finalidades do ensino,

no seu tempo. Isso foi há um século, e, por incrível que

pareça,  continua  a  ser mais  ou menos  como  era,  até

agora. As escolas são poucas, os alunos são muitos, os

professores não têm grande paciência, o dever cumprido

calcula-se mais pelo horário do que pelo devotamento

e a compreensão do  `fato humano',  as  crianças  estão

transtornadas por esses horrores do cinema, da televisão   ,

das histórias em quadrinhos   ue substituem a vida

que são a sua melancólica experiência, fora da mediocridade

cridade do ensino comum, e chegam a ser a sua libertação,

a sua poesia, o seu contentamento.

 Ah, meu pequeno Rabindra, como tudo piorou tanto!

O progresso cresceu, os livros  aumentaram, os programas

ficaram imensos, e a criança está muito mais engaiolada

na sua solidão, cercada de muito mais problemas,

com a. voz do espírito abafada por muitas inutilidades.

Foi assim que o papagaio morreu. E em volta dele

disseram: "Que ingrato! Tão bem tratado!.  .   "

    86

    DIA DE SOL

Apareceu o sol, e eis-nos todos felizes, não porque os

dias de chuva não tenham seu encanto, mas porque já

eram muitas chuvas seguidas, e nem sempre é agradá-

vel andar pelas ruas molhadas, com os pés desgovernados

pela lama.

  Mas é bela a chuva a cair das goteiras, a pender das

folhas das árvores, a derrubar com o seu peso as campânulas

que  escorregam pelos  muros  e  que  têm  pingentes

gentes como um trancelim de ouro sustentando um diamante dägua.

  Amanheceu  o  sol novo:  um espetáculo  diferente,  o

primeiro  dia luminoso  do  mundo. O  céu limpo,  uma

seda azul estendida de horizonte a horizonte. As árvores

muito bem lavadas,  com a folhagem polida,  mais

verdes do que antes, mais saudáveis, com frondes mais

abundantes. (Tudo isso aconteceu enquanto chovia?)

  E  começam  a  passar  muitas  borboletas  novas  também,

com seus vestidinhos de veludo;  oh , tão lindas,

tão  lindas,  para  tão  pouco  tempo . . .  Vem  uma  toda

preta com listras amarelas e pousa no jasmineiro. Pousa

mesmo no único jasmim que a chuva deixou ficar no

ramo, e é como se o estivesse lendo atentamente, lendo

aquelas  seis pequenas páginas  brancas  onde não  sabemos

o que estará escrito.

  Só porque o  sol  apareceu,  tudo  se modificou.  Vieram

os meninos para a rua e começaram a brincar nas

calçadas, e a moça descobriu até que os grilos saíram

das suas tocas, e deu-me uma explicaçâo a respeito dos

seus hábitos, das suas conversas, e as minhas ignorâncias

sorriam também felizes com as alegres notícias do

mundo dos bichos.

 Continuaram a passar outras borboletas, e os pombos

que viviam escondidos  ali no beiral do vizinho alisaram

as  penas,  experimentaram  as  asas  e  romperam  a

voar por cima dos telhados, e foram bem longe, lá para

os lados das palmeiras.

 Fiquei  muito  contente  com  esse  despertar  do  que

antes estivera refugiado, com medo da chuva.

 Os cães  que há tanto tempo não se faziam ouvir

começaram a ladrar para o sol, como se quisessem cantar.

Mas quem cantava mesmo eram as meninas que subiam

no bonde que leva ao Corcovado. Cantavam e batiam

palmas, e era uma festa por todo o vale. Descobri no

jardim flores que nunca tinham desabrochado, que não

sei como se chamam nem de onde vieram. E uma estava

sendo lentamente percorrida por uma abelha, e outras

continuavam libertando-se do peso da água que em suas

corolas se acumulara.

 À tardinha, visto que o mundo todo estava em ordem   ,

e até as coisas tinham aparência feliz, resolvi ser feliz

à minha maneira, que é pôr uma folha de papel na

máquina e começar a trabalhar.

 E assim me achava posta em sossego,  quando um

bem-te-vi galhofeiro de algum Iugar soltou o seu grito,

que parecia dirigido expressamente a mim, como uma

delicada provocação. E não tive mais tranqüilidade, pois

a família dos bem-te-vis é muito numerosa e ruidosa, e

quando um começa a falar todos respondem, cada um

no seu tom, como se não concordassem uns com os

outros, o que é muito próprio das famílias mesmo não

numerosas. E foi assim, que, sem que eu os pudesse

avistar,  os  bem-te-vis  interromperam  o  meu  trabalho   ,

tanto gritavam as senhoras e os homens, as senhoritas   ,

os  rapazes  e  as  crianças  dessa  enorme  família.  Uns

estavam roucos, e devia ser ainda efeito da chuva. Talvez

vez todos quisessem sair, passear, ir ao cinema dos bem-te-vis,

aproveitando o dia de sol.

  Então, resolvi ouvir as sonatas de Bach para flauta

e cravo - e a flauta cantava como um pássaro e o

cravo parecia uma grade de prata sobre a sua voz. E                                                 '

assim me  fui  entretendo  nesse  ouvir  e  interpretar,  e

o sol terminou a sua viagem, a noite envolveu-nos de

frio,  os  bem-te-vis  já  não  discutiam  mais.  Bach  reinava

sozinho e eterno, numa divina solidão.

     89

     NÃO CREIAS NOS TEUS OLHOS   ..

Os  velhos  sábios  nos  ensinam  a  desconfiar  do  que

vemos. Não basta ver para  crer:  somos  de  tal modo

sujeitos  a ilusões  que,  além  de ver,  convém-nos  verificar.

E Deus sabe se até no verificar acertamos!

 Pois  nós  estávamos  num restaurante em  São  Paulo,

quando  ainda  são  poucos  os fregueses  e  podem  ser

minuciosamente  contemplados,  e  o  meu  com anheiro

disse-me:  "Olha  o  belo  bandeirante  que  ali  está  sentado!

" Era mesmo o bandeirante queqnós imaginamos,

grande e forte, capaz de subir e descer muitas montanhas

e atravessar muitos rios, sem fome, sede, sono ou

cansaço. Não tinha botas de sete léguas:  mas também

para  que,  com  tanto  ânimo  e  disposição,  precisaria

delas?

 De costas para nós estava a sua companheira, toda

de seda azul vestida, com  uns longos cabelos soltos que

lhe  desciam  muito  abaixo  dos  ombros.  Achei  natural

que um bravo bandeirante trouxesse consigo uma formosa

índia.  Essa  índia  tinha  cabelos  longos  e  lisos,

mas louros como todo o mundo sabe que são os trigais,

e com esses reflexos preciosos que todo o mundo sabe

possuir o ouro, causa de tâo infinitas aflições.

 Não  tenho  notícia  de  índias  louras  no  Brasil;  mas

as mulheres sabem tantas coisas para se fazerem mais

lindas ou mais estranhas que talvez alguma entendesse

já, outrora, dessas artes que hoje sustentam em todo o

mundo a vasta e próspera corporação dos cabeleireiros.

Continuei a estudá-la. A índia loura comia com garfo

e faca,  muito  direitinho.  (Mas  as  mulheres  aprendem

tudo táo depressa!) Não devia estar saboreando nenhum

bracinho  de  criança,  pois  aquele  era  um  restaurante

sério, moderno, de pratos complicados. Nem seria paca

ou tatu o que a minha índia loura comia com tanta

perfeição. Mas o prazer com que de, vez em quando,

apesar da faca e do garfo, lambia a pontinha do dedo

mínimo era uma prova indubitável de que, com aquela

formosa cabeleira loura, tinha vindo mesmo da selva,

onde  os  passarinhos  e  borboletas  deviam  estar  morrendo

de saudades suas.

Tão índia era a moça vestida de seda azul que, de

vez em quando, tirava os pés  de dentro dos  sapatos,

embora com muito jeito e civilidade; e o calor que lhe

devia estar causando aquele vestido era tão grande que

às vezes  se abanava com o guardanapo.  Um pequeno

lapso  na  etiqueta;  mas  uma  confirmação  a  mais de

sua origem. E quando os seus louros cabelos, embora

tão lisos e longos, me procuravam dissuadir dessa origem,

eu  recordava  todos  aqueles  franceses  que  andaram

aqui  pela  costa,  e  que  talvez  já  tivessem  dado

perucas louras aos índios, em troca de sagüis, ou fizessem,

com o pau-brasil, intercâmbio de tinturas de cabelo.

Os franceses sempre foram famosos no assunto;  e

até hoje, nos mais variados lugares, quando um cabelereiro

de senhoras quer fazer publicidade de sua competência,

batiza logo o  seu  salão  com um nome que

lembre a doce França.

 A moça tinha muitos berloques pelo pescoço e pelos

braços;  o  que estava perfeitamente  de  acordo  com  a

origem que eu lhe atribuía. Pois não foram também os

franceses os primeiros a trazerem miçangas e vidrilhos

para as jovens que tão artisticamente se enfeitavam ao

longo destas praias, à sombra destas árvores, entre serpentes e flores?

  O bandeirante falava-lhe com a ternura de um pioneiro,

de um descobridor, de um andarilho em férias:

depois  de  tanto  escalar montanhas,  atravessar vales  e

rios, pensar  em onças  e  cascavéis,  é  muito  agradável

sentar diante de uma limpa e farta mesa, onde brilham

vidros,  louças,  metais,  e  saborear  coisas  complicadas,

com muito queijo e muito tomate, tendo ao lado a índia

carinhosa,  que  meigamente  deixou  a  sua  taba,  a  sua

mandioca, e veio, por amor, fazer o sacrifício de enfiar

um  vestido  (mesmo  de  seda  pura  e  azul  celeste)  e

acertar os seus pés, livres e  ágeis, em  sapatos  de salto

alto. Mas o amor faz prodígios, realiza impossíveis. E

por um bandeirante assim! .

 Na verdade, as minhas considerações eram um pouco

anacrônicas:  não  duvido  que  ainda  haja  muitos  bandeirantes

atravessando estes brasis com o mesmo fervor

de outrora; mas não sei se ainda há tantas índias com

suas tabas e redes e mandiocas, como nos velhos tempos.

Aquilo deviam ser fantasias de carioca, pensando

no quarto centenário do Rio de  Janeiro ...

 Foi quando chegou o nosso amigo  e disse, num sorriso:

Eu já venho bater um papinho com vocês:  pioneiro,

vou ali cumprimentar aquele casal italiano . . . "

    92

    FESTA

Entre muros brancos de fortaleza, o som do piano. A

sombra do piano projetada nos muros brancos, desconforme.

Duas mãos pequenas fazem toda aquela música,

rumorosa, grandiosa:  aquele oceano sentimental.

    um mundo de cravos vermelhos presos em fitas

douradas;  de rendas, de jóias enormes.

  Os  parapeitos  derramam-se  para  a  noite,  para  o

espaço,  para  a via láctea.  E  as moças  nos: parapeitos

são  outras vias lácteas, são  cometas  diáfanos, com  seus

longos vestidos vaporosos, seus cabelos em nuvem,  a

fosforescência da sua ornamentação.

  Em toalhas  de  renda  com laços  cor-de-rosa,  iremos

comer manjar branco, com umas colheres de prata que

a luz fosca dos grandes lampiões converterá em longos

peixes esguios, de cauda blasonada.

  A  noite  cálida  tem  uma  frescura  subterrânea,  em

redor dessa mesa descomunal, de um tempo de fidal-

gos  gigantescos,  treinados  em  cavalgadas,  caçadas,  espadas

padas - mas  também com  certo  requebro lânguido,

fadigas  saudosas  de  linhos  macios,  cristais  lapidados,

cestas, leques, refrescos..

  A dona da casa é uma rainha de raça misteriosa,

toda enrolada em  seda branca  das espáduas à  ponta

dos pés. Com diadema de rosas e diamantes, continuará

sentada em seu trono - que é uma enorme cadeira de

balanço - de onde acompanhará vagamente a apaixonada

cadência do piano e o movimento geral da festa.

  E  uns  rapazes  de  cabelos  cetinosos,  com  grandes

olhos do século XVI, virâo servir em frágeis porcelanas

nas um café que perfuma o palácio, a ilha, o mar. E

com  o  café, o  açúcar, o tabaco, as  bebidas  ardentes

recordarão que estamos num lugar de palmeiras e canavias,

com tapetes de areia morna franjada de espumas

verdes e azuis.

 É um mundo de cravos vermelhos, de luzes antigas,

de espelhos suntuosos, por onde deslizam pessoas fora

do tempo, que ao som do piano se tornam completamente irreais.

 Do lado da terra, ouve-se o abafado planger da fonte   ,

em  sua  bacia  de  pedra.  Os  insetos  zunem,  estalam   ,

ciciam: há uma teia de músicas a estender-se na sombra:

 Do lado do mar, uma solidão imensa, e o luar nas águas.

 Há uma angústia de perfumes, uma excitação romântica,

uma  sensação  de  ternura  e  fatalidade,  como  se

esta noite fôssemos todos morrer de amor.

 Mas  talvez  seja  apenas porque  o palácio  tem  estes

muros grossos de fortaleza, e em redor é a noite, e em

redor é o mar - e o piano canta uma espécie de melancolia

que transforma a festa numa cerimônia humana

muito pungente, sem nada do cotidiano, mas só de

memórias  e  desejos  essenciais.

    94

    ESCOLA  DE  BEM-TE-VIS

Muita gente já não acredita que existam pássaros, a

não ser em gravuras ou empalhados nos museus - o

que é perfeitamente natural, dado  o novo  aspecto  da

terra, que, em lugar de árvores, produz com mais abundância

blocos  de cimento  armado.  Mas  ainda há  pássaros

saros,  sim.  Existem  tantos,  em  redor  da  minha  casa,

que  até  agora  não  tive  (nem  creio  que  venha  a  ter)

tempo de saber seus nomes, conhecer suas cores, entender

sua  linguagem.  Porque  evidentemente  os  pássaros

falam. Há muitos, muitos anos, no meu primeiro livro

de inglês se lia:  "Dizem que o sultão Mamude entendia

dia a linguagem dos pássaros . . . "

  Quando ouço um gorjeio nestas mangueiras e ciprestes,

logo  penso  no  sultão  e  nessa  linguagem  que  ele

entendia.  Fico  atenta, mas nâo  consigo  traduzir nada,

No entanto, bem sei que os pássaros estão conversando.

  O  papagaio  e  a  arara,  esses  aprendem  o  que  lhes

ensinam, e falam como doutores. E há o bem-te-vi, que

fala português de nascença, mas infelizmente só diz o

seu  próprio  nome,  decerto  sem  saber  que  assim  se

chama.

 Anos e anos a fio, os bem-te-vis do meu bairro nascem,

crescem, brigam,  falam...  - depois  deixam de

ser ouvidos: não sei se caem nas panelas dos sibaritas,

se  arranjam  emprego,  se  viajam,  se  tiram  férias,  se

fazem turismo.  Nâo  sei.

  Mas,  enquanto  andam  por  aqui,  são  pacientemente

instruídos por seus pais ou professores, e parece que,

tão  cedo  começam  a voar,  já  vão  para  as  aulas,  ao

contrário  de  muitas  crianças  que  antes  de  irem  para

as  aulas já  estão  voando.

  Os pais e professores desses passarinhos devem ensinar - lhes

muitas coisas:  a discernir um homem de uma

sombra, as sementes e frutas, os pássaros amigos e inimigos,

os gatos - ah! principalmente os gatos...  Mas

essa instrução parece  que  é  toda  prática e silenciosa

quase  sigilosa:  uma  espécie  de  iniciação.  Quanto  a

ensino oral, parece que é mesmo só:  "Bem-te-vi! Bem-te-vi!",

que uns dizem com voz rouca, outros com voz

suave,  e  os  garotinhos  ainda  meio  hesitantes,  sem

fôlego para três sílabas.

 Antigamente era assim. Agora, porém, as coisas têm

mudado. Certa vez, quando pai ou professor ensinava

com a mais pura dicção: "Bem-te-vi!" - o aluno, prequiçoso,

relapso ou turbulento, respondeu apenas:  "Tevi!"

Grande  escândalo.  Uma  pausa,  na  verde  escola

aérea. "Bem-te-vi! Bem-te-vi!", tornou o instrutor, com

uma animação que se ia tornando furiosa. Mas os maus

exemplos sâo logo seguidos. E  a classe toda achou graça

naquela falta de respeito, naquela moda nova, naquela

invençâo maluca e foi um coro de "Te-vi! Te-vi! Tevi!,

que deixou o próprio eco muito desconfiado.

 Essa revolução durou algum tempo. A passarinhada

vadia pulava de leste para oeste a zombar dos mais

velhos.  "Bem-te-vi!",  diziam  estes,  severos  e  puristas,

tentando  chamá-los  à  razão.  "Te-vi!  Te-vi"   ,  gritavam

os  outros,  galhofeiros,  revoltosos,  endoidecidos.

 Passou-se  o  tempo  necessário  ao  aparecimento  de

uma nova geração. E então foi sensacional!  Os passarinhos

mais  recentes  ouviam  aquele  fraseado  clássico

dos  avós:  "Bem-te-vi!  Bem-te-vi!" - e deviam achar

aquilo uma língua morta: o latim e o sânscrito lá deles.

Depois, ouviam a abreviatura dos pais: "Te-vi! Te-vi!"

Mas  acharam muito comprido ainda.  (Que  trambolho   ,

a famlia!) E passaram a responder, pòr muito favor   ,

"Vi!  Vi!"  Muito  mais  econômico.  Afinal,  pelos  ares

não voam mais anjos e sim aviões a jato...

 "Bem-te-vi! ", exclamam os anciãos, com sua dignidade

ofendida.  "Te-vi!",  respondem  os  filhos  revoltosos.  E

os netos, meio chochos: "Vi!  Vi!"

 Quanto  aos  bisnetos,  vamos  ver o  que acontecerá.

Talvez os professores mudem de método. Talvez mude

o ministro. Talvez os tempos sejam outros, e a passarinhada

volte a ser normal, ou deixe de falar, só de

pirraça, ou invente - quem sabe?, - uma expressâo

genial. E também pode ser que nâo haja mais bem-te-vis.

    97

    CENTENÁRIO DE OKAKURA

    KAKUZO

O  ano de  1962  foi rico de centenários.  E nesse  ano

comemorou-se o de Okakura Kakuzo, um japonês que,

entre  outros  estudos  sobre  o  seu  país,  publicou  um

delicioso  livrinho  simplesmente  chamado:  O  Livro  do

Chá. Não se trata apenas de uma informaçâo histórica

sobre a origem e as diferentes formas de uso da antiga

e preciosa bebida, mas de um verdadeiro compêndio de

civilidade, e de um pequeno manual de filosofia e de

estética,  no  que  se  refere  às  cerimônias  que  o  Japão

criou, como um delicado rito, para o requintado prazer

de degustar uma taça de chá.

  Nesta  era  de  refrigerantes  vulgares  e  apressados,

falar na solenidade da etiqueta do chá, na importância

da sala onde é servido, na cor e na qualidade da taça,

no  conhecimento  da  folha  empregada,  na  água  e  no

seu adequado ponto de ebulição - parece um desperdício

de  palavras  sobre  um  motivo  insignificante.  Ai

de nós!, que vamos perdendo a capacidade de apreciar

a sutileza das coisas,  que nos vamos  tornando pouco

a pouco bárbaros, por uma vasta dispersão no complexo

mundo que nos cerca. Mal sabemos parar e refletir. Mal

sabemos ver. As pequenas coisas não nos revelam mais

os seus doces segredos? Ou os nossos ouvidos endureceram

para a sua misteriosa voz?

  Com Okakura Kakuzo aprendemos que o chá é uma

obra de arte e que no seu serviço há uma disciplina,

uma  harmonia,  um  ritmo  que  são  manifestações  de

beleza exterior e interior;  e que o ritual japonês  que

lhe foi  dedicado  representava  o  culto  da  pureza  e  do

#requinte  entre  o  dono  da  casa  e  os  seus  convidados.

Ambiente de luz discreta;  a música da água a ferver

num  recipiente  especialmente  preparado  para  poetizar

o som da fervura;  roupas de cores suaves completam

o sentido da arquitetura do Pavilhão do Chá, cujo teto

de colmo sugere a fugacidade das, coisas, como a sua

fragilidade  e  leveza  estão  representadas  pelos  delicados

pilares e as traves de bambu.

  Essas condições  de evanescência exprimem a que o

Japão fez do chá, desde que, de antiga medicina chinesa,

se converteu em bebida repleta de símbolo, "o

culto do Imperfeito":  por ser "um esforço para realizar

qualquer coisa  possivel nesta coisa impossivel que

sabemos ser a vida".

  Através  do  seu  livrinho,  Okakura  Kakuzo nos  oferece

rece a imagem de um Oriente gentil, atento a sentir a

"grandeza  das  pequenas  coisas":  essa  valorizaçâo  do

pormenor, que exige tranqüilidade e doçura, e que o

Ocidente  vai  esquecendo,  assaltado  por  impulsos  bravios

e turbulentos.

  Na confusão dos dias de hoje, as páginas de O Livro

do  Chá  são  como um último  convite  à harmonia  do

homem consigo mesmo e com os seus semelhantes; elas

representam um ato de bondade, pelo que nos ensinam;

embora, depois da sua leitura, possamos sentir alguma

tristeza, diante do que vemos no mundo, sabendo o que

poderíamos  ver.

  Na  sua  simplicidade,  este  livrinho  vale  por  muitas

obras  de maior pretensão.  E  basta para  dar imortalidade

a um autor que teve a sorte de viver o que deveria

ser o limite de bom gosto da vida humana: apenas

meio século;  de modo que, ao celebrar-se o seu centenário

de  nascimento,  já  se  está  a  ponto  de  celebrar

também o meio centenário de sua morte.

    99

    CHEGADA DA PRIMAVERA

Não  podemos  andar  distraídos;  mas  a  trepadeira  da

casa abandonada, de dentro do seu verde silêncio, começa

a  oferecer  ao  dia  radioso  suas  grandes  campânulas

roxas,  delicadamente  modeladas  e  pintadas.

Também  os  lírios  amarelos  e  alaranjados  desenrolam

suas  sedas franzidas, lentamente,  cuidadosos, para que

não  se  rompam em  nenhuma  prega e  encham  de  estrelas

perfeitas  todo  o  jardim.  De  mil  arbustos  diferentes

vão aparecendo inflorescências coloridas e perfumosas,

que  até ontem jaziam  adormecidas  no  segredo

dos  caules  e  das  hastes  e  agora  desabrocham  em  pequeninas

pálpebras multicores.

  Jardins,  campos,  matas  sabem  que  chega  a  primavera.

As  obscuras  raízes  preparam  esta  festa  floral:

seus  negros  dedos  diligentes,  mergulhados  na  umidade

do chão, catando na terra invisível os elementos criadores

dores,  organizando  os  seus  diagramas,  obedecendo  à

sua condição, expõem agora à luz do sol e aos olhos

humanos  as  sutis  invençôes  vegetais  que  nos  deslumbram,

mesmo sem refletirmos no que significam e de

que maneira se realizaram.

  Cada pequena flor é um reino maravilhoso,  diante

do  qual  paramos,  confusos  de  ignorância.  Contemplamos

mos bem estes veludos e sedas que uma imperceptível

transpiração  brune  de  transparente  prata.  Miremos  o

desenho  destas  finíssimas  veias,  dispostas  com  perfeição

matemática.  Pensemos  nestas  sutis  determinações

da  vida  que  engendra  seus  jogos  imaginativos  numa

sucessâo de números certeiros, de exato ritmo, como é

da essência de todas as coisas autênticas. A flor está

feita só de elementos indispensáveis:  e parece apenas

um  sonho,  uma  fantasia,  um  extravagante  ornamento.

É música, por  suas  leis  de harmonia;  é poema, pela

inspiração de sua aparente estrutura. Mas em sua profundidade,

fundidade, em seus compromissos de origem é verdade,

ciência, sabedoria. Por um longo caminho vem até nós

dos abismos do Universo. É a imagem da Vida inexplicável,

a representaçâo do Nascimento.

 Assim chega a primavera. Abelhas e borboletas pe·

netram  esses  recessos  de  pólen,  pousam  nessas  coroas

de  ouro,  nesses  lustres   minúsculos,  nesses  pingentes

frágeis.

 Uma cigarra que ia começar a cantar, deteve-se: não,

cigarra, ainda é um pouco prematuro o teu volumoso

canto. A hora é dos leves passarinhos, da diligente abelha,

da  inquieta  borboleta  silenciosa.  Cantarás  no  ardente

verão:  que é apenas a primavera, de perfumosa

brisa.

              101

 

    101

    QUERIDA MUSICA

O Brasil revoltado levantou-se e os ares se encheram de

músicas militares. Fez-se no meu  coração uma grande

alegria:  abriu-se  um  claro  espaço  nos  olhos  que  um

dia foram meus e a vida recomeçou num compasso de

esperanças, que eram tâo nítidas e luminosas antes de

se  desgastarem  no  fio  contínuo,  corrosivo,  de  longos

acontecimentos.

  Ah!  Sim,  aquelas  esperanças  eram  a  própria  felicidade

(sem esse nome, sem nome algum), quando ainda

se sabia tão pouco da vída, do mundo e das idéias, e a

existència era uma espécie de sonho que se ia descobrindo,

com  a  aquisição  de  novas  perspectivas,  cada

dia, como de sucessivas varandas vão  sendo  avistadas

as distâncias da serra até o horizonte, e do horizonte

adivinhadas até o infinito.

  Nessa hora maravilhosa dos descobrimentos intervém

Pedrina, musicalmente.  Em certos dias, à noitinha, as

bandas tomam assento nos coretos..Os instrumentos reluzem

e parecem enormes, enormes e de formas prodigiosas,

aos olhos inocentes das crianças. São objetos de

ouro, fantásticos: enrolados como cornucópias, uns; direitos

como espadas, outros; os músicos sabem o lugar

de cada som e, com dedos ágeis e bochechas que incham

e  desincham,  começam  a  tocar  para  o  auditório  que

passeia pela praça, que se detém sob as árvores, diante

do coreto, à beira das calçadas...

  A sábia Pedrina conhece coretos, bandas, repertórios

e músicos. Tudo Ihe é tão familiar como se tivesse vivido

sempre cercada por  aqueles  instrumentos,  conhecendo

o valor de cada um para a execução  daquelas

marchas. Creio que para ela, para o seu plácido rosto,

sorriam, às vezes, os músicos de cara lustrosa, brancos,

pretos, mulatos, que também, na imaginação das crianças

não faziam nada mais em toda a vida senão tocar

as suas músicas e, uma vez ou outra, nos intervalos,

enxugar o suor, devagar, pela testa e pelo pescoço.

  As crianças  aprendiam aquelas músicas, que os meninos

assobiavam depois, ao longo das ruas, e as meninas

tentavam reproduzir inabilmente, soprando sobre

um pedaço de papel de seda esticado num pente. Felizes

tempos!  Aqueles ritmos marcavam o andar, estavam

incorporados  ao  nosso  pulso,  comunicavam entusiasmo,

aprumo, alegria - e a vida parecia uma grande

festa, sob as vagas luzes da praça, quando todos sorriam

uns para os outros, sem motivo algum, apenas como a

indicação de uma  solidariedade humana e natural.

  Pedrina ensinava de ouvido as voltinhas que davam

as melodias, enroscando-se como cipós, subindo e descendo,

em  graves  e  agudos;  e  fruía  profundamente

aquele emaranhado de sons  de que se destacava uma

frase constante, altaneira e gloriosa, como convite para

extraordinárias  realizações.

  As  crianças  iam para  casa  antes  que  as bandas  se

retirassem dos coretos. E, por serem crianças e sonhadoras,

imaginavam que a noite inteira os músicos ficavam

ali, com seus instrumentos dourados,  suas fardas

vistosas,  de largo cinturão  e que naquela pracinha

todos continuavam a passear e a sorrir, e que seria eternamente

assim.

  Mas nâo foi assim eternamente. Dos coretos, das festas

da igreja, das alvoradas aos generais, foram os músicos

desaparecendo. As modas foram sendo outras. As crianças

também.  As  crianças  antigas cresceram,  estudaram

muito,  perderam  aquela  ingenuidade  que  as  deixava

deslumbradas diante das músicas dos coretos  E Pedrina

diluiu-se entre as estrelas, com suas melodias cobertas

de sorrisos.

 Eis que, de repente, o Brasil se alvoroça e os ares se

enchem daquela música de outrora e de sempre, com

suas volutas graves e agudas, sua cadência nos vai conduzindo

por um mundo admirável, onde tudo é perfeito,

onde as criaturas todas adquirem aquela bondade mansa,

aquela ternura de épocas mais amenas, quando todos

acreditávamos uns nos outros, e nos sentíamos unidos,

amigos, irmâos - e o futuro nâo era uma sombra indecisa,

mas um sol radioso à espera de nossa passagem.

  Querida música a falar sem palavras, a deixar que,

com palavras  nossas,  a interpretemos.  Querida  música

saudosa e incansável, a chamar-nos para lugares felizes,

tempos felizes, a ressuscitar os que antigamente sopravam

de suas cornucópias de ouro, derramando alegrias,

e os que sorriam, extasiados, acreditando naquela proclamada

felicidade,  de  coração  tranqüilo, num mundo

de puro amor. Querida música! Por dentro dela aparecem

velhos e crianças, namorados, conhecidos, amigos,

a pequena luz da noite, e o sonho de ir caminhando,

nesse ritmo, para longe, para muito alto, sem adeuses,

pois  íamos  todos  juntos  e  nem  podíamos  pensar  em

separações!

    104

    CANÇÕES DE TAGORE

Uma noite, na India, éramos quatro pessoas numa praia

absolutamente deserta, iluminada apenas pela claridade

do céu. famos andando em direção ao mar, sem sabermos

bem dos limites da areia e das águas. O som das

ondas e o pequeno arabesco branco da espuma conduziam

nossos lentos passos: e era como se fôssemos pouco

a pouco saindo deste mundo.

Foi quando Maria, minha amiga recente, que aparecia

na noite envolta em seu sári branco e azul como

uma pequena santa;  Maria - minha amiga cristã que

devia casar uma semana depois, sem que eu a pudesse

ver no dia do seu casamento - perguntou-me por que

não cantávamos um pouco: a noite era bela, a solidão

profunda, e nós estávamos felizes naquele instante, como

se desde sempre nos tivéssemos conhecido e tivéssemos

sido amigos desde sempre.

(Neste lugar só de areia,

já não terra, ainda não mar,

poderíamos cantar.)

A India é um país de ritmos lentos e versos longos.

Suas extensões convidam a uma fala poética vagarosa;

mesmo quando as palavras sâo rápidas, a frase é prolongada

e  sustentada;  as imagens  acorrem,  deslumbradas;

como os grandes rios, como as árvores compactas,

a poesia indiana e  a sua música têm uma  densidade

interminável. Como o próprio giro da vida, não parece

haver,  para  elas,  terminaçâo,  conclusão,  fim - mas

sempre e sempre continuação, encadeamento, num movimento

circular sem interrupção.

  Embora  sentindo  tudo isso,  animei-me  a  cantar pequenas

canções populares, coisas despretensiosas do nosso

folclore, simples amostras do nosso ritmo e da nossa

melodia.

  Depois, Maria começou a cantar. Cantava em bengali,

com aquela emoção que faz parte da música oriental:

sua voz tênue, vaporosa, incorporava-se ao mar, às esttrelas.

E ali sentados na areia, longe de casas, de ruas,

de  todas  as  presenças,  íamos  sendo  levados  pela  sua

voz ao longo da noite, ao longo do céu, ao longo do

mar.

  Eu  tinha traduzido  as  minhas  simples  canções.  Ela

traduziu-nos as suas. As suas eram de Tagore. Falavam

do  amor humano  e  divino,  e  guardavam  sempre  nas

palavras  aquela  dignidade  religiosa  que  caracteriza  a

obra do poeta. Ele escreveu a letra e a música de tantas

canções,  que  parece  impossível  a  riqueza  criadora  do

seu espírito. E essas canções circulam pela fndia toda,

de tal maneira o Poeta estava identificado com a sua

terra.  Talvez  muita  gente  nem  saiba  de  quem  é  a

cançâo que está cantando, aqui e ali, na imensidão da

India. Mas todos encontram nas suas palavras a expressão

da sua vida.

  Recordei tudo isto agora porque, entre as celebrações

do centenário de Tagore, ocorrido há dois anos, figura

uma  edição  de  cem  das  suas  cantigas,  acompanhadas

da  tradução  inglesa  e em notação  ocidental.  "Bendita

é a noite; bela, a natureza..." diz uma delas. E ouço

muito longe a voz de Maria

          na praia do fim do mundo

          que não guardará de nós

          sombra nem voz.

    106

    TÉDIO DE COMPRAR

Eu gostava daquelas casas comerciais que tinham orgulho

da sua tradição. "Fundada em  1850..." Faziam-se

as  contas:  "Há  quase  um  século,  hein?"  E  sentia-se

certa  veneraçâo  por  aquelas  prateleiras,  balcões,  objetos.

Os próprios donos e os seus empregados pareciam

vir da mesma data  da fundação, pelas  suas  maneiras

tão pacientes e corteses, pelo seu gosto de explicar aos

fregueses as qualidades e vantagens da mercadoria com

que lidavam, misturando ao seu interesse de comerciantes

um carinho de artista e de namorado.  Já existiu

gente assim!

  Já existiu gente assim! - e sua história sem brilho

nem estardalhaço nâo dá para uma epopéia, mas serve

para alimentar a secreta poesia das crianças que tiveram

ocasião de ver esses adultos, discretos e afáveis, que ensinavam

a admirar suas louças, seus perfumes, seus tecidos,

que estabeleciam, entre a sua pessoa e a do comprador,

uma  comunicação  amistosa,  e  até  por  vezes

estética e erudita, diante de um livro, de uma gravura,

de uma jóia.

  Essa  gente  tinha  um  ar  extremamente  modesto

como ainda tem, nos lugares do mundo onde pode ser

encontrada.  Não  tinham  pretensões  de  vestir  nem  de

se  aformosear.  Não  eram  eles  que  estavam  em  jogo,

mas  os  produtos  da  sua casa.  Apagavam-se,  para que

esses artigos brilhassem;  e devia ser grande amargura,

na sua vida, nâo encontrarem com que seduzir o comprador exigente.

  Hoje, onde se encontram, por aqui, as casas tradicionais?

Onde está o chapeleiro que tire com um gancho,

lá do alto, lá de cima, a caixa onde vai aparecer o mais

belo chapéu do mundo? Onde está o livreiro que possa

dar um pequeno curso de literatura para recomendar ao

cliente o autor que Ihe convém? Onde está o vendedor

de cristais extasiado com a transparência de seus copos,

com a esbelta linha de suas compoteiras e fruteiras?

 Agora as lojas duram o tempo de uma pequena aventura.

Até as ruas se tornam desconhecidas por essa incansável

mudança das casas comerciais. Que se encontra,

nas lojas? Nunca o que se procura. As vitrines são chamarizes

de coisas inexistentes. O que ali se exibe já está

vendido,  não  há  outro  igual  nem parecido,  talvez  se

receba na semana que vem, mas não é certo... Os jovens

vendedores  estão  preocupadíssimos  com  o  seu

clube, e desejam ardentemente que não apareça nenhum

freguês importuno que interrompa a sua conversa com

o companheiro. As jovens vendedoras estão preocupadíssimas

com seus cabelos, com suas unhas, com seus

amores, e nunca entendem a linguagem de quem fala.

"A senhorita não terá isto mesmo em azul?" "Devo

ter..." E cantarolando vai buscar displicente uma coisa

que além de ser outra é amarela.

 Que tédio, comprar!  Que aborrecimento!

    108

    DA GULA BEM TEMPERADA

As pessoas  que,  por  qualquer motivo,  se  encontrarem

em severo regime alimentar, devem procurar ler velhos

livros de culinária para se distraírem com as apoquentações

das  complicadas  receitas  de  outros  tempos.  A

lista  dos  ingredientes  já  nos  deixa pensativos,  comparada

às restrições de hoje, e às peculiares restrições de

cada um. Fica-se, depois, sem saber de onde sairiam os

artistas capazes da execuçâo de pratos tão difíceis. E,

finalmente, ocorre-nos a pergunta: como podiam os convivas

desses banquetes sobreviver a tão tremendas provas?

É certo que neste livro que vou folheando já encotro

esta observaçâo (não direi poética, mas rimada):

"Bolos  podres  e  d'ovos  massapões,  /  Perdoa-se  até

trinta indigestões."

  Este é o Cozinheiro Imperial, não muito antigo, pois

apareceu  em  1840,  e muíto  apreciado,  pois  em  1890

alcançava a décima primeira ediçâo, o que, para o seu

tempo, era bem significativo. E o que entâo se entendia

por um banquete, com tantas sopas e perdigotos e pombos

e patos, vitelas e cabritos, empadas e perus, lombos,

salpicões e coelhos, perdizes e tutanos, deve deixar estarrecidos

e humilhados os glutões de hoje, sem falar

nos  manjares,  tortinhas, bolinhos,  pastéis, melindres  e

biscoitos com que terminavam essas festivas reuniões em

redor das imponentes mesas.

  O autor (que se escondeu sob trés iniciais), além da

arte da cozinha - talvez até mais difícil... -, tinha

suas inclinações para a arte literária; de modo que, com

alternativas de inspiração, entremeava suas receitas de

conselhos ou observações em verso, que deviam divertir

imensamente os nossos bons avós, ainda isentos destas

grandes tensões que ora devastam o mundo. Assim, depois

de ensinar a preparar um doce de flor de laranja,

o  autor recomenda que o  deixem esfriar  e  o  sirvam

"Na primeira ocasião / Que apareça um golotão"! Seu

vocabulário seria muito apreciado pelos realistas de hoje:

"As Argolinhas  d'amêndoas,  /  Dos  grãos  as  Empadinhas,

/ Os gostosos Esquecidos, / São às tripas mararavilhas.

" Mas às vezes o autor se faz muito galante, e

diz, ao falar de uns bolinhos chamados "raivas":  "São

raivas, sim, porém que nos dão gosto,  /  Quando por

mãos d'anéis é seu composto."  (Pode  não  ser  muito

claro, mas é compreensível. E os poetas, sobretudo os

(culinários,  devem  ser  adivinhados  e  subentendidos...)

Gosta  igualmente  de  trocadilhos,  quase  no  estilo  dos

concretistas,  pois,  ao  falar  do  doce  "fartes",  diz  isto:

"Tanlos comas que te fartes, / E sem ser cousa de espantos,

 / De fartes farta a barriga, /  Festeja a festa

dos santos."

 Mas essas delicadezas rimadas (salvo erro no folhear

o livro) o autor as associava às sobremesas, que talvez

lhe  parecessem  a  parte  mais  poética  dos  banquetes.

Havia,  porém,  invenções  diversas,  tão  longas  de  executar

que se imaginaria um mundo especial, só de cozinheiros

limpando,  aparando,  temperando,  refogando,

assando, fritando, cozinhando, dentro de enormes labaredas

ou sobre adormecidas brasas todas as espécies de

alimentos que se encontram, com maior ou menor facilidade,

ao alcance dos homens. Mas uma das receitas que

mais me impressionaram foi o "Guisado particularíssimo",

que começa numa azeitona e acaba num pavão.

Recheia-se a azeitona com alcaparras e anchova, e com

ela se recheia um passarinho. Com ele se recheia uma

cotovia, com a cotovia um tordo e com este uma codorniz.

Assim se vai continuando, a codorniz num pardal,

o pardal num perdigão, depois uma galinhola, uma franga,

um  pato,  um  faisão,  um  ganso,  e,  por  fim,  um

pavão. Os vazios são recheados com cogumelos, tudo

é cozido numa caçarola com muitos  temperos,  e leva

essa mistura,  ao  fogo, nada menos  de vinte  e  quatro

horas. O maravilhoso seria que, posto o prato na mesa,

ou na bandeja do copeiro, começassem as pobres aves

a ressuscitar, uma após  outra,  e  voassem e  cantassem

segundo a sua condição. Mas a receita não fala nisso.

O prato era mesmo para comer. E não sei como seria

trinchado. Tem-se a impressão de que o autor estaria

familiarizado com essas engenhosas esculturas  de marfim

que se fazem no Oriente, e que saem uma de dentro

das outras, como, nas Mil e Uma Noites, e em outras

coleções orientais, as histórias também vão sendo

geradas umas  das outras,  numa interminável  sucessão.

  O autor ensinava também a fazer refrescos e sorvetes

e é com uma dessas receitas que termina o livro, fechando-o

com dois  versinhos gentis:  "Meigo e doce,  aqui

dou meu fim, / Chorai, golosos, que gostais de mim!"

  Nós,  os  não  golosos,  sorriremos,  despedindo-nos  do

"meigo e doce" livro. Que pensaria o autor, se visse os

netos  dos  seus  velhos  leitores  comendo  sanduíches  e

cachorros-quentes?

    111

    OS SALTIMBANCOS

"Desde que os saltimbancos entraram na nossa aldeia"

disse-me a triste mulher, "não nos entendemos mais. As

crianças  foram  as  primeiras  seduzidas:  não  querem

mais saber de escolas nem de livros, puseram-se a rodar

em torno daqueles carros, todas querem agora subir

por cima de cadeiras e mesas, trepar em mastros,

fazer mágicas com as mãos e andar na companhia de

ursos  e macacos.

 "Os rapazes e as moças, que trabalhavam com atenção

e  se  divertiam  com  muita  gentileza,  não  querem

saber  de  uma  coisa  nem  de  oútra:  acham  melhor  a

aventura,  querem  subir por  trampolins,  dizem  que  se

ganhá  muito  mais  dinheiro  com  essas  facilidades,  e

acham que a vida não tem sentido nenhum, e que a

felicidade é ganhar e gastar dinheiro apenas. Nem há

mais namorados, o casamento - dizem eles - é um

costume fora  da moda;  o lar é  uma trabalheira  sem

fim.  Todos aderiram aos  saltimbancos,  querem dormir

em  tendas,  debaixo  de  toldos,  em  cima  de  qualquer

pedra ou de um saco de palha: qualquer coisa que não

se  precise  limpar nem cuidar.  Querem dormir todos

juntos,  em  promiscuidade  (acham  que  é  fraternidade),

sentem-se  muito  bem  na  imundície  e  já  nem

catam os piolhos, porque isso é  uma  grande  maçada.

 "Os homens maduros, que deviam ter mais juízo, coçam

a  orelha,  perturbados.  Eles  não  querem  que  os

mais moços tomem a dianteira, nem estão dispostos a

trabalhar pelos que agora querem ser palhaços. Não é

que eu concorde:  mas lá do seu ponto de vista, acho

#que tém razão. Porque os filhos, que se fizeram assim

marotos, quando lhes aperta a fome ou a canseira, aparecem

pela casa, e, como se fossem eles os seus verdadeiros

donos,  põem-se  a  fazer  contas  assim:  "Ó  pai   ,

aquele  seu  relógio  dava  uns  bons  cobres...  aquela

mala,  aquela  prateleira,  aquela  cômoda..."  Reduzem

tudo  a  dinheiro,  como  num  leilão.  E  diante  daquele

inventário,  os  mais  velhos  ficam  com  a  pulga  atrás

da  orelha,  vendo  que,  ainda  vivos,  já  estão  assistindo

às partilhas que se costumam fazer depois da morte.

Pois entâo é melhor fazer de morto, e não trabalhar

mais.

    "Agora os velhos, sabendo que vão morrer daqui

a pouco, crêem mais divertido contemplar o espetáculo,

embora um ou outro lamente que os seus filhos e netos

achassem melhor ser saltimbancos do que ter um ofício

mais útil e mais honrado. Mas os filhos e os netos

vão  embromando  os  velhos:  `Não  pense  assim,  vovozinho;

agora,  os  tempos  são  outros;  ganha-se  muito

mais  equilibrando  um prato  no nariz que martelando

o metal para fazer o prato!' O avô fica meio triste,

porque  a nossa aldeia fazia os mais belos pratos  do

mundo. E pergunta: "Tu também fazes dessas pelotiquices?"

O neto responde: "Eu não: eu falo para o povo."

"E que dizes?" "Conto mentiras. Quanto mais impossíveis

as mentiras, mais o povo gosta. Riem-se como loucos,

batem com os pés, uivam... Gostam muito, mesmo. Se

me  pudessem  pôr  as  mãos  em  cima,  destroçavam-me

com beijos e abraços!".

  "As vezes, algum avozinho diz:" "Como está diferente

a aldeia!  Éramos tão sérios, tão bons!  Como foi que

mudamos tanto?" Depois é que se lembra: foram os saltimbancos!

Os  saltimbancos  começaram  fazendo  algumas

graças.  Depois,  tomaram  conta  da  aldeia.  Agora

que já  ninguém  quer  trabalhar,  como  irão  viver?  De

pilhagem? É preciso enxotar os saltimbancos, dizem os

velhotes.

 "Mas os rapazes e as crianças estão fazendo barricadas

para os saltimbancos nâo deixarem a aldeia"

disse-me a triste mulher, sentada à porta da sua triste

casa.

    114

    JARDINS

Não posso esquecer os jardins da India:  o do palácio

do governo, o da casa de Nehru, o do Hyderabad Palace,

onde moravam os visitantes oficiais. Desenhos de

canteiros entrelaçados de pequenos canais, jorros d'água,

flores  nunca  vistas  no  Ocidente,  trepadeiras  perfumosas

por cima dos muros, lagos com lótus: um primoroso

mundo de cores de que são pálidos retratos os mais

deslumbrantes tapetes.  E os jardins públicos, tão freqüentados

pelas  famílias,  com  as  crianças  extasiadas

diante  de  flores  tão minuciosamente  inventadas,  e  de

pássaros  mansos,  que  nâo  receiam  nenhuma  agres-

são, e não abandonam os seus lugares quando alguém

aparece.

  Nâo posso esquecer também as flores extraordinárias

da Holanda, de cores imprevistas, de inesperado tamanho,

e que estão sempre às janelas, sob o ângulo das

cortinas cruzadas, como estão até nas repartições públicas

e em certas vitrines, compondo quadros  surpreendentes:

quem pode esperar que um açougueiro exponha

uma peça de carne colocando-a, com grande sensibilidade

artística, ao lado de um vaso de flores revoltas,

que logo nos fazem pensar em Van Gogh?

  Na Holanda, como no Oriente, há quem saiba verdadeiramente

amar as flores. Em algumas cidades, as paredes

que margeiam os canais têm espaços para flores:

por  lá  ficaram  muitas  vezes  meus  olhos,  encantados

com essa delicadeza, esse amor, esse respeito. Alguém

ousará jamais tocar nas pequenas flores dos canais da

Holanda?

  Muita gente prefere, nos Estados Unidos, as grandes

cidades, com suas construções gigantescas, o cimento e

o aço sustentando a imponência de arranha-céus e pontes,

na orgulhosa demonstração do que o homem é capaz

de construir. Mas, nas cidades menores, há milhares

de  jardins  deliciosos,  com  as  mais  variadas  flores  e

ainda as experiências de flores novas de que as pessoas

se ocupam com o maior carinho.

  Os jardins do Rio vão tristemente desaparecendo. As

casas que os possuíam vão sendo substituídas por outras

construções e cada palmo de terreno anda tão valorizado

que é difícil encontrar quem o defenda para

domicílio de uma planta. Assim, quem amar flores venha

contemplar nas vitrines das lojas essas frágeis maravilhas

que brilham tão poucos dias mas. nos causam alegrias

imortais.  E  não  moram  apenas  nos  olhos  tais  alegrias,

mas  na  memória  profunda,  de  onde  às  vezes

assomam, com a cor, o perfume, a graça que lhes pertenceram.

A sensação de beleza, o sentimento de perfeição

que residem na harmoniosa arquitetura das flores

são lições para a vida humana. Pudéssemos ser também

assim, tão exatos como as flores em suas nétalas. tão

silenciosos  na  realização  de  um  destino  impecável,  e

tão prontos para morrer no momento justo! Pudéssemos

nós dispor dessa capacidade de comunicação tranqüila,

desse dom de mensagem sobrenatural que as flores possuem

e que nos arrebatam deste mundo  superficial  e

nos transferem para lugares mais distantes, mais altos,

de onde avistamos tantas paisagens humanas e divinas!

  Tudo  isso  me  ocorre  porque  estou  diante  de  uma

flor. De uma simples flor, fiel à sua genealogia, à sua

linguagem, ao seu prazo de vida. O momento da sua

duração tem muitas profundidades: túneis que me levam

para  muitos  lugares,  muitas  pessoas,  em  tempos  diferentes.

Enquanto admiro a flor solitária, e justamente

a posso  admirar melhor pela  sua  sólidão,  vem-me  à

lembrança a histôria do japonês que cultivava crisântemos.

(Isso  foi  num  jardim  do  passado,  um  jardim

muito longe, cuja realidade já se converteu em símbolo.)

Estava o jardim cheio de crisântemos, de tal maneira

cheio de crisântemos, que um homem da corte,

ao vê-lo, cai em deslumbramento, e avisa o jardineiro

de que vai trazer o próprio  Imperador para admirar

as suas flores.

  Vem, pois,  o  Imperador admirar os  crisântemos  de

um jardim. Lamento não poder descrever a sua chegada,

com o seu séquito, com todo o belo cerimonial que

deve cercar um Imperador que, ao invés de pensar em

batalhas, guerras, sangue, majestosamente se dirige para

esse jardim de cujas flores  teve notícia.  Imaginem os

senhores tudo isso, e a curiosidade dos que o rodeiam,

e o antecipado prazer desse instante de beleza que cada

um deseja e adivinha.

 Mas o jardineiro pensou que aquela profusão de flores

era excessiva, e impediria a visão exata da beleza

de cada uma. E tranqüilamente foi cortando as menos

perfeitas,  e  deixou  uma  única,  a  mais  bela,  a  mais

digna de ser admirada pelo seu Imperador.

 Assim  estou  (guardadas  todas  as  distâncias),  diante

da minha flor solitária, que resume, na sua simples presença,

muitos ramos, muitos jardins, muitos campos floridos.

E contemplo-a com muito amor, porque amanhã

certamente já teremos outro rosto; e ela não sabe, mas

eu sei o que é, sobre qualquer rosto, a passagem de

cada dia.

    117

    O TEMPO E OS RELÓGIOS

Creia-se ou não, todo o mundo sente que o tempo passa.

Não precisamos olhar para o espelho nem para nenhum

relógio:  o tempo está em nosso coração, e ouve-se;  o

tempo  está  em  nosso  pensamento,  e  lembra-se.  "Vou

matando o tempo, enquanto o tempo não me mata"

respondia-me na India um grande homem meu amigo,

cada vez que Ihe perguntava como ia passando. E aquele

menino Amal, da deliciosa peça de Tagore, imaginava

que o guarda é que fazia as horas, quando batia no

gongo: que quando o gongo soava a hora aparecia.

  Em todo caso, esses são os tempos grandes. O tempo

pequeno  é  o  dos  nossos  relógios.  Esses  altos  relógios

que em todo o mundo batem as horas, inteiras e partidas

em metades e quartos, sâo uma voz de alerta, um aviso

inquietante mesmo para as simples coisas de cada dia:

o  horário  de  trabalho,  dos  transportes,  dos  múltiplos

compromissos humanos.  Para os estudantes  que preparam

exames, para os doentes que não sabem mais de

quanto  tempo  ainda  dispôem,  a  música  dessas  torres

deve ser uma angíistia ainda maior. A própria voz das

esperanças e  dos adeuses.

  Agora pode-se ouvir o tempo  anunciado  até minuto

a minuto, o que é muito cômodo para acertar relógios.

O inconveniente é saber-se quantos anúncios comerciais

podem caber num minuto, quantas palavras podem ser

pronunciadas em tão curto tempo, e enfim o automatismo

de que ficaria possuído o homem-relógio se tivesse

de ficar toda a vida nessa função.

 Felizmente, nem todos que pensam no tempo se lembram

do relógio, e, por estranho que pareça, nem todos

que pensam no relógio cuidam do tempo.

 O moço perguntou-me:  "A senhora esteve em Brasília?"

Apenas  porque  o  vidro  do  meu  relógio  estava

nublado como um céu de chuva. Mas não, era poeira do

Rio. Enquanto esperava pela limpeza, observei os vários

problemas de outros relógios.

  "Isto é uma peça muito fina, de estimação" - dizia

um senhor cuidadoso. "Acontece gue eu tenho este relógio"

(e exibia o que levava no bolso), "que também

é uma peça muito fina, igualmente de  estimação.  Por

isso, não uso o outro. Mas trato muito bem dele. Dou-lhe

corda todos os dias, como se o usasse. De três em

três  meses,  faço  uma  verificação."  O  moço  deve  ter

ficado comovido com essa história. Porque é um caso

de amor, e um caso em que, por amor, o homem se

converte em relógio do relógio.

  Havia  casos  banais:  mocinhas  que  perderam  a  péxola

do relógio; outras que trocam a pulseira porque a

moda é outra - nesses casos o tempo não tem nada

com o relógio nem as donas sabem muito bem se o relógio

serve  para  marcar  o  tempo.  Dentro  do  mesmo

grupo estava o casal de caboclos descontente com o relógio

da sala de jantar. Casal progressista, que descrevia

a mobília nova e se alongava nas razôes pelas  quais

aquele  relógio  escuro  parecia  feioso  com  os  móveis

claros que acabava de adquirir. A esses só interessava,

na verdade,  a caixa do relógio.  (Pensei numa empregada

de outrora, que se guiava pelo céu, e um dia, chegando

tarde  ao  serviço,  pediu-me  muitas  desculpas:

"Hoje, a estrela me enganou...")

 Duas velhinhas levaxam para consertar o relógio tradicional:

"Tem mais de cem anos" - dizia uma. "Ora   ,

muito mais!" - acrescentava a outra. E explicavam ao

moço:  "Imagine o senhor que nossos avós ainda eram

vivos!" E uma esclarecia: "Na fazenda!  Nós vínhamos

fazenda de café!"

 Depois, havia a senhora inconsolável, que ganhou de

presente o seu bonito relbgio de ouro. Tão bonito, todo

enfeitado. Andou dois dias --- e parou. Ali estava na

palma da sua mão, como um passarinho morto. E ela

quase em lágrimas, esperando, confiando no moço

com aqueles ares de médico, assim de uniforme branco,

assim  de olhos penetrantes -, pedindo-lhe  a  ressurreição

do relogiozinho...

  Finalmente, houve o jovem marujo nacional, todo engomado,

com a sua brilhantina e o seu dente de ouro,

aguardando que acabassem as queixas  do desportista,

muito zangado,  porque  o  seu  relógio  à prova  d'água

entrou pela piscina - e pronto! -, não funcionou mais.

Dava  socos  na  tampa,  levava  a  máquina  ao  ouvido.

"Veja!  escute!  não anda!  não presta.. " O moço explicou

tudo, etc., e então o marujo com toda a delicadeza,

toda a graça e exatidão de uma natureza sensível,

disse baixinho:  "Este meu relógio está ntrasando meio

minuto em vinte e quatro horas."

  Ora, esse sabia o que era o tempo, levava o tempo no

seu relógio. Devia saber das estrelas que às vezes enganam,

do mundo que engana sempre, e da vida que não

engana jamais.

    120

    ARAGEM DO ORIENTE

Estes dias de canícula trazem-me à lembrança os meses

passados na  fndia, com o termômetro ainda mais

alto que o nosso e nenhuma promessa de chuva antes

da estaçâo própria. Em alguns lugares, a paisagem tornara-se

de  um  cinzento  esbranquiçado - ossos,  cal,

cinza. O peso do sol era o peso do céu. Diziam-me:

"Quando chover, fica tudo verde."

  Mas o indiano tem o prazer do ar livre. Os belos

jardins públicos estão sempre povoados de famílias que

espairecem, passeiam, contemplam as árvores, admiram

as flores, maravilham-se com os jorros d'água, os lagos,

a sombra, as cores. . . Ao ar livre trabalha muita gente:

barbeiros, costureiros, latoeiros... Ao ar livre fabricasse

e vende-se, brinca-se, estuda-se, medita-se.

  As casas  foram pensadas para um clima  assim. Os

aposentos muito altos são rasgados por amplas janelas,

grandes portas, e por cima delas, quase junto ao teto,

ainda  se  vêem  aberturas  que  facilitam  a  ventilação.

Portas  e  janelas  são  para  estarem  abertas,  no  verão,

protegidas às vezes por leves cortinas, ou por esteiras

que é costume molhar para favorecer  a frescura  do

ambiente.  Há  palhas  perfumosas,  que,  molhadas,  recentem.

Fazem-se também  quiosques  de palha trançada,

em alguns lugares e nas casas modernas existem,

naturalmente,  grandes  ventiladores  suspensos  do  teto.

O resto sâo varandas, cortinas que se levantam à menor

brisa, e repuxos: ar e água, que com o rumor de seus

jogos consolam e refrescam.

  Por outro lado, a vida indiana é simples e plácida. A

comida, leve, quase sempre reduzida a legumes e arroz,

um pouco de peixe ou de ave. Muitas frutas: as mesmas

frutas brasileiras que nos d.ão a impressão de não termos

saído  da  terra:  caju,  manga,  cocos,  tamarindo,

goiaba... E, finalmente, leite, coalhadas, queijinhos moles, creme.

  Como o sol, a certas horas, é insuportável, há trabalhos

que começam muito cedo, no campo; e nas horas

mais quentes do dia um grande sossego de sesta envolve

a  natureza  e  as  criaturas,  pxincipalmente  nos  lugares

pequenos, onde  a vida é menos intensa.

  A vestimenta típica  dos  indianos, homens  e mulheres,

além  de  sua grande beleza,  é  a mais  inteligente

que se possa usar também no verâo. O sári é um longo

pano (que pode ir de simples tecido de algodão à seda,

e à gaze mais primorosamente ornamentada)  com que

a mulher indiana faz, rapidamente, uma elegante saia,

sem costura nem qualquer espécie de prendedores, ajustando-o

ao  corpo,  pregueando-o,  fixando-o  ao  cós  da

anágua, deixando uma ponta solta, como écharpe, que

pode cobrir a cabeça ou envolver ombros e busto, por

cima da blusa.

  O  vestuário  tradicional  dos  homens  é  aquele  que

Ghandi tornou conhecido no Ocidente:  um sistema de

panos  brancos  e  flutuantes,  formando  calções  amplos

e manta para as costas. Nem todos os homens se vestem

assim, nem em todas as circunstâncias, mas os que

sabem  trazer  esse  tipo  de  indumentária  imprimem  à

paisagem  indiana  uma  nota  de  inesquecível  autenticidade.

Sandálias  recortadas  de variados modos  completam

esse guarda-roupa. E só de olhar para as vestes de

qualquer  pessoa,  para  esses  tecidos  tão  sensíveis  que

se franzem à menor brisa, pode-se ver se há calmaria ou

se algum vento se esboça.

  Como  os  indianos  são normalmente  abstêmios, mesmo

em ocasiões de festa as bebidas, de suco de frutas,

são  verdadeiramente  refrescantes.  E  as mais  belas  recepções

são, sem  dúvida, ao  ar livre, nos jardins, entre

as árvores, às vezes com tendas graciosas armadas, para

facilitarem o serviço. Quando o jardim é o do palácio

presidencial,  todo  recortado  de  canteiros  entremeados

dágua, com repuxos inúmeros, e todo bordado de flores

como um tapete, e quando a festa é uma data nacional,

não há salão que se possa igualar a esse ambiente

de flores, águas irisadas, bebidas perfumosas e

coloridas, e o fulgor das roupas orientais, de tons intensos e límpidos.

  À noite, dorme-se nos terraços, nos jardins, nas varandas,

na rua. Uns dormem  pelo  chão,  em  esteiras,

outros nessas camas de vento (na verdade, de vento.. .)

sem colchão, apenas com um trançado de cadarços em

lugar do estrado. Os estrangeiros pensam que se dorme

na rua só por pobreza, mas não é bem verdade. Há

quem transporte sua cama para o lado de fora da casa

a fim de aproveitar a fresca da noite para o repouso.

E pergunto-me se haverá muitos lugares, hoje, no mundo,

em que um mortal possa dormir tranqüilo ao  ar

livre, sem que outro mortal lhe venha tirar pelo menos

lençol ou o travesseiro.

    123

    FLORES DA  CAÇULINHA

Caçulinha, Caçulinha, recorda o tempo das flores, quando

flores eram também os teus olhos, ainda mal recebendo

as visões do mundo. Tempo da capa de fustão,

com seu capuz, tudo  aveludado por  dentro,  do  colo

morno  da  babá  Pedrina,  da  subida  da  ladeira,  rente

ao muro. O grande luar que tornava a noite muito mais

bela que o dia, com o enorme silêncio sobre as casas

fechadas. A brancura pelos telhados, pelas paredes, pelas

calçadas. Uma grande brancura que a janela deitava

no assoalho e querias apanhar cozz as duas mãos, supondo

poderes levantar como um guardanapo.

  Ah! Caçulinha, como a noite é bela para a infância,

com grandes campânulas brancas soando perfume por

cima dos muros,  com os jasmineiros  abrindo estrelas

na terra, estrelas sem brilho, diferentes daquelas altas,

na noite deslumbrante!  E adormecer com uma flor na

mão, sob a alvura do cortinado, com os mosquitos tocando

seus violinos imperceptíveis.

  Mais tarde, as flores da laranjeira perfumando as canções

de roda; o aroma que vem das plantas como a sua

respiração noturna;  o ar  delicado preparando  sonhos.

Caçulinha, como a infância pode ser bela!

  E as flores efêmeras das trepadeiras!  as que desejaríamos

conservar  e  logo  fenecem...  Cachos  olorosos,

e a beleza dos brincos-de-rainha com seu pingente amarelo

carregado  de  pólen...  A  sombra  das  goiabeiras,

precária sombra, mas com a flor estrelada que as abelhas

procuram com avidez. Tudo tão longe, Caçulinha,

no tempo, mas tudo tão absolutamente perto na memória

do, coração!

  E as flores das chácaras! O chacareiro a avisar: "Olhe

a lama nos pés, vá pelo outro lado! ", e depois do cheiro

alegre  das  couves  e  alfaces,  daquela  alegria  da  terra

molhada, num recanto discreto, os vasos de cravos com

suas antenas recurvas, com suas beiras de seda recortadas,

com  seu perfume ardente.  Que  mundo  maravilhoso,

rente ao chão, longe do movimento geral. . . E os

relógios  amarelos  dos girassóis,  enormes,  enormes,  levantados

da terra, marcando o tempo sem ponteiros!

  As  cravinas  para  serem  descobertas  uma  por  uma,

cada  qual com  sua cor, seu  desenho, seu recorte, tão

delicadamente inventadas, e sem ninguém lhes dar maior

importância.  Achavam-nas,  talvez,  pobres,  vestidas  de

chita de minúsculos padrões - e tu, Caçulinha, ficavas

perdida, a amar uma por uma, sentindo a sua delicadeza

humilde, obscura,  discreta e, no entanto,  maravilhosa

aos teus olhos novos, que apenas começavam a

descobrir esse mundo vegetal!

  E as perpétuas tristes, e as sempre-vivas em sua palha

dourada coroando o suntuoso centro de veludo. Que

fizeram  de  tudo  isso?  Desapareceram  os  jardins.  As

chácaras  tiveram  de  ir  para  longe.  Quem  usa  rama-

lhetes no peito? Ninguém se lembra das flores pequeninas...

famos  descobrir  as  violetas,  Caçulinha,  as

mornas violetas carregadas de aroma, sob as folhas redondas...

famos procurar os miosótis, com seus olhinhos

azuis refletindo nos negros canteiros a altura deliciosa

do céu. . . Cada amor-perfeito era uma noite roxa

com janelas de cores por onde descobrias o que elas

mostravam ou o que ias inventando...

  Não sabíamos os nomes das rosas... Por sua forma,

por sua cor, por suas pétalas preferíamos esta ou aquela.

Aquela rosada e quase esférica, fácil de despetalar, por

que  deste  o  nome  de  Eponina,  Caçulinha?  Parecia-se

com alguma pessoa desse nome!  Tinhas medo de que

não chegasse à escola ou à igreja. Querias a vermelha

escura, que se abria quase rasa, mas parecia firme, durável;

pedias  folhinhas  verdes  para  cercá-la,  quando

não  armavas teu pequenino  buquê  de violetas, tímido

mas fácil de usar, e entregavas à professora, que o colocava

ao peito ou à cintura. Por amor à professora, Caçulinha?

por amor às flores? Tão feliz te sentias!  e

recordo-te para  ter  agora também um momento  feliz!

  E ias com tuas rosas para a igreja, cuidadosamente,

para que não se desfolhassem... Acreditas apenas nas

grandes  dálias  esféricas,  firmes,  pomposas.  Ah!  tantas

flores nos altares, que as tuas apenas ficavam num recanto:

não davam para ornamentar...

  Saudade daquelas flores!  Os tempos são outros, Caçulinha!

Tudo  é  grande,  ornamental,  vistoso - perdeu-se

aquela delicadeza de amar. Os jardins morreram.

As  trepadeiras  foram  arrancadas.  Ninguém  se  deleita

com as árvores floridas, com o aroma das noites, com

a nervura, a cor, a forma de uma pétala. Mas eu penso

em ti, Caçulinha, continuo em ti. Levo comigo essa alegria

total que viveste, tocando, observando, respirando

flores. Quero-as em redor de mim, vivas, quase humanas,

plantadas  ou  colhidas.  Não  motivos  ornamentais

(há tantos outros! ) : uma companhia silenciosa que não

me vê (nâo me verá?), mas que talvez possa saber que

desejo não as ver mortas, que as contemplo com pena

da sua brevidade e todo o meu amor. O meu e o teu,

tão antigo mas tão permanente, Caçulinha!

    126

    O  ESTRANHO  FESTIM

A data era importante para alguns, e resolveram festejá-la,

como   é o mais  usual,  com grandes  excessos  de

comida e bebida. (Não adianta que os homens ascendam

na sua condiçâo social:  existe sempre, na maioria deles,

uma profunda atraçâo pelas coisas elementares.)

  Estudou-se com vagar o que poderia ser mais sensacional,

e, como os produtos da terra não bastassem, optou-se

pela importação de produtos exóticos.

  Organizou-se  uma  reunião,  como  para  resolver  um

grave problema de Estado, e não faltou ninguém, como

nesses  casos  sói  acontecer.  Ao  contrário,  alguns  dos

convocados  até  levaram  assessores,  pessoas  entendidas

em banquetes, especialistas em cardápios, acepipes, iguarias,

sem falar, naturalmente, em bebidas, que deviam

também ser escolhidas  com  superior inteligência e requintado

bom gosto.

  Toda essa gente,  de lápis na mâo,  como num congresso

internacional, apresentou suas idéias. E as idéias,

nesse setor, como se sabe, costumam ser mais abundantes.

E defendidas com fabuloso entusiasmo.

  Os  apaixonados  por esta bela  terra  brasileira  apresentavam

pontos de vista muito positivos: uns queriam

antas flechadas e moqueadas, cutias, pacas e tatus, peixes

do mar e dos rios, bolos de mandioca, mel selvagem,

doces  de  abóbora  e  de  laranja-da-terra...  Não

chegavam a falar em cauim, mas sugeriam bebidas de

abacaxi, guaraná e caju, muito  apreciadas  e verdadeiramente

originais.

  Mas  os  internacionalistas  falavam  de  timbales,  consomês,

cremes, valorizavam  a teminologia francesa e

não só a terminologia, mas o próprio material. Dissertavam

sobre glacês, pralinas, vinhos, queijos - e as

civilizadas frutas: o morango e a cereja, a ameixa e o

pêssego, regados por  marasquino  e conhaque.

  Havia concessões:  podia-se compor um banquete variado,

e com imprevistos nomes. Ao lado de Coquilles

St.-Jacques não ficava mal Cutia à Villegaignon ou Tatu

à  Jean de Bolès.  Ficava até muito bem!

  Fez-se  uma  lista  do  imprescindível:  aspargos,  cogumelos,

trufas... E havia o caviar! É verdade! E assim

foram encomendadas para os quatro cantos do mundo

as coisas mais raras, ou mais saborosas, ou mais elegantes,

ostras  e  nozes,  passas  e  queijos,  azeitonas  e

arenques,  e houve até  quem se lembrasse  dos "ovos

velhos" da China, que ficam enterrados não sei quantos

anos, e depois se apresentam como uma porcelana,

um esmalte, uma pedra preciosa.

 A lista era desmedida, mas contentava a todos. Além

disso  era  tanto  o  dinheiro  que  ninguém  pensava  em

despesas;  e a perspectiva de saborear tantas coisas enchia

de  júbilo,  antecipadamente,  os  estômagos  e  os

corações.

 Em breve, começaram a chegar caixas e caixotes, dos

quatro  cantos  do mundo.  Os  despenseiros redobravam

seus esforços para acomodar tantas coisas, muitas das

quais desconheciam, e morriam de curiosidade por abrir

logo aquelas madeiras e papelões, repletos de mistério.

Designou-se um intendente para dirigir aquela arrumação,

pessoa até de certa cultura, com um livro de versos

publicado na mocidade, conhecedor de vários idiomas,

um pouco pela rama, é certo, mas que dava para entender

os dizeres das encomendas.

 Na véspera da festa - como tinha sido tudo tão

bem organizado - chegaram ainda sobremesas  delicadíssimas,

sublimes invençôes de lugares privilegiados.

  E armou-se a mesa do festim. E os convidados, cada

um na sua casa, punham as suas melhores roupas para

o grande acontecimento. Tal era a fama do banquete

que,  forçando  as  formalidades,  apareceram  senhoras

e cavalheiros cujo cartâo de convite eram os ricos adereços

e os insinuantes sorrisos. E todos queriam ver a

mesa posta (um monumento!) - e extasiavam-se diante

das pirâmides de doces e frutas, e arriscavam provar

alguma  daquelas  maravilhas  realizadas  em  distantes

conventos... E endoideciam ao ver as cerejas e os morangos

da Holanda, os queijos franceses, as passas e nozes

de Portugal, os ovos da China, e todas as demais

variedades dispostas entre cintilantes cristais e pratas.

  Assim  se  foi  despojando  a  imponente  mesa.  Antes

de  aparecerem os  assados  triunfais  cujo  aroma  começava

a anunciar-se, já desaparecera metade  do que se

dispusera  na  mesa.  Desmoronaram-se  as  pirâmides  de

frutas e doces, desmancharam-se os alfenins, desenovelaram-se

os fios de ovos, as tâmaras rolaram pela toalha,

e houve damas e cavalheiros que encheram os bolsos e

as bolsas de iguarias, novidades, curiosidades, recordações

da mais bela festa do ano. Pisava-se em ovinhos

de  amêndoa,  escorregava-se  em  ameixas  esmagadas.  E

o princípio do banquete já parecia o fim. Mas bebeu-se

de  tudo,  comeu-se  sem  vontade,  só  para  não  deixar

de provar um pouco  de  cada  coisa - coisas vindas

de tâo longe, e que é preciso viajar, para conhecer. Os

intrusos faziam gestos extremamente delicados para justificarem

sua presença - quase um favor, para aquela

festa. Os verdadeiros convidados já não davam por

isso, pois tinham misturado todos os vinhos, querendo

experimentar cada um deles, e já se sentiam arrebatados

pelo espaço, confundindo a lua com os queijos e

as estrelas com bagos de uva.

 Depois da festa todos tentaram levar consigo o que

sobrara (não era muito)  como recordação sentimental.

Mas houve desentendimentos, e os despenseiros e o intendente

acharam que também deviam defender a sua

parte, nestes tempos de justiça social.

    129

    A COR DA INVEJA

Não,  não  falarei  do  soneto  de  Rimbaud  e das  cores

atribuídas às vogais. Isso todo o mundo conhece.

 Também não falarei da cor do gosto, que o Dr. Octacílio

Lopes  brilhantemente  investigou,  em  recente  estudo.

 Há pessoas que não acreditam em sonhos coloridos:

mas existem.

  Enfim,  estamos  vivendo  tempos  verdadeiramente

pictóricos, visuais, e a nossa cabeça cada vez mais se

assemelha a um caleidoscópio.

  A nossa linguagem cotidiana está cheia de cores: sabemos

o  que  significa  estar  "tudo  azul".  Antigamente,

havia "ouro sobre azul", mas depois o ouro acabou: estamos

mais moderados, pelos menos na linguagem.

  Que a cólera seja rubra ou purpúrea, não se discute,

e, em tempos muito românticos, que o amor fosse pálido,

são coisas que a fisiologia explica, e, antes mesmo

que ela explique, logo se vê.

  A saudade é roxa, sem dúvida nenhuma. Não é a flor

que colore o sentimento:  deve ser o contrário. "a um

cortinado  roxo  /  em  redor  do  coração",  diz  uma

cantiga.

  E a esperança deve ser verde, como  se aprende na

bandeira nacional, compêndio de cores belas: verde dos

campos, das searas (ai de nós!), das ricas matas (quando

não  passam  por  elas  os  incendiários  clandestinos).

  Pois eu tenho uma querida amiga que, lá de longe;

saudosa destes lugares, que se lhe afiguram o verdadeiro

Paraíso, assina freqüentemente:  "verde de inveja".

Hoje estou preocupada com essa cor da inveja. Não

deve ser o belo verde da esperança, a cor da inveja.

Deve ser um verde hepático, bilioso, um verde turvo,

com certos indícios de podridão. Vou procurar observar.

 Mas desde logo ocorre-me que não deve haver apenas

 uma inveja, mas inúmeras e todas diferentes, como

não há na verdade um único sentimento de amor, nem

a cólera é sempre da mesma qualidade. Como foi que

até hoje não prestei atenção a isso? Pois tenho ouvido

dizer que este século é riquíssimo de invejas, desde as

que se confundem com estímulo e competição até as que

se canalizam para o mais negro ódio. (Sem querer, atribuo

também uma cor ao ódio. E ocorre-me certa manhã

na  Holanda,  diante  do  mar  e  de  criancinhas  louras,

tão louras que pareciam de prata, e recordo uma senhora

que me observava a oposição reinante  desde o

princípio do mundo entre a luz e a treva, Deus e o Demônio,

as raças louras e as morenas, o dia e a noite -

mas isso leva para muito longe, e hoje eu quero absolutamente

deslindar este caso da cor da inveja.)

  Que uma jovem deseje - não digo o rosto, mas - os

joelhos da outra que pode ganhar um prêmio de beleza

é uma invejazinha modesta, juvenil. Se é verde, é um

verdezinho de alface. Creio que nem chega a ser pecado.

Pode  acabar com um suspiro, uma lagrimazinha.  Talvez

até, de dentro dessa lágrima, se possa ver que a

vida  tem  coisas  muito  mais  importantes  que  um  par

de joelhos.

 Mas há pessoas maduras que sabem tudo umas das

outras, e invejam-se com furor, misturando o verde com

o vermelho, o  que não dá uma cor muito agradável.

Há pessoas até que inventam coisas que os outros não

têm, e passam a invejar  as coisas  inventadas.  Isso já

deve ser uma palheta louca. Mas estamos em tempos de

palhetas loucas, também.Invejar não é, pois, desejar

 somente o melhor; é desejar o que não nos pertence. E até

 se pode invejar a

doença, quando a saúde é que parece um bem invejável.

Pode-se invejar a pobreza, a infelicidade. Que uma

menina ingênua tenha inveja da rica senhora que pagou

duzentos contos por um vestido, é uma invejazinha de

menina ingênua. Mas que a referida senhora tenha inveja

da menina que segue a cantiga:  "Com cinco réis

de alfinetes / se compôe uma mulher..." - essa, já

deve  ser uma  inveja  grande,  de  cor muito  carregada,

realmente,  uma  inveja  feia  de  ver.

 Não:  "verde  de  inveja"  não  me  parece  expressão

feliz. Vou prestar atenção. Convém estabelecer uma escala

de tons.  E, depois, a dos antídotos.  Se a inveja

faz mal aos outros, precisamos defender as vítimas. Se

faz mal ao portador, precisamos curá-lo. Se não faz mal

a ninguém, é mera curiosidade cromática, esta conversa.

Mas sempre é bom não esquecer que, por essas e

outras,  os  antigos  inventaram seus  amuletos.

132

    132

    ORADORES E CÃES DANADOS

Todas as tardes quando saíamos para dar uma volta,

entre o jantar e o sono, minha avó recomendava

 insistentemente à pajem Pedrina que evitasse os bêbedos

 e os cães danados. Naquele tempo parece que esses dois

perigos eram muito mais constantes que hoje.

 Quanto aos cães, mesmo danados, eu supunha que

àquela hora já estivessem dormindo. E se andassem pelas

ruas seria um pouco difícil reconhecê-los, pois, segundo

as informações que possuíamos, eram uns tristes

animais desorientados, com a língua pendente e a cauda

encolhida - tudo isso impossível de descobrir de longe,

ao  lusco-fusco.  Mas  não  encontramos  jamais  nenhum.

 O passeio, esse simples passeio lá para o lado das

palmeiras, foi sempre feliz. Os namorados conversavam

em caramanchôes no jardim, mas tão próximo às grades,

que  podiam  acompanhar  o  movimento  dos  passantes,

e todos lhes diziam: "Boa noite! Boa noite!" -

o que era uma delicada distração da época. Os caramanchões

eram cobertos de trepadeiras perfumosas, cujos

cachos, campânulas ou estrelas pendiam em guirlandas

por todos os lados. Os namorados conversavam. E nós

passávamos.

 Havia varandas com habitantes ruidosos, que se expandiam

em exclamações entusiásticas, abrindo garrafas

de cerveja, falando de águas minerais, não  do Brasil,

mas  da França,  arrastando  cadeiras,  acendendo  charutos.

Era muito engraçado.

Havia os  salões  iluminados  onde  alguém  tocava  ao

piano músicas muito variadas, que Pedrina ia classificando

de valsa,  polca, maxixe... Seguiam-se as belas

casas silenciosas, com o seu cão de ronda entre as flores,

as vastas fachadas tranqüilas, de janelas apagadas.

Pela sombra começavam a aparecer pirilampos e aquela

grande solidão me encantava. Devia ser bom viver como

pirilampo, brilhando aqui e ali, cá embaixo, lá no alto.

Devia ser bom viver como cão de guarda num grande

jardim, naquela solidão  que  entreabre  devagar  os  botões

de rosa, e faz cair em chuva as estrelas brancas

dos jasmins. Devia ser bom viver como as grandes casas

pensativas. Devia ser bom viver como a noite, que

vai escondendo tudo e tudo transformando em sonhos.

  De repente,  apareciam  os  bêbedos,  um  aqui,  outro

ali, falando para os passantes, para a solidão dos jardins,

para as  árvores, para  os muros.

  (Nesse momento, Pedrina atravessava a rua, segurando-me

com força a mão.)

 Os bêbedos eram uns pobres negros, cujas feições

nem se distinguiam; mas a pretidão brilhava aqui e ali,

como um verniz, tocada pela luz tênue da rua. Os bêbedos

estavam sempre entusiasmados. Na verdade, não

falavam:  discursavam.  E  seus  discursos  eram sobre  o

Imperador, a Imperatriz, a Princesa Isabel, a caneta de

ouro, misturados a anjos, coronéis, Dona Sinhazinha e

muitos negros soltos nas fazendas de café. Os bêbedos

não faziam mal a ninguém. As vezes, apenas, queriam

que os passantes respondessem a coisas do passado, e

os passantes não  estavam mais preocupados  com isso.

Então continuavam a fazer a apologia da Princesa Isabel,

a chorar pelo Imperador, a falar de palácios e de

igrejas, e a agradecer a Deus tanta bondade, de mãos

postas, virando para o céu a cara lustrosa e os olhos

que, à luz do lampião, pareciam vermelhos.

  Chegávamos  em  casa  conversando  também  sobre  a

Princesa Isabel, com menos ênfase, é claro. Todos aqueles

discursos de bêbedos eram interpretações populares

de páginas da História. Foi assim que eu comecei a conhecer

o Império, o Cativeiro, a Abolição e uma porção

de nomes misturados (de modo arbitrário) aos fatos

desse tempo. Pedrina, o que sabia de positivo é que a

Princesa  Isabel  dera  uma medalha  de  ouro  à minha

mãe, quando era  menina, por causa dos seus bordados,

que eram a imagem da perfeição.

    135

    FIGURAS DE MARKEN

A princípio, as figuras de Marken que uma vez ou outra

tra encontrávamos pelas ruas de Amsterdã nos pareciam

fantásticas, vindas de um outro mundo, de uma outra

era, vindas de nenhum mundo, de era nenhuma inventadas

pela imaginação dos sonhos, arbitrária. Entre os

fleugmáticos  senhores  e  os  senhores  bonacheirões;  as

velhinhas de pele franzida e olhos vivos;  a mocidade

rósea, loura, a deslizar em suas bicicletas, as figuras de

Marken passavam sérias e espectrais. As mulheres, principalmente,

chamavam a atençâo dos estrangeiros: altas,

magras,  angulosas,  de  cabelos  esbranquiçados,  ásperos,

longos,  cortados  em franja na  testa e caídos  para  as

costas e pelos ombros, lisos e secos ou guardando as

ondas  feitas  por  tranças  desmanchadas.  Calçavam  os

grandes socos holandeses, de madeira amarelada e saias

escuras .e grossas até os tornozelos. Mangas compridas,

de pano listado, tornavam seus braços maiores. O gorro

que traziam à cabeça completava a grandeza do traje.

Entre canais  e torres, seus movimentos tinham ritmos

graves: os passos carregando os socos, as mangas

listadas a articularem os braços - e os rostos, os pálidos

rostos  amargos,  severos, entre o gorro branco  e

os bordados corpetes alongavam em redor olhos claros,

vagos,  como  recentemente  acordados  e procurando  reconhecer

cada objeto, cada lugar.

   Então, os outros diziam: "São de Marken, vêm de

lá da ilha... É bonito, lá. Sâo assim feios porque pertencem

a uma comunidade que nâa se mistura... Vivem

isolados,  lá  entre.  si...  Mas  é  muito  bonito,

Marken."

  Ora, quem já viu Volendam, esse recanto turístico da

Holanda  com  suas  casotas  de  pescadores  pintadas  de

muitas e vibrantes cores; quem já viu por essa aldeia

tão  bem-arranjada  os  inúmeros  objetos  de  arte  mais

ou menos popular que esperam os visitantes ávidos de

"lembranças"; quem já entrou na pequena loja de fotografia

para sair em cartâo-postal para os amigos, vestido

com as roupas locais, os homens de cachimbo na

boca, as mulheres de chaleira de cobre na mão, como

boas donas-de-casa ocupadas com a sua cozinha;  quem

já se cansou de comer, no mesmo almoço à beira d'água,

enguias preparadas de todas as, maneiras, não se lem-

bra  de  Marken,  não  acredita  que  Marken  lhe  possa

causar  impressão  mais  saudosa que  a  desse  agradável

sítio, que é como um grande brinquedo colorido e animado,

nessa terra holandesa tâo cheia de outros encantos

angélicos:  flores, flores, flores,  carrilhões,  realejos

grandes  e belos  como  altares,  e,  de longe  em longe,

moinhos de vento, despedindo-se...

 Mas uma tarde de domingo, num barco alegre, com

um  bravo  tocador  de  sanfona  a  animar  a  excursão,

chega-se a Marken. E é outra coisa: não aquele sorriso

turístico  de  Volendam.  Um lugar  áspero:  homens  e

mulheres, meninos e meninas com suas roupas festivas.

Socos enfeitados de desenhos coloridos, corpetes de profusos

bordados policromos, chitas floridas, panos  quadriculados,

aventais,  camisas  de  listas  variadíssimas,

gorros  enfeitados,  gorros  de  renda; louros  cabelos  ao

vento. . . - e as casotas bicudas, as pontes de madeira,

as  cancelas,  tudo  limpo,  nítido,  alegre,  feliz,  decerto,

mas de uma alegria, de uma felicidade um pouco distante,

discreta, pensativa.

  Muitas  sutilezas:  meninos  e  meninas  vestem-se  do

mesmo modo até os cinco ou seis anos; mas reconhecem-se

porque o gorro dos meninos é diferente, porque

eles usam uns botões de prata na gola, porque, nas

roupas, têm uma tira branca vertical... E são lindas

crianças, todas igualmente de cabelos compridos, finos,

dourados, leves com seda desfiada.

 E vem um bando de moças de mãos dadas, e devem

contar histórias de domingo e de mocidade: e seu sorriso

é tímido, pronto a guardar-se, a desaparecer.

 Pelas  cercas, pelas pontes, perto  dos  barquinhos,  à

margem da água, as moças e crianças com seus corpetes

tes  de mil cores, suas mangas listadas e seus cabelos

louros enchem as paisagens  de Marken como pinturas

extremamente  ornamentais  tendo  por  fundo  pequenos

muros de tijolo, casas de angulosos telhados, com janelas

brancas  e  cortininhas  de  franjas  por  detrás  dos

vidros.

 Mais  tarde,  quando  se pensa em Marken, naqueles

rostos, naquelas cores, é como um sonho com um jogo

de cartas: uma tarde, entre o céu e água, as figuras

armando e desarmando festas: dama, valete, rei, dama,

valete, rei...

    138

    CURSO COMPLETO

A mocinha era tão graciosa, tâo tímida, tão meiga que

parecia uma flor do campo: uma sempre-viva, um botãozinho

de ouro. Contou-me suas melancolias de adolescente,

porque vivia na província,  tinha muita vocação

para estudos superiores,  só poderia realizá-los no

Rio de Janeiro, esta "rainha das cidades e empório do

mundo". Deixou sua casa distante, começou seus estudos,

conheceu muita gente, abriu seus caminhos, a todos

encantou com a sua meiguice e a sua timidez e,

como o tempo passa tâo depressa, dali a pouco me contou

que já possuía não sei quantos diplomas, ia conquistar

outros tantos, tudo era maravilhoso, a seus olhos; certamente

conseguiria uma viagem ao estrangeiro; a vida

é doce, a humanidade é boa, o céu é sempre azul e os

pássaros cantam todos para nós.

  De  repente,  a mocinha  aparece-me.  Continuava  graciosa,

meiga, tímida, sussurrante, embora tivesse aprendido

a falar várias línguas, e entendesse de mil coisas

difíceis que mais da metade da população  do mundo

vai morrer sem ter jamais ouvido mencionar. Sabia tudo

isso com a terminologia própria, mas também o traduzia

para a língua vulgar com tal encanto e perspicácia

que antes do fim do ano já se tinha tornado professora.

 Depois, a moça, repleta de talento e de conhecimento,

sentiu talvez que o peso de saber é muito grande

para ser transportado por uma criatura sozinha, anuncio-me

com sutil delicadeza que em breve se casaria.

Nessas ocasiões logo se pergunta com quem. Ela não

sabia. Não tinha encontrado ainda o noivo. Mas ia encontra-lo

amanhã, depois de amanhã, quem sabe? na

Praia de Copacabana, na Rua do Ouvidor, à porta de

alguma livraria, num teatro... O noivo devia andar por aí.

 Transcorre o tempo novamente - mas não com excessivos

dias - e a mocinha procura-me para anunciar

que já encontrara o noivo, e aquele ano mesmo;  sem

falta, estaria casada. Era tâo eficiente, essa mocinha! E

continuava graciosa, meiga, mesmo com aquele ar tímido

de florzinha do campo, sempre-viva ou botãozinho

de ouro.

 E assim foi. A mocinha escolheu a mais linda capela;

o mais vistoso sacerdote; o vestido de mais elegante simplicidade,

inspirado  em  modas  antigas  e  que  outrora

tornaram mais sonhadoras as princesas;  e a cerimônia

ia ser também daqui a pouco tempo e todos os dias

iam chegando às suas mãos lindos presentes.

  Por fim, a mocinha pediu-me permissão para mostrar

seu álbum com as fotografias do casamento. Era uma

obra de arte:  ali estava o seu ramo do flores, displi

centemente abandonado sobre um móvel, como a significar

que  assim  ficava  para  trás  a primeira parte  da

vida, e agora se iniciava a segunda, sob felizes signos.

 Voltei a página, e mal pude reconhecer a simples mocinha

tímida: era uma bela figura, com um vestido de

seda rija, que, justamente pela rigidez, lhe acentuava as

formas  juvenis,  a  ponto  de  desabrocharem.  Aparecia-lhe

a ponta do sapatinho, muito alto e muito elegante;

caía-lhe pelos ombros  uma pequena catarata  de tule   ;

suas unhas tinham sido pintadas de prata e um traço

de prata Ihe delineava também a pálpebra superior, como

um fino arroio marginando os curvos, infinitamente

sutis bambus dos cílios.

 Estivera tão bonita a mocinha, naquele dia, que o fotógrafo

se encantara  em multiplicar a  sua imagem:  e

ela sorria; volvia os olhos com muito riüstério; dava um

passo e detinha-se; tornava-se lânguida como as rosas;

depois  fazia-se  inflexível  como  uma  espada:  enfim,  o

ato do casamento era uma festa para os olhos, fixada

ali no cetinoso papel para todo o sempre.

  Esta mocinha é tão eficiente que daqui a pouco terá

lindos netos. E já os vejo debruçados sobre essa beleza

terrena, eles que, certamente, se casarão nas cintilantes

capelas da Lua.

141

    141

    POR FALARMOS DE CHÁ. . .

Por falarmos de chá, lembrei-me de dois poemas chineses,

muito antigos, do tempo  daquela famosa dinastia

T'ang, sob a qual floresceram tantos poetas, e acima

da qual brilharam astros como Li-Po e Tu-Fu.

  Um  dos  poemas  é  de  Lo-Tung,  grande  bebedor  de

chá, que enumerava as sensações experimentadas à medida

que  absorvia  consecutivas taças:

  A primeira taça umedece-me os lábios e a garganta;

  a  segunda,  interrompe-me  a  solidão;

  a  terceira,  penetra-me  as  entranhas,  onde  revolve

                    [milhares de ideografias estranhas;

  a  quarta,  produz  uma  leve  transpiração  que  leva,

            [através dos meus poros, o que existe de

                               [mau na minha vida;

  com a quinta, sinto-me purificado;

  a sexta, transporta-me ao Reino dos Imortais;

  a sétima. . . Ah! a sétima. . . já não posso beber mais!

  Sinto apenas o sopro do vento frio encher as mangas

                                [da minha roupa...

  Onde está o Paraíso?

  Deixai-me subir nesta suave brisa e que ela me leve

                                          [para lá!

  O outro poema, de Uang-Tsi, é em forma de mensagem:

delicada mensagem de um homem que manda a

um amigo algumas folhas de chá para agradecer-lhe um

poema de outro poeta. Diz assim:

  Para agradecer-vos por me terdes feito conhecer esta

poesia  de  Tsu-Kia-Liang,  envio-vos  algumas  folhas

de chá. São da árvore do mosteiro situado na montanha U-i.

É o mais ilustre chá do Império, como vós sois o seu

mais ilustre letrado. Tomais um vaso azul de Ni-hing.

Enchei-o de água de neve colhida, ao nascer do Sol,

na vertente oriental  da montanha Su-chan.  Colocai-o

num fogo de gravetos de roble, que devem ter sido

apanhados sobre um musgo muito antigo e deixai-o

sobre esse fogo até que a água comece a rir.

Derramai-a, então, numa taça de Huen-tcha, onde deveis

ter colocado algumas folhas desse chá, cobri a

taça com um pedaço de seda branca tecida em Huachan

e  esperai  que  se  espalhe  pela  vossa  câmara

um perfume comparável ao de um jardim de Fun-lo.

Levai a taça aos lábios e fechai os olhos. Estareis no

Paraíso.

Lidos os dois poemas, verifica-se não ser difícil chegar

ao  Paraíso. Basta saber preparar e saber beber uma taça

de chá. Notai, porém,  senhores, quantos requisitos  exteriores

e  interiores  são  necessários  a  esse  ato  aparentemente

fácil e simples!  Mesmo sem provar desse chá

de tão  remotos  séculos,  se ouvirmos  bem os poemas,

se os ouvirmos extremamente bem, chegaremos ao Paraíso.

(Mas  ainda  haverá  quem  sonhe  com lugar  tão sutil?)

    143

    A PROPOSITO DE VILA-LOBOS

Dizia-me um amigo que, em sua terra (que não era a

nossa. . . ), os artistas viviam muito mal, mas tinham

enterros muito bonitos. Não sei como terá sido o seu:

não creio que tenha tido sequer essa compensação, se

é que pode ser uma consolação atravessar a vida com

as agruras que a condição de artista fatalmente implica,

para acabar em cortejo triunfal pela cidade, como

espetáculo exemplar, estímulo e consolo de outras infinitas

gerações de artistas.

 Creio que o artista é o mais infeliz habitante da terra,

embora com toda essa infelicidade desperte em redor

de si montanhas de ódios gratuitos e matas impenetráveis

de inveja. Por que se odeia, por que se inveja uma

pobre criatura geralmente indefesa, sem sindicato, sem

montepio,  sem abono  (essas mercês  de que o homem

comum desfruta, além de outras muitas)? O artista produz

o que pode produzir a criatura humana consumida

em realizar-se de maneira sublime.  (É claro que estou

falando do artista verdadeiro!) Em geral não lhe importa

nada o que vai acontecer depois: se Ihe compram a

obra, se a entendem, se a maltratam, se os outros se

apropriam dela, ou se até lhe negam os direitos de autoria.

Enfim, o artista vai no seu destino mais ou menos

como  destituído de atributos mortais,  desgraçado mas

glorioso, muito mais perto dos deuses que levitam, do

que dos inimigos que rastejam. De um modo geral, não

chega a viver sua vida: vive apenas o que produz  -  o

que, vamos e venhamos, não se poderia considerar destino

muito sedutor para os que amam o mundo e seus

deleites.

 Mas tem sido sempre assim - com uma ou outra

exceção, como é de praxe na vida, e como convém dizer

numa crônica, a fim de amenizar o assunto, de não Ihe

dar tom pessimista e também nâo acusar a humanidade

toda de crueldade mental.

  Lembro-me, aliás, de uma coisa simpática:  nos últimos

anos da vida de Sibelius o curso dos veículos foi

desviado de sua rua, para que nenhum ruído incômodo

perturbasse o velho compositor em suas últimas produções.

Mas isso é tão belo e foi tão longe que nem parece

notícia, mas apenas sonho.

 Não conheci Vila-Lobos de perto, mas imagino que

houvesse em sua vida o cortejo de fatalidades inerentes

à sua condição de artista. Soube que seu enterro foi uma

consagração pública; mas não me parece que isso baste

nem mesmo tenha muito que ver com a importância de

sua obra.

 O que me parece muito sério é que, depois de mortos,

quando já deixaram de ser amáveis ou irritáveis, simpáticos,

ou antipáticos, e apenas são o que realizaram

menos em si do que fora de si, na paisagem do espírito,

os artistas se afirmam totalmente, purificados e indestrutíveis.

A morte não tem nada com os artistas. Eles

não são essas pessoas que vemos. Sâo como seres sobre-

humanos, passando por nós com essas roupas e sapatos

que se usam, e até fumando charutos, como Vila-

Lobos. Isso pode ser enterrado, com ou sem pompa.

Mas o seu trabalho? Como pode morrer o que é imortal?

    145

    CONSIDERAÇÕES ACERCA

    DA GOIABA

Muitas pessoas sabem o que seja goiabada;  mas talvez

nem todas  elas já tenham visto uma goiaba. Aliás, a

goiaba já fez a confusão de um velho cronista do Brasil,

que a descreveu pegada ao tronccy da goiabeira. Decerto,

entre seus olhos e seus ouvidos produziu-se uma

compreensível  atrapalhação, fazendo  falar de goiaba e

pensar  em  jabuticaba...  (A  rima,  ss  vezes,  é  traiçoeira...)

  Os  indígenas,  que  sempre  deram  nomes  certos  às

coisas, parece que a chamavam a-covab  para dizerem

que era um ajuntamento de caroços. Na verdade, ela é

pouco mais do que isso. E em certo idioma da fndia,

quando se quer dizer goiaba diz-se pêrrz, que é assim

que ela se chama.  (Agora, quando se quer dizer  pêra

não se deve dizer goiaba. .. Isso já seria engraçado demais!)

 Penso em tudo isto porque estou vendo, à porta de

uma confeitaria, uma goiaba que custa sessenta cruzeiros.

Sessenta cruzeiros: quer dizer, quase um litro de

leite, umas cinqüenta gramas de manteiga, meio quilo

de pão . . .  (Bem, nâo me atrevo a continuar, porque

os preços sobem a cada instante, e podem já não estar

atualizados . . . ) Em todo caso, a goiaba custa sessenta

cruzeiros.

  As goiabas estâo ali arrumadinhas na caixa. De aparência

modesta, mas de escandaloso perfume. As vezes

como o das angélicas, o perfume da goiaba causa até

  Segundo o padrão monetário da época, mudado depois.

um grande mal-estar. Mas é quando estâo muitas juntas;

pois,  separadamente,  desprendem  um  cheiro  delicioso.

Como as pessoas que, sozinhas" são delicadas e

encantadoras e, num grupo, não se sabe como, se tornam

vulgares e até estúpidas.

 O que eu lamento é que os passantes olhem para as

goiabas, para o preço, e não se detenham:  as goiabas

não Ihes dizem nada a não ser que são uma fruta de

cheiro excessivo e de custo muito alto.

  Isso me entristece, pois a goiabeira é uma árvore meio

torta, de folhas todas riscadinhas, e cujo tronco se descasca

como se fosse papel. Por baixo, a madeira é lisa

e bonita que nem marfim. Antes da goiaba nascer, aparece

uma flor tão alva, tão gloriosa, coroada de ouro e

seda branca! uma flor que lembra a Estrela da Manhã.

Há um movimento de vespas, de abelhas, em redor dessas

flores. Depois, a goiaba é um pequenino botão verde;

depois, é um fruto oval e amarelo, cetinoso e perfumoso.

Quando se parte, ela abre um sorriso de dentinhos

cor-de-rosa. Tão grande é o seu perfume, tão tenra

a  sua  polpa,  que,  muitas  vezes,  antes  mesmo  das

crianças, são os passarinhos que a provam. E nesse dia

cantam muito  melhor.

  Eis o que é, mais ou menos, uma goiaba. De modo

que, embora não as vendam, mas para mostrar quanto

as estimam, os senhores mercadores deviam pedir por

elas não sessenta cruzeiros - preço vil - mas seiscentos

e até mais.

    147

    TRÊS LIVRINHOS ANTIGOS

Eis-me diante de três pequenos livros do século passado,

que me deleitam, como se nâo fossem livros, mas espelhos

refletindo o viver, o sentir, o pensar dos nossos

avós.

 O primeiro é um Cozinheiro Moderno, "onde se ensina

pelo método mais fácil e mais breve o modo de

se prepararem vários manjares, tanto de carne, como de

peixe  mariscos, legumes, ovos, laticínios , etc. São quatrocentas

e tantas páginas compactas, por onde desfilam

orelhas e olhos de vitela, coelhos enrolados, perus

em globo, coxinhas de galinhas em botinas, frangos em

forma de peras; muitos caldos curativos, uns para purificarem

a massa do sangue, outros para tosses secas, para

dores de cabeça - ao lado de sopas mais alegres, como

uma "sopa saudável", uma "sopa de primavera com

ervilhas" e de uma "sopa de leite de amêndoas", que essa

já é doce e servia-se "guarnecida de biscoitos de la

Reina, ou de amêndoa". Em matéria de molhos  (isto

passando por alto muitos capítulos), há de tudo:  à es

panhola e à inglesa, à holandesa e à alemâ, à moscovita

e à provençal. P alguns têm seus patronos declarados: o

do  Conde  de Saxônia e o  do Duque de Nevers;  e

outros, vagos patronos:  o da Princesa, o do Almirante

- e o dos pobres, com azeite e sem azeite. . . Há pastelinhos,

 salsichas,  empadas,  e,  no  capítulo  da doçaria,

onde os bolos se chamam "gatéus", há os pudins,

os sonhos, os crocantes, e as "cremas", que são da Delfina,

da Abadessa, aveludadas, virgens, batidas, meringadas,

queimadas...

O segundo livro é de sonhos, Arte de Adevinhar o

Futuro, "ou explicação completa, clara e fácil dos sonhos

e  aparições  noturnas".  Creio  que  muitos  desses

sonhos  deixaram  de  constar  do repertório  onírico,  no

século atual. Mas, precisamente há um século, sonhava-se

com  abadessas,  arlequins,  boticário,  usurário,  desmaio

de senhora, desmaio de homem, ratoeira, sangues-

suga, tendas de guerra, vinagre que se bebe, vivandeiras-

e, para terminar, estes três exemplos de sonhos

maravilhosos: zéfiro, zero e zodíaco... Tudo isso tinha

seu  significado, é claro, e  este livrinho, traduzido  do

francês e que custava, no seu tempo, cento e vinte réis,

devia andar em todas as casas, entretendo as famílias,

pois já na capa avisava  ser "obra interessante  e divertida". . .

Quanto ao terceiro livrinho, é um Novo Almanaque

de  Lembranças  Luso-Brasileiro,  repositório  de  curiosidades,

poesias,  charadas,  conselhos  e  informações  gerais,

que nos fala de bruxas, feiticeiras, lobisomens  e

almas de outro mundo, do cavalo branco de Lafayette,

dos ébrios e sóbrios, dos arcos de triunfo, dos hotentotes,

dos fósseis e das geadas - enfim, uma pequena

enciclopédia, capaz de fornecer muitos motivos de conversação

para as visitas amáveis de outrora, quando as

pessoas tinham tempo de conversar, quando ainda podia

dia haver visitas, quando a amabilidade fazia parte da

boa  educaçâo.  (No  tumulto  editorial  de  hoje,  folheio

esses três livrinhos...)

    149

    O ANIVERSÁRIO

    DE GANDHI

Num dado momento, a India projetou-se no Ocidente

com um esplendor fora do comum: dois homens a tornavam

assim radiosa e atraíam para ela o respeito e a

admiração dos povos - Rabindranath Tagore e o Mahatma

Gandhi. Isso foi no tempo em que se preparava

a sua independência, para a qual, de maneira diversa

porém igualmente notável, contribuíram esses dois grandes

espíritos.  Tagore e  Gandhi parecem, na verdade   ,

resumir, entre 1920 e 1940, todas as virtudes passadas

de seu povo, e representá-lo da maneira mais adequada

para o início de uma vida nova, dignificada em liberdade

e sabedoria.

 As grandes e merecidas comemorações do centenário

de Tagore, este ano*, não obscurecem a data natalícia

de Gandhi, quase centenário também, pois nasceu a 2

de outubro de l869. Ao contrário: sob essa luz altísssima

que  ilumina  a  figura  do  Poeta,  alcança  relevo

maior a figura do Santo, esse curioso, moderno Santo

das multidões, que viveu e morreu pela independência

de seu povo e pode ser considerado o Pai da Pátria.

 Por suas origens, por seu ambiente, por sua firmação,

por seu destino de artista, caberia a Tagore essa

importante missão de fascinar o mundo: traduzidos nos

mais diversos idiomas, seus versos animam leitores desconhecidos,

servem de alimento espiritual a pessoas que

nem o conheceram e, por mais que estejam vivendo de

* 1961.

suas palavras, muitas vezes nem sabem muita coisa a

a respeito de sua vida, de sua pessoa, de seus desígnios

artisticos.

   Gandhi é quase seu oposto em tudo: e tem-se a impressão

de que a Providência reuniu essas duas criaturas

tão diferentes para, ao  mesmo tempo, mostrar a

Índia no equilibrio de  sua  diversidade,  tão  poderosa

em sonho como em ação, tão capaz de alçar-se em lirismo

rismo ao convívio de Deus como de procurar por Deus

no mais humilde caminho dos homens.

Esse humilde caminho dos homens pertenceu a Gandhi.

Ele se dispôs a experimentar em si mesmo as injustiças

de que eram vítimas seus irmãos infelizes:as

dos que pertenciam a outras castas, as dos que sofriam

humilhações de poderosos, as dos gue não sabiam como

lutar, com a sua fraqueza contra a esmagadora força

dos homens armados.

Vimos, então, esse homem de vasta inteligência, de

imensa perspicácia, de uma vontade férrea, e de uma

pureza pessoal comparável à das crianças e à dos anjos,

deixar seus trajes ocidentais, vestir-se como os ascetas

falar as multidões, ensinar justiça, aceitar prisões,

praticar jejuns, protestar  contra  os  grandes,  conduzir

sua gente por um caminho certo mas difícil, só capitulando

na morte  depois  de ter cumprido seu  longo

programa de libertação nacional.

 Outros chefes podem realizar programa idêntico   : mas

o caso de Gandhi - e é isso que o torna imortal -

é o da revolta conduzida dentro de rigorosos compromissos

de moralidade e verdade;  e, por incrível  que

pareça, sua revolução, tendo  o prazo  curto  das  revoluções,

operou-se com um espírito de educação do povo

e bem sabemos que a educação é um plano de prazo longo.

Como conseguiu o Mahatma esse milagre? Sendo um

milagre, ele mesmo.  Pois  a grande verdade,  em qualquer

acontecimento, é que os fatos valem pelos homens

que os dirigem, mais ainda do que pela idéia que possam

encerrar. E essa ausência de chefes extraordinários,

de chefes alheios a resultados pessoais, a transações e

até a vaidades de poder é que torna melancólicas muitas

façanhas históricas.

 No caso de Gandhi, vemos um homem despojar-se de

tudo, reduzir ao mínimo suas necessidades  (que resta,

de seus bens, no "Memorial" que lhe levantaram? -

umas sandálias, um bordão, uns óculos, um relógio...)

- viver na modéstia do seu retiro ou caminhar longas

distâncias  para  organizar  o  povo,  para  harmonizar  os

intelectuais e os rústicos, para coordenar todas as forças

não das armas, mas do espírito, no sentido de formar

uma barreira humana (ou sobre-humana) contra o

poderio,  a  escravidão,  a  injustiça,  impedindo  a  ação

violenta dos oprimidos, e tentando esclarecer os inimigos

sobre os seus próprios erros. Exercia, desse modo,

uma dupla atividade de educador e mestre e guia: ensinando

a uns a vencerem pela sua capacidade de sofrimento,

e  a  outros  a  se  livrarem  do  peso  de  suas

culpas.

  Para  Rabindranath  Tagore,  Deus  é  uma  expressão

de amor, é uma intuiçâo poética, é um encontro póstumo,

transcendente e definitivo; para o Mahatma, Deus

é a Verdade, a Verdade é Deus, como num postulado

científico.

  É abraçado a essa certeza, fundido nessa fé que Gandhi

empreende sua ação de condutor de um povo martirizado.

Habituara-se, desde menino, a essa nitidez de

propósitos;  suas memórias revelam-nos essa inquietação

do adolescente e do jovem para dirigir seu comportamento

dentro da lei moral inerente à condição humana,

seja qual for a raça, dentro de qualquer ambiente, sob

qualquer filosofia ou religião. Esse sentimento da universalidade

da  "lei" torna  o  advogado  M.  K.  Gandhi

um jurista diferente: ele é, antes e acima de tudo, um

servidor da Verdade, um distribuidor de Justiça. E tão

linear se torna sua atuação, diante de cada caso, que

não se pode deixar de pensar na configuração dos diamantes,

com seu brilho,  sua dureza e suas  arestas.

  Num  país  de  grande  riqueza  imaginativa,  onde  os

deuses facilmente se podem multiplicar, o Mahatma não

pretendeu subir jamais além da sua condição de homem

e  de  cidadão;  ao  contrário,  vemo-lo  constantemente

procurando descer ao que nessa condição pode existir

de mais humilde, precário, desditoso, para aprender todas

as misérias, e dar-lhes adequada solução.  Vemo-lo

utilizar transportes de ínfima classe, caminhar a pé com

os peregrinos,  interessar-se por  assuntos domésticos  de

limpeza, higiene, alimentação, sem que esse constante

pousar em níveis tão obscuros perturbe o ímpeto e a

extensão de seus vôos. Ele é uma constante demonstração

de que se pode ser feliz na mais completa humildade

de existência, desde a construção de um povo,

ao aperfeiçoamento do homem, à realização da paz e

da sabedoria numa sólida base de confiança, numa total

fidelidade  consigo  mesmo,  com  outrem,  e  com  essa

Verdade que é Deus.

  Há em Gandhi uma claridade fixa, que cativa as pessoas

de boa vontade, porque ela é uma promessa, uma

esperança de que cada um de nós pode ser assim -

de que a natureza humana pode ser sem perversidade,

sem desvios, sem lances de mentira e traição. Que esses

defeitos podem ser redimidos, que o homem pode cultivar

em si apenas o que há de generoso e nobre em

sua natureza, e que pode chegar à mais alta dignidade

sem destruir nenhuma vida, sem oprimir nem desprezar

ninguém.

 Relembremos tudo isso, nesta data do Mahatma,  a

"Grande Alma", e não nos  esqueçamos  de que existiu

no mundo um homem assim.

    153

    LIÇÕES DE BOTÂMCA

Todos achávamos o compêndio de botânica excelente:

em francês,  encadernado  em percalina  amarela,  agradável

de  tomar nas  mãos,  bom  de  folhear,  bem  impresso,

com desenhos  claros - essas coisas que nem

sempre os editores levam em conta e podem, no entanto,

ter influência na vida de um estudante e até na sua

vocação. O professor ajudava a esclarecer o texto:  depois,

procurava-se a letra a, a letra b, a letra c, todo o

alfabeto, que indicavam o que se estava estudando nas

plantas, quer inteiras, quer em seus pormenores, e nos

cortes longitudinais que mostravam seus  segredos interiores.

Era muito agradável: vivia-se em jardins, pomares,

campos imaginários. Salvo algum exemplo especial,

não se tratava de nenhuma planta, nenhuma flor, de

fruto algum. Tudo estava reduzido à idéia, nem mesmo

à  imagem  dos  objetos.  Mas  era - pelo menos  para

alguns - um exercício fácil e feliz. Assim Deus tinha

disposto  as  suas  criações  vegetais!  E  sépalas,  raízes,

pistilo, cada coisa no seu lugar cumpria uma determida

função;  e  quando  havia  aberrações,  era  outra

história. . .

 Naquele tempo não se analisava nada disso com muita

profundeza,  mas  com o  assombro  e  a  curiosidade

das descobertas. Apenas, entre as folhas dos livros e os

seus desenhos, assomava coma um fantasma bom a figura

de tio Zeferino.

 Não sei de onde ele vinha, mas vinha com o anoitecer,

como trazido pelo lusco-fusco da tarde. Trazia ramos

de flores e embrulhos de frutas. Vinha orgulhoso,

sorridente, pois tudo aquilo nascia em chácara sua, sob

os cuidados seus. Descansava os embrulhos e ramos na

mesa rústica, falava do tempo, do sol e da chuva e ainda

trazia em redor das unhas a terra dos seus canteiros.

sua chegada coincidia com a hora em que as crianças

boazinhas devem ir dormir:  de modo que sua figura

e suas falas ficavam, metade neste mundo, metade no

outro. No dos sonhos. Mas era ele que entendia e explicava

rosas e eglantinas, dálias e crisântemos, e fazia

apreciar o perfume escondido da violeta em contraposição

à  violência  do jasmim-do-cabo.  Era  um homem

singular. Falava de flores simples e dobradas e com um

canivete que exibia âs vezes, parece que resolvia seus

problemas, tornando doces as laranjas amargas e creio

que  aumentando  o  tamanho  ou  o  número  de  outras

frutas. Tudo com aquele canivete! Todos ficávamos

boquiabertos de admiração.

 Mas tio Zeferino não se gabava muito daquelas colaborações

com Deus.  Pedia umas fruteiras  brancas  e

redondas, que de perfil pareciam cogumelos, e ia dispondo

as frutas. Da laranja e da goiaba não precisava

falar, pois quem não as conhecia? Mas havia a carambola,

a nêspera, a romã, o jambo:  essas eram grandes

novidades, que nâo se encontravam em qualquer lugar.

  Tio  Zeferino  devia  conhecer  todas  as  plantas  do

mundo - pensávamos. Queríamos associar a sua figura

à dos anões de louça que, naquele tempo, habitavam

alguns  jardins.  Mas  tio  Zeferino  não  tinha  nada  de

anão:  era um homem robusto, de meia-idade, cabelos

um pouco grisalhos, e uns grandes olhos verdes, como

duas folhas. Uns olhos bons, que riam para as crianças,

para as coisas todas deste mundo que ele, afinal, com

as suas grossas mãos, ajudava a criar. Assim, contava a

história das flores e dos frutos, desde o tempo em que

eram apenas sementes, e como era a terra e o adubo e a

água e o sol, e como tudo se fazia cor, perfume, gosto,

sumo...  Falava com amor.  Pois se ele conhecia cada

limão desde quando era uma pequenina flor, e depois

se tornara um botãozinho verde `assinzinho', e se arredondara

e crescera, e agora estava ali, na mesa rústica,

ou numa cestinha onde os tinham recolhido, e perfumava

a casa toda, e estava pronto (isso nos causava dó)

para ser cortado em rodelas ou espremido em limonadas.

Mas tio Zeferino comandava esses nascimentos e

sacrifícios  com uma  superior  tranqüilidade.  Depois  de

uns, vêm outros, tudo é assim, a vida continua, a vida

vai sendo sempre: Deus não pára, vai criando, vai renovando...

Tudo isso  que  tio Zeferino  dizia não era

tirado dos livros, mas da sua cabeça, do seu coração,

da sua experiência de trabalho. Eram tão vivas as suas

palavras que ninguém deixava de acreditar. Segurando

uma dália ou uma tangerina, ele parecia um orador e

(Deus me perdoe) um orador sacro.

    156

    JUVENAL

Avisto agora o bom preto Juvenal, magro, alto, sorridente,

com um belo dente de ouro no canto do sorriso.

Quando ele aparecia à porta da sala de aula, desabrochava

de alegria o nosso coraçâo. Pois, quem não gosta

de ter um lápis de ponta muito bem aparada, pequeno

cone,  muito  liso,  de  cedro  cheiroso,  com um

bom estilete de plombagina, cuja incrível finura se experimentava

na ponta do dedo? E Juvenal trazia uma

porção de lápis,  dispostos  como varetas  de leque, e

punha-se a distribuí-los pelas crianças como quem oferecesse flores...

Juvenal batia a sineta, à hora do recreio: todos pensavam

nele, que assim marcava a hora da merenda,

hora tão grata, quando se passa do curso do Rio São

Francisco ou da Serra da Mantiqueira para o pão com

queijo e goiabada.

As meninas tinham tal gratidão por Juvenal que, ao

cantarem o Hino à Bandeira, naquele trecho que diz:

"Recebe o afeto que se encerra / em nosso peito juvenil...",

olhavam para ele, imóvel, no canto do pátio,

e brincavam: "em nosso peito, Juvenal..." O bom

preto fazia brilhar o dente de ouro no canto do sorriso,

e a voz das meninas se apagava, com a sua carinhosa

brincadeira, no grande coro escolar.

Todas as lembranças agradáveis da áula se acumulavam

naquela simples figura de servente. Era uma espécie

de mágico:  entrava com rolos  de mapas, que desenrolava

cuidadosamente  na  parede.  Os  mapas  eram

novos, brilhantes, cheiravam fortemente a verniz, a resina,

como as figuras dos brinquedos, as ilustraçóes de

certos livros de histórias, os cromos que acompanhavam

as lindas caixas de passas do Natal. O bom, preto ia

buscar nos  seus esconderijos os esqueletos e os poliedros,

o globo terrestre, o policromo bolário (que as pessoas

entendidas chamavam de "ábaco"), e aqueles maravilhos,

enormes cartões desdobráveis onde figuravam,

presos por uma linha, amostras de minerais, tubos com

sementes  várias,  e,  simplesmente  impressos  em  cores

vivas, os diversos cortes longitudinais da pessoa humana,

com  seus  segredos  interiores,  digestivos,  respiratórios,

circulatórios.  Juvenal  conhecia  tudo  aquilo.  E

transportava  tanta  ciência  com  ar  muito  sério,  compenetrado

da sua responsabilidade ao lidar com aquele

material. Os tempos eram outros. Havia uma noção de

respeito e dignidade que atingia as criaturas mais humildes.

Quando  Juvenal  retirava  a  bandeira  do  seu

lugar para entregar à criança  que  devia segurá-la, fazia-o

com  a  maior  delicadeza,  pois  sabia  que  estava

tocando no "símbolo da pátria":  e  as palavras  tinham

sentido certo, e os homens de bem, como aquele bom

preto, sabiam  manter o  devido  decoro  diante das coisas

veneráveis. Nessa ocasião nem aparecia o seu dente de

ouro:  Juvenal era um cidadão exemplar.

 Depois, sim, quando as crianças lhe encomendavam

merendas  caprichosas,  ele  tinha  autorização  de  comprar

na  confeitaria próxima:  "Um pão  doce  redondo,

com creme por cima;  se não tiver redondo, pode ser

mesmo  comprido,  sim? - mas  com bastante  açúcar

cristalizado!" (Juvenal tomava nota.) "Juvenal, Juvenal,

um  peixinho  de  chocolate!  com  recheio  de  hortelã!"

"Duas  empadas,  Juvenal,  duas empadas  de camarão!"

"Eu quero pastel de carne. Bem estufado!  Assim" -

e a menina inchava de ar as bochechas. Juvenal tomava

nota e sorria. "Ninguém mais quer merenda?", perugntava,

pronto a dobrar a sua nota de compras. Vinha

do fundo da sala uma voz tímida: "Eu queria um sonho...

Quanto custa um sonho,  Juvenal? Um tostão?

Duzentos réis?" Talvez fosse mais... Os sonhos eram

tão grandes, tão cheirosos, tanto açúcar por cima, com

tanto creme por dentro... "Quatrocentos réis?" Juvenal

ia trazer o sonho.  Depois, acertaria as contas.

 E, ao voltar, o dente de ouro cintilava no alto daqueles

embrulhos de doces perfumosos e ainda quentes.

"De quem são as empadas? E o peixinho de chocolate?

E o sonho?. .." Distribuía as encomendas, acertava

as contas, dava o troco...

  Desse modo, o bom preto conquistava todos aqueles

inocentes corações. E  havia sincera ternura na pequena

irreverência com que as meninas murmuravam à socapa:

"Recebe o afeto que se encerra em nosso peito   ,

Juvenal!" Eram só as pequeninas que faziam isso. Ninguém

as ouvia, no grande coro escolar. E não punham

malícia nenhuma no trocadilho. Era um desejo simples

e honesto de agradecer ao bom preto a gentileza com

que as tratava. Eram crianças como devem ser os anjos:

muito puras e muito sensíveis.

    159

    MARINE DRIVE

O livro abriu-se nessa fotografia de Bombaim: Marine

Drive.  Quem conheceu a Praia de Botafogo, no Rio   ,

antes  das  atuais  reformas,  poderia  pensar  que  esta

curva era a da praia carioca, e este enrocamento, e esta

amurada em que, no entanto, se vêem sentadas mulheres

indianas, de  sári,  cabelos  enrolados  na  nuca, cercadas

de crianças e desfrutando com elas da fresquidão

matinal  do mar.

 A luz do sol estende largas manchas brancas nas pedras,

no parapeito, nas roupas das mulheres, no rosto

das crianças, e na linha contínua dos edifícios, até o

fim da curva, que parece um desenho  de harpa.  Se

fosse uma fotografia colorida, esta luz estaria impregnada

de uma cintilação de coral e de ouro e a espuma

que  estas  águas  vêm  entregar  às  pedras  estaria  cheia

de chispas irisadas de diamantes.

 Marine Drive. Aquele mormaço pelo céu, pelas paredes,

pelo chão. Dentro de casa, os ventiladores rodando

quase inutilmente. Aquele torpor que talvez inutilize

para a atividade física, mas abre campos largos para

a  imaginaçâo. O informante malicioso que diz:  "Em

Bombaim,  apenas  três  estações:  warm,  warmer  and

warmest." Sim, faz muito calor. Até o grande relógio

parece  que  anda mais  devagar.  Não há um sopro  de

brisa. E as águas do mar não consolam a vista, pois

bem se vê que devem estar muito cálidas, cheias de

faíscas, de reflexos, de vibrações de fogo.

 No entanto, à noite, Marine Drive transforma-se. Passeia-se

num carro descoberto, com um cocheiro sonolento

e na verdade é como se não se estivesse passeando,

mas apenas sonhando que se passeava. De um

lado e de outro, tudo deserto. O carrinho vai rodando

e, de ponta a ponta, tudo deserto, também. Deserto e

claro: o chão, as fachadas dos edifícios, a amurada que

alonga a sua curva emoldurando o mar. Agora, não

mais a cor do coral e do ouro das manhãs de sol, mas

a brancura do luar polvilhando de prata o caminho, as

casas e o arabesco das ondas inquietas.

 Com esse rodar do carrinho por dentro da silenciosa

brancura; com esse ritmo do cavalinho a trabalhar tão

tarde, na noite; com o vulto do cocheiro imóvel; com

os amigos calados, deixando-se ir, o passeio noturno já

transcende os limites de Marine Drive: como no drama

de Kalidás, vamos subindo do chão, vamos ascendendo

pelos ares, vamos perdendo a nossa identidade terrena

e adquirindo uma natureza mais sutil. Somos os viajantes

de  uma  noite  sobrenatural,  branca  e  transparente:

vamos em direção às estrelas, e das casas todas

fechadas ninguém assiste à nossa evasão.

 Essas casas são, na verdade, edifícios de vários andares,

de arquitetura sóbria, alinhados, que a claridade

do luar transforma numa alta e longa muralha branca.

Embora fechados, ainda se nota, ern alguns, leves

pontos de iluminação. E desses incertos lugares vem aos

nossos ouvidos um som de música oriental, muito plangente,

que  paira  suspensa  na  noite  como  o  perfume

nos jardins.

 Oh! o indeterminável passeio por Marine Drive! Bombaim,

cidade tumultuosa, de multidões apressadas, oferece-nos

este momento único de solidão e silêncio, esta

avenida de sonho atravessada por um simples carrinho

onde  quatro  pessoas  extasiadas  se  deixam  conduzir

tranqüilamente,  sem  obrigação  de  chegar  a  lugar

nenhum.

  Mas um outro som se levanta, agora muito mais próximo:

o de uma frauta rústica, de música indecisa, inventada

lentamente, nota a nota; nùma delicada experiência.

De onde vem essa música, tão doce de ouvir

porque se sente que está sendo criada com amor, por

uma necessidade veemente de expressão, sofrimento que

poderia ser grito, mas que se transforma em suspiro e

cadência e melodia...

 A música vem do lado do mar: vem das pedras do

enrocamento. Ali, à beira d'água, onde a espùma também

reduz a um sussùrro a larga voz das ondas, o músico

invisível está modelando os sons de uma obscura

frauta para contar à noite, ao céu, à solidão os segredos

da sua vida. Até muito longe nos acompanha a vaga

melodia que poderia ser a linguagem de qualquer um

de nós.  Cabem dentro  dela nossas lembranças,  nossas

perguntas; nossas saudades. E o carrinho vai rodando

cada vez mais leve, como por cima da música.

    162

    O GURUDEV

Como a Gandhi se impôs o título de Mahatma, a "Grande

Alma", por sua dedicação à Verdade e à salvação de

seu povo, a Rabindranath Tagore se chamou o Gurudev,

o "Professor" - não no sentido mais ou menos aleatório

de mero transmissor de conhecimentos, mas com o

significado profundo de um formador de almas, de um

Poeta atuante, capaz de abrir para os discípulos - ou

simples leitores - caminhos largos e claros de pensamento,

de sentimento, de compreensão da vida, de entendimento

das  nações, com o instrumento  da Beleza,

que também não é mais que o esplendor da Verdade.

Foi por issa mesmo que, embora profundamente  diferentes,

num dado momento Gandhi e Tagore coincidiram,

como  diversos  mas  igualmente  admiráveis  representantes

da India, aos olhos de seu país e diante do

mundo. E foi assim que, atuando cada um no seu setor,

contribuíram  ambos  para  transformar  a  sorte de  seu

povo.

  Rabindranath  Tagore  é  conhecido  no  estrangeiro

principalmente como Poeta. O prêmio Nobel de 1913 e

as numerosas traduções de sua obra em vários idiomas

ocidentais concorreram para fazê-lo admirado por toda

parte. Pouco tempo depois, Gandhi observaria que "o

poeta da India" estava a ponto de se tornar "o poeta

do mundo".  E  na verdade,  se recordarmos os  poetas

da Europa que se comoveram com sua pessoa e com

seus poemas, sentimos que ele foi o grande intérprete

de sua terra, naquele momento, e do que ela possui

de mais alto e puro, em força delicada, poder espiritual,

serenidade  e  inspiração.

 Mas Tagore não foi apenas esse imenso Poeta que

se nos tornou familiar mediante traduções - pois apenas

uma parte de sua obra foi escrita diretamente em

inglês, ou por ele traduzida do bengali. Foi dramaturgo,

romancista e contista, para falarmos apenas da sua

atividade literária. Em todos os gêneros, sua sensibilidade

poética permanece a mesma; no entanto, há páginas

suas de leve malícia, com certa sutil penetração

satírica,  especialmente  as  de memórias,  quando  se refere

a seus tempos de estudo e primeiras experiências.

Em muitos casos, é um precursor, segundo a crítica de

seu país, quanto aos gêneros, e um grande estilista em

seu idioma.

 Seu teatro nâo é fácil de definir: o gosto ocidental

reclamará, no texto, os conflitos a que está acostumado.

O texto tagoreano é muito depurado, quase puramente

lírico,  sem  a  movimentação  dos  diálogos  ocidentais.

Como se em lugar de conflitos houvesse apenas aspira

ções,  inquietaçôes, e cada personagem  se  desenvolves

se numa atitude isolada - como coreograficamente,

num mundo de outras dimensões, de outros dramas -

diante de um acontecimento, um mistério, uma revelação

que ardentemente se espera, se contempla ou

recebe. Essa obra teatral, literariamente, pode ser conciderada

como uma série de poemas dramáticos, muitas;

vezes  enriquecidos  com  música,  dança,  canto,  coros

também de Tagore.

  Assim como a pintura e a poesia, a música da India

é cheia de sutileza, com modos peculiares de expressão

obediente  a cânones  tradicionais  que  a tornam pouco

acessível a um  auditório não familiarizado com a estética

indiana e o sentido das ragas.  No entanto,

canções de Tagore são tâo difundidas, em sua terra, que

certa  noite,  num  grupo  de  pessoas  do  Oriente  e do

Ocidente que cantavam canções populares, a moça indiana

que cantou também uma saudosa melodia estava

cantando uma canção do grande Poeta. Suas palavras

e sua música circulavam assim como a voz do próprio

povo, quase com a glória do anonimato.

  Poemas,  contos,  canções,  romances,  teatro,  música,

tudo converge para um fim superior, na obra de Tagore.

É uma obra altamente educativa, sem nenhuma

aparência  ou  intenção  didática.  Ele  não  acreditava,

aliás, em métodos de educação que não fossem inspirados

em grandes sentimentos. Os pedagogos deixavam-no

apreensivo. Queria educadores capazes de amar seu

ofício e seus discípulos, de amar a vida em sua totalidade.

E, sem desconhecer os sofrimentos deste mundo,

gostava de mostrar caminhos de alegria, esses caminhos

por  onde  os  corações  felizes  e  agradecidos  vão  sem

medo ao encontro do seu Amor. Caminhos do fim do

mundo, onde todos se reconhecerão.

    165

    HORA JAPONESA

Desembaraçados  dos  sapatos - como  é  de uso,   no

Oriente, para se penetrar em recinto sagrado - transpõe-se

o limiar da sala onde se vai servir o jantar.

  Oh!  como é sábio o Oriente!  Os pés fatigados por

estas duras caminhadas de pedras e asfaltos, sentem um

delicado prazer ao pisarem na branda esteira, que forra

o  pavimento:  esteira  tornada  ainda mais  branda pelo

artifício de algum suave plástico que, colocado por baixo,

lhe empresta uma espessura de tênue colchão. Os

pés  se  sentem  repousados  e  agradecidos:  e  logo  esse

bem-estar se comunica a todo o corpo e à própria alma.

Assim começa, de maneira tão humilde, a felicidade da

hora japonesa.

 A sala é simples, e essa simplicidade nos oferece um

ambiente de ditosa calma. Apenas um kakemono ornamenta

a parede com seus caracteres, falando de uma

flor que se abre sobre os quatro mares - poema que

cada  letrado  presente  interpreta  a  seu  modo.  (Esses

poemas  do  Extremo  Oriente  podem  ser  interpretados

de muitos modos - parece-me - mas estão incorporados

à vida humana: não são para serem lidos, apenas,

mas  vividos.  Creio que, no Oriente,  é mesmo difícil

separar, entre as pessoas verdadeiramente cultas, a vida

e a poesia.)

  Cada  convidado  encontra  numa  pequena  cestinha,

em forma de canoa, um guardanapo, tão bem enrolado

que forma um compacto cilindro de pano. Desenrola-se

esse  guardanapo  que  foi  assim  espremido  depois  de

mergulhado em água quente, e obtém-se uma agradável

compressa para limpar as mãos, antes do jantar. As

mãos ficam tão frescas, tão novas como se as fôssemos

usar pela primeira vez.

E  então  aparecem  as  lindas  moças  japonesas,  com

seus  discretos  e  elegantes  quimonos,  e,  entre  genuflexões,

distribuem  pelos  convivas  pequenas  bandejas

acharoadas,  com umas  tigelas  tão lindas  e  arrumadas

com tal encanto que não se sabe se aqui se deve comer

com os olhos, apenas, ou também com a boca, de maneira

vulgar. Pois o alimento, que se apresenta em pequenas

porções,  vem  disposto  artisticamente,  além  de

ser artisticamente preparado. As pequenas fatias de peixe

cru têm um aspecto cristalino, mineral, assim alvas,

translúcidas, com leves insinuações róseas;. ou alaranjadas.

Há umas sardinhas que parecem pequenas noivas,

envoltas numa vestimenta branca, num orvalho de diamante.

E umas três rodelinhas, como de porcelana, que

se acomodam ao lado, são também pedacinhos de outro

peixe, que nunca tínhamos conhecido sob esse aspecto.

Essas minúsculas iguarias sâo para se colher com as varetas

de madeira apresentadas na bandeja, e saboreiam-se

depois  de mergulhá-las  no molho de  soja de uma

tigelinha  menor.

Uns bebem sakê, que é uma bebida extraída do arroz;

outros se deliciam com o karpes, extraído do leite

- branco,  adocicado,  perfumoso -,  e  que,  segundo

os japoneses, tem o gosto do primeiro amor, pois à sua

doçura acrescenta um ressaibo levemente acidulado. Uma

romântica bebida, que não contém álcool, que não embriaga,

mas refrigera e consola o coração.

As moças que andam em volta da mesa, como pássaros

próximos  e  coloridos,  levam  e  trazem,  por  entre

suaves sorrisos, novas tigelas, em suas pequenas bandejas

individuais. Parece que todos os peixes do mar desfilam,

em  apresentação  delicada,  nesse  espetáculo

poético que é a culinária japonesa. E vem o rubicundo

camarão cozido, com sua armadura de coral; e há fatias,

rodelas, tiras - barbatanas? cartilagens? - de outros

produtos  marinhos  que  só  os  entendidos  sabem  logo

distinguir, com um simples olhar.

 A certa altura, as lindas moças trazem sopa de ovo e,

mais adiante, pratos com frutas, onde os bagos de uva,

esverdeados  e  transparentes,  brilham  com  seu  ar  de

pedra preciosa ao lado da rubra melancia de polpa cintilante

e do caqui descascado e dividido em quatro partes,

pois, segundo soube mais tarde, é nesse ponto de

amadurecimento,  ainda  nâo  convertido  naquele  deleitoso

creme  que  os  ocidentais  apreciam,  que  o  caqui

é verdadeiramente elegante e digno de ser oferecido aos

convivas.

  Não falo da louça, da ornamentação da comida -

uma folha de salsão, aqui;  um talo de gengibre avermelhado,

acolá;  pedacinhos de cenoura cavada recheados

com molhos imprevistos... -, não falo do chá

que se vai bebendo em chávenas sucessivas, fugindo à

realidade, voando pelo sonho... Não falo do rosto das

moças,  com um suave polimento de marfim, onde os

olhos são de ônix negro. Nem falo das suas vozes, que

quando cantavam - pois  também cantavam!  - era

como se saíssem de seus breves lábios muitas flores e

borboletas. Falavam de cerejeiras, falavam de neve. Era

muito doce, mas também talvez um pouquinho acidulado

como aquela bebida branca que tem o gosto do pri-

meiro amor...

    168

    OUTRO NATAL

Cerca de seiscentos anos antes de Cristo, na fndia distante,

uma rainha depois de vários sonhos significativos,

interpretados  por  inúmeros  sábios, teve um filho que

recebeu o nome de Siddhartha. Muitas coisas miraculosas

aconteceram então. E de uma das montanhas do

Himalaia  desceu um  homem  santo  que tomou o  menino

nos braços e profetizou que ele seria um Buddha,

isto é, um Iluminado. Disse mais: se ele ficasse no seu

reino, seria um grande monarca; mas, se partisse pelo

mundo, seria um grande Mestre da humanidade.

  O  rei fez  tudo  para  cercar  a  príncipe  de  coisas  e

pessoas amáveis, e satisfazer-lhe todos os desejos. O príncipe

cresceu,  estudou,  casou-se,  participou  de  muitas

festas, e o rei desejava que a sua sorte fosse a de um

monarca feliz, entre vassalos felizes.

  Mas uma vez, passeando na sua carruagem, o príncipe

encontrou no seu caminho um velho, que a idade

empobrecera e enfraquecera, e que lhe estendeu a mão,

pedindo uma esmola. E Siddhartha aprendeu que todos

os homens, com o tempo, podiam chegar àquela triste

situação. Grande foi a sua tristeza, qua o rei tentou

atenuar com festas e distrações. Mas o príncipe encontrou,

a seguir, um homem doente, que gemia, caído na

estrada; e mais tarde viu mulheres que choravam acompanhando

um enterro. Mas um dia encontrou também

um homem de cabeça raspada, vestido de roupas simples,

que pedia um pouco de comida numa tigela.  E

soube que aquele homem abandonara o mundo, dera

aos outros o que possuíra, e vivia apenas de esmolas.

Esse último encontro foi decisivo para a sua vida. "Farei

como este homem. Abandonarei o que é meu. Irei

pelo mundo afora. Terei paz de espírito. E ensinarei a

humanidade a vencer as desgraças da vida."

  Sofreu muito para deixar o palácio, pois acabava de

nascer o seu primeiro filho. Nem se despediu da princesa,

para não a despertar. Partiu com um criado fiel;

e diz a lenda que ninguém ouviu os passos do seu cavalo

porque os deuses haviam juncado o chão de flores,

para  ensurdecê-los.  Siddhartha  encontrou  o  Demônio,

ao sair da cidade. O Demônio aconselhou-o a não partir:

dentro de sete dias, dar-lhe-ia todos os reinos deste

mundo, para que ele os governasse. Mas o príncipe respondeu-lhe

que não  queria  bens  terrenos;  queria apenas

ser um Buddha, um Iluminado, para poder tornar

felizes todos os homens. E o príncipe procurou entender

o mundo, conhecer a Verdade, a causa do sofrimento

e a maneira de acabar com o sofrimento. E começou

a ensinar a alguns discípulos maneiras corretas

de viver:  saber crer, ter altos objetivos, falar com benevolência,

ter  uma  conduta  perfeita,  uma  profissão

honesta, ser perseverante na bondade, usar dignamente

da inteligência, saber meditar.

  Já era, então, um Iluminado. Praticou e ensinou largamente

o bem, não apenas entre os homens, mas também

para com os animais. Sua doutrina foi a da não-

violência.  E  seu  prestígio  dilatou-se  pela  terra  e  da

lndia passou para o Extremo  Oriente,  e hoje,  até no

Ocidente, seu nome é venerado com amor e respeito.

 Em Ajanta, na India, à mar em de um curso d'água

de que vi apenas o leito, alinham-se as várias capelas

de um antiqüíssimo mosteiro budista. Tudo cortado na

pedra e recoberto de pinturas que se tornaram célebres,

Essas grutas, hoje vazias,  são  apenas um dos  grandes

monumentos de arte da fndia. Mas a doutrina do Buddha

impregnou o coração das criaturas, e naquele lado

do  mundo nem os  passarinhos  fogem com medo  dos

homens.

  Agora há pouco, assisti em São Paulo, num templo

budista,  à  comemoração  do  nascimento  do  príncipe

Siddhartha.  Uma  cerimônia  simples,  com  recitação  e

canto  em japonês, uma breve palestra em português,

alguns slides sobre a história do Buddha. Numa espécie

de pequeno  andor, enfeitado de flores e colocado

no  meio  da  sala,  havia  uma  pequena  imagem  do

Buddha. De cada lado, um recipiente com chá. Os fiéis,

a certa altura da cerimônia, faziam uma reverência ao

jovem príncipe, representado não na postura consagrada

de  Iluminado, mas  de pé,  e vertiam sobre  a sua

imagem uma colher de chá, como alusão ao seu primeiro

banho. A atmosfera, simples e cordial, recendia aos

incensos  que, no  Oriente,  sâo usados  em quase todas

as  cerimônias.

 E, entre estes dias tumultuosos, pesados de ambições

e   violências,  comovia-me  assistir  àquela  celebração  de

aniversário de um príncipe que há cerca de dois mil e

quinhentos anos abandonou todas as suas riquezas para

ensinar aos homens o caminho da felicidade, que é o

da sabedoria. Tão longe, no espaço e no tempo, ali se

festejava o seu nascimento. Ali se renovava a esperança

de  um  constante  aperfeiçoamento  do  homem  em

seus pensamentos, sentimentos e atos. De uma disciplina

espiritual. De uma vontade efetiva de ser melhor. A fumaça

do incenso  perfumava  esses  sonhos, e levava-os

para  o  céu.

    171

    CONVERSAS ANTIGAS

    DE FIM DE ANO

- Teria sido Juvenal que cortou todos esses ramos de

mangueira?

  - Não:  eu  creio  que  Desidério  ajudou.  Ele  sozinho

não podia fazer todo o serviço.

 - Desidério é horrível, não é? Tem um nome tão

feio, tão feio... E ele parece um homem fantasiado de

urso, não  parece?

 - Não acho, nâo. Desidério não é bonito. Mas eu

gosto do nome dele. E tudo que ele faz é bom. Viva o

Desidério!

 - Que menina insuportável. Isso é hora de dar vivas

a alguém?

 - Não.  A  ninguém.  Só  ao  Desidério,  que ajudou

Juvenal a cortar os ramos de mangueira!

 (O pátio da escola está juncado de folhas. Sente-se

um cheiro delicioso como se agora se habitasse dentro

das árvores: um cheiro de seiva úmida, viva, quente. O

palco também está juncado de folhagem e passam festões

de folhas de um lado para outro, na parte de cima,   ;

entremeados a fitas verdes e amarelas.)

 - Julinha! Zuleica! Mas que vestidos bonitos vocês

têm! Como brilham! Que fazenda é essa?

 - A fazenda não sei como se chama: deve ser nanzuque

ou mol-mol. Minha mãe é que sabe.

 - Mas,  por baixo,  temos  sombras  de  cetim.

 - Ah! e as rendas. . .

 - As rendas são estrangeiras.

 - Tão bonitas!

 - O seu vestido é o mesmo da última festa, não é?

 -  o mesmo. No ano que vem terei um novo. Não

me importo com isso. Estava ficando curto, minha avó

abaixou duas pregas. Mas a minha faixa é nova. Também

é estrangeira. Eu gosto muito da franja, não é

linda?

 - Julinha! - Zuleica! Vamos dar uma corrida até

o portão!

 - Eu não posso. Meu vestido é muito fino.

 - Eu também não. Meu sapato é novo e está um

pouco apertado.  ruim sapato apertado, não é?

 - E, faz bolhas no calcanhar.

 - Está uma beleza, a escola. Tudo coberto de folhagem

de mangueira. Até dá um pouco dor de cabeça.

A senhora não vai logo à festa?

 - Não, os meus filhos estâo em escola particular.

 - E aprendem muito?

 - Aprendem alguma coisa:  e os seus?

 - Oh! os meus estão adiantadíssimos. Nem gostam

de livros; mas sabem tanto que meu marido fica admirado.

A maiorzinha até vai cantar hoje uma cantiga em

japonês!

 - Em japonês!

 - Sim, senhora. Tem quimono, tamanquinhos, flor

na cabeça, um leque enorme e canta Chon kina chon. . .

 - Chon kina chon? Que é que isso quer dizer?

 - Ah! não sei, mas é uma beleza. Ela canta virando

o leque por cima deste ombro, por cima do outro. Todo

mundo bate palmas!

 - Julinha! Zuleica! Não podemos ficar juntas! Que

pena! Cada um tem de ir para a sua fila! Por que você

está triste, Julinha?

 - Minha mãe vai ficar zangada:  puxaram-me pelo

vestido, e olhe a renda como ficou!

  - É mesmo! E Zuleica? Também rasgou o vestido?

  - Não: eu não posso pisar com estes sapatos! Nâo

posso  andar!  Não gosto de sapatos  novos!

 - Oh! mas já vai começar a festa. Vocês viram que

porção de prêmios nós vamos ganhar?

 -  Ah! eu não vou ganhar nenhum.

 - Eu  também não.

 - Como é que .vocês sabem?

 - Pelas notas.

 - Você não ouviu a professora dizer que nós tínhamos

estudado muito  pouco?

 - Ah!  não  ouvi.

 - Já começaram a tocar o hino? As crianças já vâo

cantar?

 - Creio que ainda não. É alguém que está experimentado

o  piano.  Parece  que  aqui  na  escola  há  uma

menina que é um gênio, como pianista.

 - Então vamos prestar atenção. Pode ser ela.

 - A senhora viu aquela meninazinha amarela que

recebeu uma porção de prêmios? Não tem pai nem mãe.

Estuda  tanto,  sabe  tanto,  que  é  a  melhor  aluna  da

escola.

 - Qual é? Aquela ali?

 - Aquela mesma. O vestidinho dela já nâo é novo:

mas está muito bem engomado.

 - Esses babados de bordado inglês são muito vistosos.

 - E viu que faixa bonita ela traz à cintura? Deve

ser francesa. A faixa é nova.: Não há outra igual em

toda a escola.

 - Parece  que  eIa nem  se importa  com isso!  Não

está vendo? Sentou-se num galho de mangueira que estava

tava no chão, e está roendo um biscoito, como quem

nem sente o gosto; e com a outra mão vai folheando

um  dos livros  que  recebeu.  Olhe  quantos lhe  deram:

um,  dois,  três,  quatro...

- São bonitos, não são, esses livros vermelhos de

beira dourada?

                              175

FIM do LIVRO

 

Comments (0)

You don't have permission to comment on this page.